O Quinto Beatle: A História de Brian Epstein, de Vivek J. Tiwary, Andrew C. Robinson e Kyle Barker

O Quinto Beatle: A História de Brian Epstein, de Vivek J. Tiwary, Andrew C. Robinson e Kyle Barker (Editora Aleph, 2014, 168 páginas, R$ 59,90. Tradução: Delfin)

Talvez você não conheça Brian Epstein, mas com certeza conhece os Beatles. A história dos quatro rapazes de Liverpool é difundida mundo afora em diversos filmes, documentários, memorabilia, livros, biografias, shows tributo, mas pouco se sabe da força por trás do fenômeno. E essa força foi Brian Epstein. Se fossemos comparar Brian com um personagem de filme, eu chamaria a atenção para a película The Wonders – O Sonho Não Acabou. No caso, o personagem de Tom Hanks teria sido inspirado em Epstein. Brian foi o primeiro empresário da banda e esteve junto com eles até o sucesso de Sargent Peppers’ Lonely Hearts Club Band.

A vida de Epstein até conhecer os Beatles, havia sido lotada de fracassos. Quer dizer, não na sua vida profissional, mas no seu âmbito artístico. Brian era uma alma livre que era constantemente aprisionada. Suas ambições não davam certo, apesar do apoio incondicional da família. Para piorar, ele era gay, coisa que nos anos 60 era considerado crime e doença na Inglaterra. Além de não libertar sua alma para a arte, não podia expressar seu amor. Assim, era medicado várias e várias vezes para lidar com a ansiedade e para tentar ser curado de sua homossexualidade. A vida de Epstein até conhecer os Beatles era estável, depois que começou a agenciá-los, entrou numa turbulência frenética que não acabou até que ele descansasse em paz.

Mas vamos falar da HQ. O roteirista, Vivek J. Tiwary pesquisou por 20 anos a vida do empresário dos Beatles, que resultou nessa belíssima graphic novel. Ela não é bela apenas na pintura de Andrew C. Robinson, que casa lindamente o caricato com o realístico, ela impressiona na sensibilidade do escritor para nos retratar uma pessoa pública, mas de uma forma íntima, que se torna fácil sensibilizar-se e emocionar-se não apenas com a história em si, mas com os relatos do autor.

Andrew C. Robinson faz um excelente trabalho na recuperação da época, a década de 60, com sua moda, arquitetura, artes e os pôsteres que estão sempre presentes na história. A paleta de cores utilizada por Robinson também impressiona. Ele junta a escuridão com cores vibrantes, talvez mostrando que na pompa de um empresário, se escondesse um desejo inquieto, uma vontade artística e sexual, um fogo que não pudesse ser aplacado e que nunca seria. Ficaria ali, inerte, apenas para apreciação do mundo, enquanto era esgotado pelas trevas do tempo em que vive, dando a impressão que foram criadas para oprimi-lo. Toda essa energia, representada pelo contraste e a oversaturação é o que os Beatles representam para o mundo. Porém também existem momentos em que temos nuances mais pálidas, paisagens desfocadas, momento de silêncio e são nessas horas que esquecemos os fãs e os sucesso e mergulhamos no sentimento de solidão de Brian.

A narrativa é outro ponto alto de O Quinto Beatle. Começa intercalando momentos dos Beatles com os de Brian. Não tem medo de ousar com muita variação de quadros, quadros sem requadros, músicas que nem sempre são dos Beatles – essas ficam mais dentro dos diálogos, balões coloridos, mas o que me se destacou, ao meu ver, foi a parte em que Brian dá uma entrevista para a TV inglesa. Bem diferente das TV famosas de Frank Miller em O Cavaleiro das Trevas, essa parte da narrativa vai além, encaixando os balões fora das imagens mais ainda assim vinculados a elas. Temos as onomatopeias, temos a reação do público e várias “tomadas da câmera”. Há ainda a parte que mostra o assassinato de JFK que é contado permeado a história dos Beatles, até que toma proporções muito maiores e que podem afetar a sua carreira. O renomado cartunista Kyle Barker faz uma participação especial contando as desventuras do Beatles nas Filipinas e “enfrentando” a primeira dama do local, Imelda Marcos. É preciso destacar também o cuidado editorial da Aleph nessa edição brasileira.

O Quinto Beatle: A História de Brian Epstein, de Vivek J. Tiwary, Andrew C. Robinson e Kyle Barker (Editora Aleph, 2014, 168 páginas, R$ 59,90. Tradução: Delfin)
O Quinto Beatle: A História de Brian Epstein, de Vivek J. Tiwary, Andrew C. Robinson e Kyle Barker (Editora Aleph, 2014, 168 páginas, R$ 59,90. Tradução: Delfin)

Como diz a canção que se repete na graphic novel: “Se o amor fosse tudo, eu deveria estar só”. Esse foi o paradoxo que esteve presente em toda vida de Brian Epstein. Enquanto ele vendia o amor como a solução em forma de Beatles, não conseguia amar a si próprio, se tornando um workaholic estafado, desviando suas energias para coisas mais mundanas e menos espirituais como o amor.

O interessante é que quando Brian falece, os Beatles estão com o seu guru em uma incursão pela India e então passam a fazer músicas mais espiritualizadas como Across The Universe. Talvez essa conexão com o mundo material que Brian dirigia para os Beatles, com bonecos, perucas, lancheiras, chaveiros, pôsteres, desenhos animados e filmes, tenha sido quebrada. Só assim a alma cativa de Brian pôde se libertar e, pouco tempo depois, os Beatles libertaram-se uns dos outros, deixando para sempre a mensagem de amor que ecoou para o mundo todo. No final, tudo o que Brian precisava era amor. All you need is love, Brian, love is all you need. Agora, com essa graphic novel, podemos retribuir o amor que você espalhou pelo mundo em forma de canções. Obrigado, Brian.

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