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O Exército de um Homem Só: O.M.A.C., de John Byrne

Antes de falar da obra de John Byrne, ou melhor, da versão feita em 1994 por John Byrne para o O.M.A.C. (One Man Army Corps ou Exército de Um Homem Só), temos que falar de seus antecedentes. OMAC foi criado por Jack Kirby em 1974, no final de sua fase na DC Comics, na qual criou os Novos Deuses, Kamandi e Etrigan, o Demônio. O.M.A.C. talvez seja o projeto mainstream mais autoral de Jack Kirby, já que, no final do seu contrato com a DC, com essa série ele preenchia sua cota mensal de 15 páginas. O.M.A.C. tem uma origem estilo Shazam!, mas ele está mais para uma espécie de Capitão América que luta contra as corporações. Ele é Buddy Blank, ou na tradução literal, Chapa Branca, que é selecionado pelo Irmão Olho, uma espécie de Big Brother que a tudo controla e tudo vê, e é transformado em O.M.A.C.. A série de Kirby durou apenas 8 edições. A minissérie em quatro partes escrita por Byrne serviu para unir as pontas soltas da história de Kirby.

A minissérie OMAC, de John Byrne.

A minissérie OMAC, de John Byrne.

Outras versões de O.M.A.C. surgiram no universo DC. A mais famosa são o exército de sentinelas controlados pelo Irmão Olho, que aqui foi criado na paranoia control freak do Batman. Eles foram criados pro Greg Rucka e eram muito populares no Universo DC pós-crise durante a Crise Infinita e além. Já nos Novos 52 é Kevin Kho que se torna o O.M.A.C., dessa vez pelas mãos de Dan DiDio e Keith Giffen, numa das mais inspiradas séries dos Novos 52.

O OMAC de Jack KIrby e os bizarros amigos para montar.

O OMAC de Jack Kirby e os bizarros amigos para montar.

Então agora vamos falar da série de Byrne. Ela começa no futuro, onde O.M.A.C. está travando a Grande Guerra das Corporações, contra as maquinações de seu arqui-inimigo Mr. Big. O interessante aqui é que Byrne conta a história de uma maneira diferente do que ele fazia em suas consagradas histórias estilo Marvel. Aqui ele usa captions em off para conduzir a história. Até aí nada diferente, mas as captions funcionam como recordatório, mas ao mesmo tempo funcionam como diálogos, já que as duas coisas se confundem na cabeça de O.M.A.C, e os personagens, não apenas o Irmão Olho, interagem com elas. É nessa história que ocorre o confronto final entre O.M.A.C. e Mr. Big, em que nosso herói mata o vilão. Porém o inimigo tinha um recurso final, aperta um botão e ele e O.M.A.C. desaparecem.

As capas da minissérie, assim como seu miolo, erma em preto e branco, menos o título da capa, numa cor chapada. Este é Buddy Blank em 1917.

As capas da minissérie, assim como seu miolo, erma em preto e branco, menos o título da capa, numa cor chapada. Este é Buddy Blank em 1917.

IRMÃO, VOCÊ PODE COMPARTILHAR UM OLHO?

Com essa expressão de epígrafe, começa a segunda história, inspirada na canção Brother, Can You Spare me a Dime (Cara, cê pode me dar um troquinho?) que ficou Brother, Can You Spare me an Eye no inglês. A intenção é fazer uma referência ao Irmão Olho, mas também à época em que a história passa a acontecer: 1932. Buddy Blank é transportado para o passado. Mas lá ele é apenas um garotinho sem poderes – muito similar a Billy Batson, não por acaso os dois nomes têm a aliteração BB e ambos são Exércitos de vários nomes, uma vez colocados os deuses que compõem o anagrama SHAZAM!.

Na Nova York pós-depressão, Buddy encontra a família de Molly, por quem se apaixona e passa a viver. Mas Buddy se recusa a se render às corporações que estão começando a se formar nos Estados Unidos, como a do Sr. Bigello (qualquer semelhança não é coincidência). Buddy começa a ter pesadelos com o futuro e vai tirar satisfações com o Sr. Bigello, que foi responsável pela morte do pai de Molly. Mas não sem antes perceber que a empresa PseudoPessoas Inc., de propriedade de Bigello,  vai de vento em popa. Inclusive tendo criado maneiras dos indivíduo curar suas frustrações. Num sonho, somos remetidos à versão de Buddy de Jack Kirby, inclusive. Bigello descobre que Buddy é O.M.A.C. (coisa que nem ele sabia) e passa a tortura-lo. Julgando que Buddy estava morto, Mr. Big – que também tinha voltado no tempo para garantir seu domínio corporativo – o abandona. Então Buddy contata o Irmão Olho e se transforma em O.M.A.C. novamente.

Uma cena de OMAC, de John Byrne.

Uma cena de OMAC, de John Byrne.

MiNHA LUTA

O.M.A.C., a edição brasileira, publicada pela Nova Sampa em 1997 é um item raro nas coleções tupiniquins.

O.M.A.C., a edição brasileira, publicada pela Nova Sampa em 1997 é um item raro nas coleções tupiniquins.

Ou Mein Kaempf, o famoso livro biográfico de Adolf Hitler, intitula o terceiro capítulo. Nele, o frágil Buddy se transforma em O.M.A.C. que, retomando as memórias do futuro, perde as do passado. Se esquece de sua vida com Molly, que agora era esposa de Buddy, e retoma sua missão de erradicar Mr. Big. Ele fica sabendo que Mr. Big tem planos de utilizar Adolf Hitler para atingir seus objetivos corporativos. O que O.M.A.C. faz? Vai até a Alemanha e incinera Hitler. Em meio à isso, sua esposa, Molly é torturada por Mr. Big. Quando O.M.A.C. retorna, ele se torna Buddy outra vez e não pode salvar sua mulher porque perdeu a conexão com o Irmão Olho. Mas Molly chega por trás de Big e lhe acerta cadeiradas e mais cadeiradas, pondo fim à vida do empresário beligerante.

Na última parte, que se passa no ano de 1991, ou seja, mais ou menos sessenta anos depois do ocorrido, Buddy está no enterro de Molly, reclamando sobre os eletrônicos e a inteligência artificial com seus filhos e netos. Junto com um amigo, Buddy acabara criando uma indústria de Pseudo-People. Então, Buddy se torna O.M.A.C. novamente, quando resolve acessar o Irmão Olho novamente. Então Buddy/O.M.A.C. confessa ao irmão olho que cometeram um erro ao matar Hitler e impedir a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, as guerras e as intempéries deixam a humanidade mais forte, como grandes testes para forjar nossas forças. Volta-se então para o paradoxo das viagens do tempo que iniciam um ciclo que não pode ser interrompido. Para o ciclo ser quebrado, O.M.A.C. precisava tomar uma atitude. O que ele faz é pressionar um botão, o mesmo que o transformava no Exército de Um Homem Só e encerrar sua vida.

Os padrões cerebrais de O.M.A.C. então, são transferidos para o Irmão Olho, que passa a ter uma perspectiva humana do mundo, não mais a de uma inteligência artificial. Dessa forma, voltamos ao futuro, e voltamos à gênese de O.M.A.C.. Assim voltamos às histórias criadas por Jack Kirby. Quando Buddy reencontra o Irmão Olho, ele lhe dá um dispositivo para evitar encontrar Mr. Big no futuro. E assim, volta ao passado, tentando romper o ciclo de antagonismo entre herói e vilão. Se foi bem-sucedido? Nunca saberemos, pois assim se encerra a história de John Byrne.

De OMAC para Buddy Blank, o Chapa Branca.

De OMAC para Buddy Blank, o Chapa Branca.

PROCURANDO SOLUÇÕES DIFÍCEIS

Viagens no tempo, como confessa no epílogo da última edição, são o tema preferido de John Byrne. Ele também diz que o mote “tudo que o personagem sabia está errado”, é algo corriqueiro na indústria de quadrinhos americana e chamar a atenção para uma nova origem é uma das formas mais fáceis e mais preguiçosas de criar uma história – aqui ele faz uma crítica aos reconstrutores ingleses como Moore e Morrison.

A solução de Byrne foi criar linhas de tempo divergentes – o que, convenhamos, também não é nenhuma inovação, tendo visto seu trabalho com Claremont em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido. O mundo que Jack Kirby previu em seu O.M.A.C. é muito diferente do que temos hoje, então para explicar isso, Byrne utilizou esse recurso. “Longe de descobrir o quanto ele estava errado, OMAC é guiado pela determinação marcial. Quem, a não ser um soldado devotado, chegaria à conclusão de que a Segunda Guerra Mundial foi uma coisa necessária?”, aponta Byrne.

Sem o intuito de entrar em conclusões filosóficas sobre se a Guerra é necessária, só faço um adendo: sem a Segunda Guerra Mundial, os super-heróis teriam fracassado. Você não estaria lendo este texto e nem mesmo indo aos cinemas ver os filmes da Marvel. É preciso frisar que foi durante a Segunda Grande Guerra que os comics tiveram seu apogeu, vendendo o recorde de 2 milhões de unidades ao mês. E sem falar em vendas, falando em conteúdo, quantas histórias dos mesmos não tem sua gênese extraída dos horrores da guerra, do ufanismo, da rosa de Hiroshima, a Enola Gay, a Bomba H, que transforma todos os horrores nucleares em maravilhas de capa e poderes sensacionais. O que seria da indústria de quadrinhos de Super-Heróis se não houvesse um Adolf Hitler? Fica a pergunta.

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3 comentários

  1. Como sempre, ótimo texto, Guilherme! O.M.A.C. é, na minha opinião, uma das melhores obras do Byrne, embora não seja apreciada por tantos (até mesmo pelo fato de não ter sido muito difundida). Aliás, como já disse antes, com raras exceções, tudo que o Byrne faz é, no mínimo, bom!

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  2. Pingback: Os Melhores Quadrinhos de Super-Heróis que Li em 2014 | Splash Pages

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