Entrevista com Mariana “Mazô” Paraizo, autora de Ateneu

Foi na última Parada Gráfica que eu a conheci. Ela estava ali no cantinho com suas HQs, conversando com uma menina, usando um gorro, talvez não acostumada com o frio de Porto Alegre. Tinham várias HQs sobre a mesa, uma mesa redonda, e um papelzinho escrito “Mazô”. O fanzine, colorido, chamava a tenção pela capa inusitada, sem título, mas com uma bela colagem: folhas secas, pintura em guache e uma estrelinha de uniforme (talvez indicando um a premiação, ou o primeiro número de muitos?). Ela perguntou “você é o menino que veio ontem?”, respondi que não. Não conhecia o trabalho da Mazô, mas depois fui dar uma checada no seu tumblr (mazotopia.tumblr.com) e achei muita coisa legal, como os quadrinhos de Viagem ao Centro da Terra. Uma HQ que deixaria qualquer amante da geografia, dos mapas e bandeiras, e dos mundos imaginários, mapas que aparecem na frente de livros de fantasia, babando. Mas, sem mais delongas, vamos à entrevista:

Ateneu, de Mariana "Mazô" Paraizo
Ateneu, de Mariana “Mazô” Paraizo

Splash Pages: Em primeiro lugar, o que chama a atenção na sua HQ é a capa, sem título, mas com um bela colagem que nos remete ao clima estudantil. Qual foi sua intenção com essa capa?
MAZÔ: Toda a história se passa no colégio onde eu estudei, o Pedro II, que tem um símbolo que aparece em diversas partes da hq – na carteirinha da primeira página, no emblema, no livro de normas de conduta, etc. O símbolo é um globo ladeado por duas ramas e uma faixa com o nome do colégio. A capa foi o resultado de uma intervenção nesse símbolo, dando uma nova conotação pra ele. Pessoalmente, gosto de ver a parte branca como uma fresta por onde se espia o colégio de um jeito diferente.

SP: A HQ foi toda feita através do processo de colagem? Temos folhas secas, excertos de bilhetinhos de colegas, partes de livros, fotografias… e até um dente! Como foi esse processo de trabalho?
MAZÔ: O material que eu usei na hq veio praticamente todo da minha caixa de recordações. Admito que as folhas eu peguei na rua mesmo, não tinha guardadas, mas os bilhetes, fotos e itens da escola vieram lá do colégio, da minha realidade. A colagem foi a parte fácil, difícil foi editar tudo no photoshop haha. É engraçado pensar que essas coisas que são tão parte de mim vão pertencer a uma história nova para outras pessoas.

SP: Quais foram suas influências para produzir esta HQ?

MAZÔ: Uma amiga uma vez me disse que nas artes contemporâneas, ao adicionar objetos da sua vida pessoal, um artista trazia também mais conteúdo simbólico para o conceito da obra. Até tenho minhas dúvidas quanto a arte conceitual, contemporânea, etc; mas que ela me inspirou, definitivamente. Para esse quadrinho, pessoalmente, não tive nenhuma inspiração especial, no entanto eu gosto muito do trabalho de gente como o Pedro Franz, a Gabi lvlv6, Rafael Coutinho, isso das pessoas brasileiras mesmo, porque acabo recebendo muito mais influência que isso, naturalmente.

 

Cartum da Copa 2014, da Mazô
Cartum da Copa 2014, da Mazô

SP: O que te levou a pensar que seria uma boa produzir quadrinhos? E como você vê a produção nacional dos mesmos?
MAZÔ: Depois de ler minha primeira graphic novel, meu interesse por quadrinho só foi aumentando. Eu me enxergava fazendo isso porque sempre amei desenhar e ler, fora que livro é meu objeto de desenho número 1. Foi depois do FIQ de 2013, quando eu conheci uma galera que mandava bem nos quadrinhos e tinha uma cara igual a minha, 20 e poucos anos, e tava fazendo tudo na cara de pau que eu resolvi que eu podia fazer também. É complicado fazer quadrinhos no Brasil porque a maioria dos quadrinistas não tem como se sustentar apenas da produção autoral… e escrever uma graphic novel é um trabalho longo, que demanda comprometimento total, etc. É claro que essa falta de público específico e recursos atrapalha, mas tem uns apaixonados que continuam fazendo sempre e muito bem… só que a gente não tem espaço pra graphic novels e outras coisas por causa disso, né?

SP: Falando sobre o conteúdo da HQ Ateneu, quanto porcento é baseado em experiências reais e quanto porcento é invenção? O que esse período escolar representou para você e que tipo de aluna você era?
MAZÔ: As histórias são fictícias. Teve gente que veio me perguntar quem era quem nas histórias, colegas de escola, e eu fiquei abobalhada tipo “não, ninguém ali existiu”. É que poderiam ter existido porque foi um suco da impressão que eu tive na escola. Eu era uma menina certinha e nerd na escola, não tinha muito a esconder e tive alguns perrengues com outros alunos, parte porque eu era sensível demais, outra porque adolescentes são uns bichos cruéis mesmo – foi um inferno emocional. Apesar disso, eu amo a escola, por nostalgia da adolescência e porque a minha é especial. É uma escola muito antiga, carrega 170 anos de existência e isso avivava minha imaginação. Foi uma homenagem a esse sentimento que eu carrego, bastante contraditório, do meu Pedro II, e não do Pedro II de outros. Nelson Rodrigues tinha outra impressão, uma bastante ufanista, na minha opinião.

Desenho feito em parceria com Eduardo Villela
Desenho feito em parceria com Eduardo Villela

SP: Uma “série” dos seus trabalhos, no seu site mazotopia.tumblr.com, que chama bastante a atenção, principalmente para quem gosta de mapas e mundos imaginários é o Viagem ao Centro da Terra. Como surgiu essa ideia?
MAZÔ: O Viagem ao Centro da Terra surgiu espontâneo, enquanto eu planejava minhas primeiras tirinhas. Eu tenho um atlas da minha época da escola que eu sempre gostei de folhear… Um dia eu fiz um desenho que eu achei que me lembrava muito uma bandeira, não sabia qual (era a da áfrica do sul), daí fui ver no atlas e a ideia pipocou. Depois eu fui juntando uma coisa na outra e quando eu vi já tava completamente envolvida com as tirinhas e gostando delas muito também

2014
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SP: E para o futuro? Tem algum projeto em mente?

MAZÔ: Tenho muita vontade de escrever uma hq longa, mas por enquanto é só vontade. Anoto muita coisa nos meus cadernos e vou mastigando elas, até a hora em que finalmente eu “vomito”. Vai demorar ainda. Tem também um projeto de página de tirinhas que eu quero desenvolver com a Estelle Flores, chamada O Banquete. Quando eu tiver umas 100 tirinhas do Viagem ao Centro da Terra, vou fazer o Atlas também, que vai ser uma compilação com as tirinhas e desenhos relacionados – vai ser gostoso fazer isso.

Mariana "Mazô" Paraizo
Mariana “Mazô” Paraizo

MINIBIO DA AUTORA: Mazô veio de um planeta onde copos não precisam ser lavados e roubar balas no supermercado não é errado. Está constantemente viajando em si mesma e nos seus desenhos. Gosta de cantar, mas o que decidiu gostar mais foi de quadrinhos. Ilustra e escreve para a Capitolina em paralelo aos seus projetos pessoais. Tem dois filhos, DDN e Ateneu, ambos com menos de 1 ano de idade.

Ilustração sobre Daltonismo pra Revista Capitolina
Ilustração sobre Daltonismo pra Revista Capitolina
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