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Will Eisner, o Alheio e o Acaso

É inegável que o legado de Eisner para os quadrinhos é enorme e, apesar de sua narrativa cinemática, ele faz questão de diferenciar as duas mídias, como podemos ver nesse quadro esquemático aqui. Mas além da forma, de suas aberturas de páginas em splash pages em que o logo da história entra no cenário, é preciso destacar elementos de Eisner que não são tão comumente sublinhados por aí.

Esse é o Espírito!

Esse é o Espírito!

O ALHEIO

Quando falo aqui em alheio, não quero dizer “aquilo que pertence ao outro”, embora também isso faça parte das histórias de Eisner. Ele nos confronta com a visão dos outros e, mesmo quando sabemos que temos um ponto de vista sobre a história, o autor vai lá e nos apresenta outro viés. Andei lendo algumas histórias do Spirit publicadas pela L&PM na década de 80 e pude perceber isso. Nas histórias do Spirit, acabamos olhando o segundo plano bem de pertinho.

É engraçado que o Spirit apesar de receber o crédito como “dono” da história, é muito difícil conhecermos detalhes da sua vida por elas. Na verdade, nas histórias do defensor mascarado de Central City, quem brilha são os personagens coadjuvantes. Não se trata do Comissário Dolan ou da P’Gell, mas daqueles personagens que sabemos que vamos ver numa história apenas. Isso é o alheio. “Por acaso”, aqueles personagens estão ali nas histórias do Spirit, por alguma coincidência eles acabam cruzando a esquina com o herói, ou se metendo com pessoas ligadas ao Spirit. O que nos leva ao segundo ponto.

AInda não pegou o Espírito da Coisa?

Ainda não pegou o Espírito da Coisa?

O ACASO

Will Eisner abusa do Deus Ex-Machina, mas ele não o faz de maneira gratuita, ele faz maneira inteligente. De um certo jeito ele arranja para que todos os elementos da história se reúnam no final. É a maneira Eisner de envolver o leitor e chamar a atenção para os detalhes e os pequenos gestos da trama. Uma gotinha no oceano causa ondas que chegam até a praia. A gotinha é o começo da história, a praia é o final, e todos os barcos que navegam nesse mar vão ancorar no porto, que fica a praia. O porto, onde Spirit desbarata os crimes de Central City, onde os vilões vêm da Europa e do Oriente Médio para “fazer a vida” nos EUA.

Da mesma forma como fez no seu renomado álbum Pessoas Invisíveis, vemos a mesma mecânica ocorrer na maioria das histórias do Spirit. As pessoas invisíveis muito visíveis de Einser, que no furdunço do dia-a-dia não são reparadas pelos personagens de nanquim que passam apressados por elas, mas, que para o leitor têm suma importância. Elas são o fio condutor da história. Mas acho que Eisner quer nos dizer que todos somos descartáveis, todos somos invisíveis, estamos num segundo plano e quando olhados de perto, tomamos protagonismo, só depende da maneira como encaramos a nossa história.

Sem piadinha com espírito e Will Eisner, por favor...

Sem piadinha com espírito e Will Eisner, por favor…

BIOGRAFIA x “BIOS”GRAFIAS

E por falar na própria história, outro ponto alto de Will Eisner é usar fatos de sua vida em suas obras como em Ao Coração da Tempestade ou em O Edifício, Avenida Dropsie ou Um Contrato com Deus. Mas por mais que ele trate da própria vida, ele também está conversando com os personagens. Não os personagens da sua história em quadrinhos, mas com aqueles que fizeram parte da sua vida e que compõem o mosaico da vizinhança, da cidade, da sociedade.

Dizem que “a cidade” respira nas obras de Eisner. E foi nesse sentido que Frank Miller tentou imitar o seu mestre em Sin City. Mas enquanto a cidade de Miller é recheada de tipos violentos e barra-pesada, a de Eisner é feita de pessoas como o vendedor da quitanda ou o carteiro dos sábados, gente com história de vida e estofo sentimental. Gente que com seus pequenos casos renderiam uma história ou duas do Spirit, que o diga a sensacional história de Gehrard Shnobble. Sim, Frank Miller entendeu tudo errado.

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Este post foi publicado em: quadrinhos, Sobre Roteiros

por

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos e sexualidades. É especialista em Imagem Publicitária e bacharel em Publicidade e Propaganda. Ministra aula de quadrinhos e trabalha com design editorial e roteiros. Já trabalhou em museus e com venda de livros e publicidade. É pesquisador associado do Cult de Cultura e da ASPAS (Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial). Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. A partir de 2014, publicou ao menos um quadrinho independente por ano. Loja de Conveniências, sua primeira narrativa longa foi lançada em 2014. Em 2015 participou da coletânea de HQs LGBT Boys Love. Em 2017 colaborou com o quadrinho A Liga dos Pampas de Jader Corrêa, que explora mitos gauchescos. Também lançou Desastres Ambulantes em parceria com Romi Carlos, um quadrinhos sobre segunda guerra mundial e OVNIs, que foi selecionado pelo edital estadual PROAC/SP. Em 2017, publicou Abandonados Pelos Deuses: Sigrid, com Thiago Krening e Cristian Santos e também Fratura Exposta: REDUX com Jader Corrêa. Também escreve os roteiros para os super-heróis portoalegrenses Super Tinga & Abelha-Girl. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com há mais de 10 anos.

5 comentários

  1. Jean O. Q. (Wally) diz

    Isto que tu fala sobre o alheio é algo que sempre percebi em Eisner, no entanto nunca pude achar um nome ou sequer apontar. Foi como perceber algo despercebido…até agora. 🙂

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  2. guilhermesmee diz

    Eu também só fui perceber depois de ler várias histórias do Spirit em seguida, Jean. Mas isso é normal… quando a gente lê muitas obras do mesmo autor, acaba achando um padrão. 😉

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