Eu e os Quadrinhos, literatura, quadrinhos, Quadrinhos Comparados
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A Paralisia da Leitura e da Escrita e a Resenha das Pessoas

Ou por que nos sentimos intimidados para ler e escrever sobre as grandes obras? Como isso está atrelado aos relacionamentos? Sempre deixo para depois para ler as grandes obras de quadrinhos. Building Stories e Wednesday Comics ainda estão aguardando ali na minha estante para quem sabe, um dia serem lidas. É que para mim, tem de se criar um momento todo especial para se ler uma coisa também tão especial e tão bem criticada. É como aquela pessoa que você tem como sonho de consumo e que quer preparar um momento especial para vocês dois. Você arruma a casa, o quarto, se perfuma, coloca a sua melhor roupa íntima e vai. Com a leitura é o mesmo. Precisa ser num final de semana, que você tenha tempo para apreciar a obra com calma, sentado ou deitado confortavelmente, com uma boa bebida ao lado. A bebida pode depender do clima e da disposição psicotrópica do tipo de leitura.

Sonhos de consumo: Richard Madden e boas leituras.

Sonhos de consumo: Richard Madden e boas leituras.

Mas intimidação é algo como um tipo de ansiedade e também é algo como um tipo de expectativa exacerbada. Quanto maior a nossa ansiedade para ler uma coisa, maior será a frustração de nossas expectativas. Quanto menos fantasias tivermos a respeito de uma coisa e/ou de uma pessoa sonho de consumo, mas fácil será nos satisfazermos com elas.

Mas e aí você leu o tal quadrinho. Uau! O negócio é bom mesmo! Só que você tem de escrever uma resenha pro seu blog, porque, oh como eu vou deixar de escrever sobre uma HQ como Asterios Polyp? Mas tem tanta coisa pra escrever sobre ela que eu não faço ideia de onde começar. O negócio é perfeito e se eu pudesse, eu lia outra.

O mesmo não acontece com pessoas. Se você quiser, pode “ler” a pessoa de novo. E ninguém tem que escrever uma resenha para a pessoa, no máximo dar uma declaração de amor ou algum elogio. (Não vale mencionar o Lulu – eca!). Se você tem uma pessoa legal, você não vai querer dividir ela com ninguém (tá, talvez no poliamor), mas livros e quadrinhos você vai querer mostrar o seu amor para o mundo todo e vai querer compartilhar com todo mundo. Talvez o mesmo aconteça com as pessoas, na hora de fazer demonstrações de amor em público, ou assumir um relacionamento. Mas de novo: não se fazem resenhas sobre pessoas. Talvez, para algumas gentes, quanto mais você ama uma pessoa, mais difícil seja assumir isso. Tanto para você mesmo quanto para ela. O mesmo não acontece com os livros e HQs. Eles não vão retribuir ou não seu amor. Estão ali para serem abertos e folheados por uma quantia módica. Bem, se tiver algum aplicativo de recomendação de prostitut@s também podemos dizer que eles estão ali para serem abertos e folheados por uma quantia – nem sempre – módica.

David Lloyd com minhas HQs: Fratura Exposta e Mundo dos Feriados. :-D

David Lloyd com minhas HQs: Fratura Exposta e Mundo dos Feriados. 😀

Autores, por outro lado, podem retribuir o seu amor. Eles podem dar autógrafos, conversar com você. Na Gibicon Curitiba eu conheci o David Lloyd, criador de V de Vingança com Alan Moore. Tinha um sistema superdesorganizado de senhas lá. Por duas vezes perdi de ver o cara por 4 (quatro!) senhas. Já estava dizendo: “Pra que eu preciso do autógrafo do cara? É só um risco no gibi! O que vou fazer com um gibi riscado? Prefiro ler a obra e sentir o prazer da leitura, não o do risco no papel”. Mas na verdade eu estava mesmo pensando: “Queria conversar com ele!”. Oquei. Chegou o último dia da convenção e eu consegui a senha. Mas ele se atrasou e apenas quem comprasse o sketchcard dele poderia ter o autógrafo. Acabei comprando e passei na frente da fila. Quase perdi o avião por causa do atraso dele. Mas sim, ele fez um autógrafo no meu livro São Paulo, desenhou um sketch do V e eu tirei uma foto dele com minhas HQs Fratura Exposta e Mundo dos Feriados. E assim, Lloyd retribuiu meu amor e minha declaração de amor à ele que foi esperar na fila todo aquele tempo por um minuto, nem isso, com ele.

Autores de pessoas também podem retribuir o seu amor. Não é bom quando conquistamos a confiança dos pais e das mães de quem mais adoramos? Porque sim, acredite: quer saber o que uma pessoa pensa de você? É só reparar na maneira que o pai ou a mãe dela te trata. Se te olha desconfiado, o filho não deve ter falado muito bem de ti. Se te recebe bem, então é bom sinal. E sim, assim como nas obras, o estilo dos autores está ali, gravado nos pais delas.

Então uma saída para falar de obras que te paralisa, é ir em busca de fontes e de autores, busca a história por trás da história. E aí, talvez você encontre coragem. Assim você vai saber ler pessoas assim como aprecia um bom livro e vai saber elogiar um livro assim como curte o modo de ser ou um visual de uma pessoa.

Não se apaixone por livros e nada de ficar resenhando pessoas! HAM!

por

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos e sexualidades. É especialista em Imagem Publicitária e bacharel em Publicidade e Propaganda. Ministra aula de quadrinhos e trabalha com design editorial e roteiros. Já trabalhou em museus e com venda de livros e publicidade. É pesquisador associado do Cult de Cultura e da ASPAS (Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial). Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. A partir de 2014, publicou ao menos um quadrinho independente por ano. Loja de Conveniências, sua primeira narrativa longa foi lançada em 2014. Em 2015 participou da coletânea de HQs LGBT Boys Love. Em 2017 colaborou com o quadrinho A Liga dos Pampas de Jader Corrêa, que explora mitos gauchescos. Também lançou Desastres Ambulantes em parceria com Romi Carlos, um quadrinhos sobre segunda guerra mundial e OVNIs, que foi selecionado pelo edital estadual PROAC/SP. Em 2017, publicou Abandonados Pelos Deuses: Sigrid, com Thiago Krening e Cristian Santos e também Fratura Exposta: REDUX com Jader Corrêa. Também escreve os roteiros para os super-heróis portoalegrenses Super Tinga & Abelha-Girl. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com há mais de 10 anos.

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  1. Pingback: Por que ler os (quadrinhos) clássicos? | Splash Pages

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