Barbelith, Immateria, Leviatã: Bem-Vindos à Matrix

Quem nunca viu o filme Matrix? Foi um filme que mudou os conceitos mundiais de realidade, apresentando a velha e manjada confrontação: tudo o que você sabe é mentira. Tudo o que você vê e sente é apenas uma representação de mundo. O mundo real está a muitas camadas abaixo disso tudo. Nos quadrinhos de reconstrução do final dos anos oitenta, capitaneados pela “invasão inglesa”, essa nova realidade é muito comum. Seja no “tudo que o personagem sabia sobre si mesmo era uma mentira”, de Alan Moore em Miracleman, Capitão Bretanha, Monstro do Pântano e tantos outros. Ou no Homem-Animal de Grant Morrison que se encontrou com seu próprio criador, ele mesmo, o próprio Morrison e acabou descobrindo que não passava de um personagem de histórias em quadrinhos. Ou quando Neil Gaiman nos mostra o Sonhar, um mundo onde o herói da Era de Prata, Sandman, teve um filho com Hipólita Hall nos seus próprios sonhos.

 

Você vai provar do seu próprio remédio!
Você vai provar do seu próprio remédio!

OS QUADRINHOS SÃO A PRÓPRIA MATRIX

A barba da Lilith: a Barbelith
Barbie & Lilith: a Barbelith

Os quadrinhos são a própria Matrix, eles nos afastam da realidade e nos conduzem à um outro reino, encantado, onde quase tudo pode acontecer, onde quem morre retorna, e ferimentos, sejam os de corpo ou os de alma se curam facilmente com um virar de páginas. Mas mais do que isso, esses lindos quadrinistas ingleses também criaram seus mundos paralelos, que concentram todo o poder inato do mundo. Todo esse “poder”, tanto no sentido das possibilidades quanto da força está contido, no primeiro exemplo, o Barbelith, que Grant Morrison criou em 1994, para a série mágica-surrealista Os Invisíveis. Como diz Delfin no posfácio do primeiro compilado brasileiro da série, Barbelith é a pílula vermelha. Conforme a própria definição do escritor, Barbelith é a placenta do mundo, um lugar benigno e inteligente, que tem a função de ajudar os humanos a atingirem sua natureza verdadeira além do conceito subjetivo do “self”. É, uma definição bem complicada mesmo, mas com umas duas cervejas você entende.

Nessas eleições cumpra o que você Promethea! Não fique só na Immateria!
Nessas eleições cumpra o que você Promethea! Não fique só na Immateria!

Se estendendo para além, ou talvez um pouco aquém do Barbelith, temos o conceito da Immateria, criada em 1999, por Alan Moore, em uma de suas melhores séries, Promethea. A personagem principal desse quadrinho, a Promethea, é um avatar da imaginação e a Immateria é o reino da imaginação, onde acontecem as histórias, as artes, a magia e todo nosso estofo criativo. Esse avatar já habitou diferentes corpos desde a invenção da escrita e vem mudando seu aspecto conforme o conceito de imaginação vem mudando. Promethea se manifesta no mundo real ao longo dos séculos, por meio da imaginação de uma grande quantidade de indivíduos, que conseguem incorporá-la e canalizar a energia dela.

 

Leviathan, o mito, o mostro, a assustadora sociedade moderna!
Leviathan, o mito, o mostro, a assustadora sociedade moderna!

A CRIAÇÃO DA SOCIEDADE E DAS HISTÓRIAS ESTÃO INTERLIGADAS

Por último, mas não menos importante, temos a criação de 2009, de Mike Carey na série O Inescrito. Carey nos traz o Leviatã, um monstro marinho que se alimenta e contém todas as histórias do mundo. Enquanto que na obra de Thomas Hobbes o Leviatã era a própria sociedade moderna, para Mike Carey a criação da sociedade e das histórias estão interligadas. Para se comportarem em sociedade, os seres humanos precisaram de histórias: “Se você não fizer isso, os demônios vão te levar para o inferno” ou “Quando fui caçar encontrei um monstro que nunca tinha visto antes”. Por isso, na história de Carey, o Leviatã começa quando a primeira história, a de Caim, é contada. E toma forma quando a primeira história, a de Gilgamesh, é escrita.

Se formos observar essas três forma de pensar “fora da realidade”, poderemos perceber um padrão do macro para o micro. O Barbelith é toda a subjetividade humana, e isso vai desde maneirismos, gestos, interpretações. O Barbelith contém a Immateria, que é a imaginação. Já a Immatéria contém o Leviatã, pois da imaginação vem as histórias. Logo Barbelith>Immateria> Leviatã. Ironicamente essa também é a ordem de criação das histórias, todas vindas de escribas ingleses, que, de certa forma, se inspiraram uns nas obras dos outros.

 

Felicidade à jato? Não é tecnologia, é feitiçaria!
Felicidade à jato? Não é tecnologia, é feitiçaria!

MASTURBAÇÃO É SUCESSO

Não por acaso, Morrison e Moore são adeptos da magia performática, que consiste na realização. Ou seja, imaginar um objetivo e concretizá-lo. Nada muito distante das práticas budistas ou da neurolinguística. Para que as vendas de seu Os Invisíveis alcançassem sucesso, Grant Morrison fez um apelo aos fãs da série, que se masturbassem num determinado dia e hora olhando para um selo místico criado por ele. Não sei se os fãs atenderam ao apelo, mas a série continuou até o fim planejado pelo seu criador. Também não sei se Mike Carey é adepto da magia performática, mas sei que os temas ocultos e a magia lhe são caros, tendo em vista toda sua obra em livros e quadrinhos.

E a Matrix? O que tem a ver com isso? A Matrix é o mundo paralelo que existe no nosso mundo. Fãs de quadrinhos vivem em mundo paralelo. Assim como fanáticos por futebol. Ou radicais veganos. A primeira vez que fui à uma boate gay, encontrei o tio de um amigo meu lá. Ele me cumprimentou e disse: “Seja Bem-Vindo à Matrix!”.

 

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