A Última História do Planeta (ry)

A última história da série Planetary, escrita por Warren Ellis e desenhada por John Cassaday, permanecia inédita no Brasil. Mês passado a Panini Comics publicou a derradeira edição, revelando o destino dos arqueólogos do impossível. Eu fiquei devendo um post sobre Planetary. Vou tentar escrever ainda que não fique justa a descrição.

Planetary é uma série sobre o século XX, que foi encerrada no século XXI. Ela foca em Elijah Snow, um dos chamados “bebês do século” que, junto com Jenny Sparks (o espírito do século XX, do Authority) e muitos outros que são revelados na trama, possuem poderes extraordinários. A busca de Snow, Jakita Wagner, Baterista e Ambrose Chase pelos mistérios do mundo é o mote desta série. “É um mundo estranho. Vamos mantê-lo assim”, é o lema repetido inúmeras vezes por inúmeros personagens.

Ela é mistério, com esse jeito sério, pode esconder uma paixão. Ela é segredo, ela mete medo, só pra conquistar seu coração!
Ela é mistério, com esse jeito sério, pode esconder uma paixão. Ela é segredo, ela mete medo, só pra conquistar seu coração!

+ CIÊNCIA, – FICÇÃO

Usando de histórias fechadas, mas que cada vez vão sendo mais interligadas entre si, Ellis viaja pelo século XX, usando de inúmeras referências. As maiores delas, talvez, estejam nos quadrinhos de super-heróis. Ele presta uma homenagem a este tipo de produção cultural de uma forma sutil, mas ainda muito presente se formos analisar todas essas representações. Há comparações com o Quarteto Fantástico, com a Liga da Justiça, Nick Fury, Shazam, com o Quarto Mundo de Jack Kirby, inclusive com o conceito de omniverso/multiverso criado por Alan Moore em Capitão Bretanha.

Outro ponto forte da série é a ficção científica, que aqui é cada vez menos ficção e muito mais ciência, pois são conceitos, que teoricamente poderiam ser utilizados. Ellis usa desde a ciência básica do século XIX até a avançada física quântica, citando o famoso gato de Schroedinger, e da positividade de Heisenberg, em que “uma coisa se dá de acordo com a observação do observador”.

Ellis e Cassaday matando um leão por dia!
Ellis e Cassaday matando um leão por dia!

REZE PARA O GATO ESTAR VIVO

Assim também funciona a Teoria da Recepção, da qual eu já falei aqui. A interpretação de um texto depende também da bagagem cultura do leitor, principalmente se tratando de quadrinhos. Muita gente me fala que não consegue ler quadrinhos por não ter a cultura de casar imagem com linguagem, ou de interpretar a imagem como uma forma de linguagem, tão acostumados estão a usarem apenas o lado esquerdo do cérebro, o lado do raciocínio. Os quadrinhos, em sua linguagem pictórica e textual e sua natureza como arte sequencial estática, permitem que um manancial de referências sejam instilados em seu conteúdo. Mas isso, claro, depende da intenção do observador. É por isso que Planetary é uma HQ que permite diversas leituras. Histórias em quadrinhos deste tipo, recheadas de referências sempre rendem bons Annotateds, aqueles sites que revelam toooodo o rol de citações de uma obra.

Para quem gosta de Ficção Científica e nunca leu um quadrinho sequer, Planetary é a opção mais indicada. Mas também é para aqueles, que ao contrário, possuem alguma ligação com a espiritualidade. Rituais xamanísticos são uma constante temática nos escritores ingleses de quadrinhos. Ellis, porém, ultrapassa estas barreiras, indo além do misticismo e tentando explicar a religião de forma científica. Até para o sentido da vida ele tem explicação. Quer saber qual é? Então leia essa HQ.

Vai Brienne de Tarth! Opa, é a Monet St. Croix!
Vai Brienne de Tarth! Opa, é a Monet St. Croix!

A narrativa limpa e widescreen de John Cassaday nos dá uma impressão cinemática da ação. Talvez a sequência mais emblemática da série, seja a luta de Jakita com John no antepenúltimo número de Planetary, que tem uma força tão grande que me fez sentir o combate como se estivesse assistindo em movimento. Torci por Jakita da mesma forma que vibrei por Brienne na luta contra o Cão de Caça na season finale da 4ª temporada  de Game of Thrones.

O LIVRO ILUSTRADO DOS MISTÉRIOS

Certa vez eu queria comprar um livro ilustrado chamado O Livro Ilustrado dos Mistérios. O fato é que nunca consegui encontra-lo. Mas, de certa forma, realizei essa vontade ao ler Planetary, que envolve muitos dos mistérios do século XX e de tempos anteriores e, talvez, posteriores. Em um post fiz uma comparação entre Planetary e A Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O’Neill. O básico daquela comparação era que a forma como Ellis insere as suas referências se dá de uma maneira menos intrínseca do que as de Moore, permitindo a leitura sem compromisso com as citações.

Snow. Jon Snow. Só que não.
Snow. Jon Snow. Só que não.

Para além disso, a visão de Ellis sobre o Quarteto Fantástico, rendeu, nas mãos de Brian Michael Bendis e Mark Millar a nova roupagem para o Quarteto Fantástico Ultimate. Esse volume, mais tarde, passaria às mãos de Ellis, que lá utilizaria o mesmo conceito do universo “pilha de panquecas”: universos restritos, empilhados um sobre os outros gerando o conceito de multiverso. Aos que os atravessavam, poderes eram conferidos.

Muitas outras histórias em quadrinhos se tornaram o legado de Planetary, utilizando ideias semelhantes ao desfile de conceitos manipulados de maneira fantástica por Ellis e Cassaday. Planetary, como sinalizei, é uma daquelas HQs que merecem uma segunda ou uma terceira leitura, porque assim como o multiverso é uma “pilha de panquecas”, a leitura de uma obra referente como essa também é feita de diversas camadas. Cabe a nós atravessarmos elas e ganharmos fantásticos poderes.

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