Análises, Eu e os Quadrinhos, quadrinhos
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Precisamos falar sobre Manara

Quadrinhos são hipersexualizados, isso é uma verdade. E os dos super-heróis, então, nem se fala. Pessoas que usam colantes grudados ao corpo e que revelam toda sua forma corporal para os leitores, costumam ter um teor masturbatório, com o perdão da palavra. Essa foi uma tendência muito grande nos anos 90, quando as chamadas bad girls se destacavam: Vampirella e sua roupa Borat, Lady Death e seus peitões, Witchblade e suas… suas coisas que tapavam suas coisinhas. Só para citar algumas. Mas aquele era um período em que o mercado de quadrinhos estava na sua adolescência, é só analisarmos o que saía por aqueles tempos. Grant Morrison em seu lindo Flex Mentallo, faz essa analogia. Se na Era de Ouro os quadrinhos de super-heróis engatinhavam, na Era de Prata eles eram voltados para crianças com suas aventuras mirabolantes, na Era Moderna, o alvo eram os adolescentes. O problema é chegar nos dias de hoje e insistir nessa tecla.

A Mulher-Aranha, do artista erótico italiano Milo Manara, na capa de sua revista para a Marvel Comics e a comparação com um "Homem-Aranha' na mesma posição.

A Mulher-Aranha, do artista erótico italiano Milo Manara, na capa de sua revista para a Marvel Comics e a comparação com um “Homem-Aranha’ na mesma posição.

Manara, como sabemos, é um ícone do mercado de quadrinhos eróticos. Não vejo sua Mulher-Aranha como um problema por mostrar a bunda em forma de pênis, o maior problema do desenho é a anatomia. Sua capa feita para a Emma Frost e reproduzida com grande ironia pela The Hawkeye Initiative, apresenta muito mais lascívia e é muito mais sensual, pois ela insinua muito mais do que uma bunda para a Lua. Agora, um ponto que devemos destacar é: se chamam um ícone dos quadrinhos eróticos para fazer mulheres da Marvel, deveriam, por outro lado, chamar um ícone desse segmento para fazer os homens. Por exemplo, deveriam chamar Tom of Finland, criador de Kake, para fazer nossos amados, venerados e desejados super-heróis.

A lânguida Emma Frost de Milo Manara e o Gavião Arqueiro da Hawkeye Initiative: mundo maniqueísta dos super-heróis.

A lânguida Emma Frost de Milo Manara e o Gavião Arqueiro da Hawkeye Initiative: mundo maniqueísta dos super-heróis.

Hoje não temos mais a censura da Era de Prata, hoje não temos um público estritamente adolescente como nos anos 90. Os quadrinhos amadureceram e estão na meia-idade do meio, é natural que se mire em diversos segmentos em capas variantes, como tanto Marvel e DC tem feito. Seja com os selfies da DC, as homenagens às pinturas clássicas da Marvel, a variedade sempre é bem-vinda. Como sabemos, a indústria dos quadrinhos não vai nunca agradar gregos e troianos, o que não se pode é embarcar no chauvinismo presente na indústria. Numa editora que se leva tão a sério que não pode haver humor nos seus filmes, que uma mulher é estripada num revista e colocada numa geladeira, que a Mulher-Maravilha arranca as calças apenas para agradar os marmanjos babões. A indústria em sua meia-idade têm muito a amadurecer, reflexo da cultura pop americana, e da crise de Hollywood, que produz cada vez mais filmes besteirol Adam Sandler, com piadas questionáveis, enquanto o mercado europeu dá de pau tanto em argumento, inovação e desenhos. No mercado europeu, Manara funciona, mas os americanos ainda o desconhecem, por essa razão não o entendem e não o tratam com o devido respeito. O que é preciso destacar para finalizar é que o mercado europeu, do qual Manara faz parte, amadureceu e é uma mídia plena. O mercado americano ainda trata seu público como adolescentes babões e é isso que ele vai ter se continuar a agir dessa forma.

Manara na indústria de super-heróis é, como diria minha professora de mídia na faculdade, um problema de adequação de mídia. Você precisa saber o que anunciar e para que tipo de público. Manara na Marvel Comics é uma hipérbole.

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos e sexualidades. É especialista em Imagem Publicitária e bacharel em Publicidade e Propaganda. Ministra aula de quadrinhos e trabalha com design editorial e roteiros. Já trabalhou em museus e com venda de livros e publicidade. É pesquisador associado do Cult de Cultura e da ASPAS (Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial). Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. A partir de 2014, publicou ao menos um quadrinho independente por ano. Loja de Conveniências, sua primeira narrativa longa foi lançada em 2014. Em 2015 participou da coletânea de HQs LGBT Boys Love. Em 2017 colaborou com o quadrinho A Liga dos Pampas de Jader Corrêa, que explora mitos gauchescos. Também lançou Desastres Ambulantes em parceria com Romi Carlos, um quadrinhos sobre segunda guerra mundial e OVNIs, que foi selecionado pelo edital estadual PROAC/SP. Em 2017, publicou Abandonados Pelos Deuses: Sigrid, com Thiago Krening e Cristian Santos e também Fratura Exposta: REDUX com Jader Corrêa. Também escreve os roteiros para os super-heróis portoalegrenses Super Tinga & Abelha-Girl. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com há mais de 10 anos.

17 comentários

  1. Jean O. Q. (Wally) diz

    Dia desses no facebook saiu uma notinha, acho que da catraca livre, de uma artista que transferia as poses sensuais das heroínas para os heróis. Claro que há muito mais apelo nas heroínas, mas também não vejo a figura dos heróis como isentas de qualquer sensualidade, assim como também não vejo problema algum nisso.

    O ponto a se discutir é: qual é a fronteira entre a sensualidade e a babaquice (pra não dizer punhetagem). Um quadrinho com sensualidade e erotismo tem que ser harmonioso e, como diria o sagrado mestre Moore, tem que bombear o sangue não só para o pênis, mas também pro cérebro.

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  2. Luiz André diz

    Creio que o maior desrespeito feito ao artista Milo Manara foi a Marvel arregar e cancelar os outros trabalhos pelos quais o desenhista italiano já estava comprometido. Se vai contratar uma pessoa e sabe quais são suas características, não deve ser surpresa quando uma pose sexualizada como a da Mulher-Aranha acima traz tanta comoção entre leitores e não-leitores. Infelizmente, vive-se em uma cultura pretensamente libertária, em que as morais e censuras prevalecem quando algo fora do comum surge e não se consegue se encaixar no status quo. Se há problemas anatômicos na imagem, esta deveria ser corrigida antes de sua publicação pelo artista, e não ser usada como um demérito ao trabalho do artista.

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  5. Só acho primitivo esse tipo de raciocínio, “determinado tipo de roupa e postura corporal é um convite para o erotismo ou sexo” , assim pensa a sociedade retrograda ao ver uma mulher com uma roupa que marcar o corpo, decote ou curta. Como um desenhista, leitor e pesquisador de quadrinhos, digo que as roupas ‘colante’ surgiram para facilitar o trabalho do desenhista, que em um momento de industrialização das HQs era necessário um desenho rápido e sem muitos detalhes, apenas a anatomia crua, com algumas linhas determinando uma suposta roupa. Certamente essa técnica de rápida produção foi distorcida e logo percebeu-se que vende-se mais pela anatomia exposta do que pelo conteúdo, em determinados casos, não todos.
    E Manara é o maior inocente nesta polemica relacionada as capas da Marvel, a questão é simples, se contratas um artista para fazer uma ilustração, é certo que ele fará o que melhor sabe, ele produzirá algo dentro do seu domínio técnico. Então concluo que a Marvel já sabendo e já recebendo reclamações anteriores relacionadas a personagens hiper sexualizados, fez isso como provocação e geração de polemica, tudo para manter-se em foco, imaginas quantas vendas não geram uma revista de capa proibida ou alterada, gerar conteúdo para colecionador e afins.

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