quadrinhos, Resenhas
Comentário 1

É um barato: Baratão 66, de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum

Dadá Maravilha

Dadá Maravilha

AVISO: esta resenha não é recomendada para pessoas politicamente corretas e de mal com a vida. Nem para menores. Nem para preservadores da moral e do bons costumes. O motivo? Já digo de cara: Baratão 66 é a história de um estabelecimento que de dia funciona como instituto de depilação íntima e à noite se transforma no Baratão 69, um bordel com tudo que se tem direito.

Baratão 66 é um escracho. Uma forma de entretenimento bem brasileira. A HQ flerta com o kitsch, com o over e, principalmente com o brega, com citações de Waldick Soriano e Odair José. A obra mostra sua brasilidade nos desenhos do Luciano Irrthum, que emulam os cordéis em seus detalhes e traços pesados da xilogravura. Além disso, a HQ é impressa na cor roxa, lembrando os antigos mimeógrafos, dos quais ainda temos uma reminiscência do cheiro de álcool, material que auxiliava as professoras e outros utilizadores do aparelho para reproduzir e distribuir conteúdo.

Mas a brasilidade de Baratão não está encerrada no modo de produção, mas também no jeito nordestino peculiar das personagens. Há o jeitinho brasileiro de ganhar a vida, dos modos diários, as expressões, a politicagem e a política dos “interésses”. O universo da prostituição, interiorano, tão comum na produção brasileira seja nas novelas ou nos livros.

Ele vai dá uma mimeografada na barata dela...

Ele vai dá uma mimeografada na barata dela…

Por vezes, Baratão 66, nos leva de volta aos anos 80, lembrando trabalhos undegrounds brasileiros como Circo e Chiclete com Banana, e alguns trabalhos da MAD. Mas também traz o frescor de uma narrativa totalmente nova, quando os autores usam o álbum de retratos da personagem Dadá para expor sua história de vida.

Criativo e original, usa a depilação íntima como mote e incidente incitante de toda a história. Nos desenhos não somos poupados de nada, está tudo ali explícito, escrachado, como disse anteriormente. Esse “não se levar tão à sério ao mesmo tempo que finge se levar a sério” presente na obra de Bruno, é que nos presenteia com boas gargalhadas. Os recursos que ele utiliza são textos metalinguísticos, como em seu outro livro, A Intrusa. Autores falando sobre a obra, analisando-a – talvez como eu esteja fazendo aqui. Finais em que o destino dos personagens é revelado, como se fosse tudo baseado em acontecimentos reais.

Baratão 66, de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum (Pitomba/Beleléu, 192 páginas, 2013, R$ 35,00)

Baratão 66, de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum (Pitomba/Beleléu, 192 páginas, 2013, R$ 35,00)

Outro ponto alto de Baratão 66 são os personagens: Dona Dadá, a dona do estabelecimento, que sonha com a volta de seu “falecido” marido, desaparecido na guerra e que vem recebendo cuecas que podem ou não ser de pertencimento do herói bélico. Enquanto isso, para satisfazer suas “vóntades”, ela se utiliza de Bozo, o segurança do Baratão, que mantém um caso escuso com o padre da localidade.

Baratão 66, ou Baratão 69, assim como o número, vira sua mente de ponta-cabeça. Mas mais ainda, põe de cabeça para baixo a vida dos personagens que aprendemos a querer bem mal. E quem não gosta de dar boas gargalhadas quando isso acontece? Ainda mais de um jeito tão brasileiro e original como só Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum poderiam projetar. Segure seus mamilos e entre de (ponta) cabeça (mas só a cabecinha) nessa HQ em que escracho é sinônimo de virada de página.

Baratão 66 pode ser adquirido na loja da Beleléu por R$ 35,00.

Anúncios
Este post foi publicado em: quadrinhos, Resenhas

por

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

1 comentário

  1. Pingback: Os Melhores Quadrinhos Brasileiros que Li em 2014 | Splash Pages

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s