Fui ao fundo do poço e tudo que trouxe para você foi essa pá

Essa história em quadrinhos surgiu do fundo do poço. Você não leu errado, eu realmente escrevi boa parte dessa história num dos piores períodos da minha vida. Estava desempregado, meu avô acabava de falecer, minha mãe estava no hospital, para piorar eu sofria de intolerância a lactose e todos os médicos que eu ia diziam que o problema era emocional, eu tinha sofrido uma desilusão amorosa e achava que nunca mais seria capaz de amar ninguém. E é sobre essa incapacidade de amar que trata Fratura Exposta. Durante a leitura desse texto, entre os parágrafos, irão aparecer textos retirados da HQ.

Braço infantil com pá

Veja bem, dizem que escrever é uma terapia, mas as terapias só funcionam se você se entrega à elas. E foi o que eu fiz, comecei a me dedicar cada vez mais à escrita. Comecei um tumblr chamado O Cavalheiro Inexistente e comecei a jogar textos lá. A maioria falando sobre a dificuldade de se relacionar.

Durante essa época eu lia uma história em quadrinhos chamada DEMO, de Brian Wood e Becky Cloonan, ela falava sobre adolescentes com poderes, vivendo o dia-a-dia. Essa era a HQ mais indie possível que você pode encontrar naquela época. Ela trazia tudo que aquele universo indie trazia para nós, jovens adultos quase de meia-idade, que iam aos bares quase toda a noite e no final de semana saiam para baladas alternativas. Só que na revista as pessoas tinham poderes. Eu fiquei com vontade de fazer algo parecido. Em matéria de histórias em quadrinhos.

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DEMO, de Brian Wood e Becky Cloonan

Enquanto escrevia a história, todos os dias tomava algumas doses de vodka e ficava escutando música até de madrugada, só pra sentir aquele tranco que a bebida dá e diz, “você tem que parar por aqui, senão não tem volta”. Eu ia até o tranco e brincava com o perigo, porque, realmente, não tinha razão para viver. A não ser, claro, tentar contar as minhas histórias.

“Ao ajudar uma pessoa você não está se colocando no nível dela. Está acima. Lá, em uma nuvenzinha com raios solares se projetando, abençoando a vida medíocre dela. Você é o Sol, ela um planetóide sem brilho. E o demoninho atiça, espeta com seu tridente. Quanto maior o milagre, maior o dízimo. Boas intenções pagas com intenções boas. O inferno está cheio delas, de qualquer jeito.”

Comecei a desenvolver a minha história. A primeira dela falava de uma menina que saiu de casa e se tornou prostituta. Era pra ser baseada na história de uma amiga que quando perguntavam para ela o que ela queria ser quando crescesse, ela respondia “Quero ser prostituta!”, porque ela achava bonito as pessoas “fazerem amor por dinheiro”. O detalhe da minha personagem, Melissa, era que havia algo misterioso que ela fazia na transa que deixava os caras malucos, mas nenhum deles sabia dizer o que era aquilo.

“Quem disse que não podemos ser felizes sozinhos? Romance é uma enganação. Na real, é uma indústria. Quantas flores e bombons são vendidos por ano? Quantos ingressos para balada e bebidas pra você chegar na pessoa desejada? E a moda? Todos querem ficar bonitos. Hollywood querendo vender pra você uma vida de contos de fada. E claro, você acredita nisso. Mas vou te contar um segredo: o amor não pode salvar você. Não pode te tirar da vida medíocre que você vê nos outros e diz pra si mesmo que tudo está bem com a sua.”

O segundo personagem da história, Eliéser, é o irmão de Melissa, que também saiu de casa e foi viver sua vida longe da família. Eliéser é gay assumido e tem dificuldades em manter seu relacionamento por medo do que a família fará quando descobrir. Esse assunto também é algo que eu lidava na época, porque precisava me assumir para minha família. Não achava certo fazer isso às escondidas e não abrir o jogo. Juntando experiências de amigos e de como lidaram com sua homossexualidade, construí os personagens de Eliéser e Arthur. Eliéser pode se transformar na pessoa desejada, qualquer pessoa desejada.

Ele gostava de discursar sobre como o mundo havia mudado desde a sua época. Acabavam dando muito mais importância ao feminismo do que ao machismo, enquanto as mulheres podiam exercer seu direto de compra e embelezamento, os homens acabavam se tornando uma espécie de mulher com paus, que também, tinham os desejos por compras e embelezamento aumentados nos anos que se passavam. E daí, dizia ele, é que se encontra a razão porque os gays vêm se proliferando. Hahaha, o que ele diria ele se soubesse que o seu filho virou gay?”

Character Designs de Jader Corrê a e Matias Streb para o Fratura Exposta. Os textos, é claro, são só marcação!
Character Designs de Jader Corrê a e Matias Streb para o Fratura Exposta. Os textos, é claro, são só marcação!

Esses poderes podem complicar a vida dos nossos personagens mais do que trazer alguma felicidade para eles. Porém, o uso dos poderes não é algo que se revela como algo bombástico, mas sim um efeito corriqueiro, algo do cotidiano. O terceiro irmão da família, Teófilo, não tem poderes. Mas tem medo de morrer virgem. Esse era um medo meu, que aos 12 anos assistia Malhação e o personagem de Danton Mello era achincalhado por aos 18 anos não ter transado com ninguém. Pressões da sociedade. Esse também é um tema do Fratura Exposta. Como criar um filho numa família desregrada? Como ser gay numa família religiosa? Como ter uma vida de sucesso no amor, no sexo, nos negócios?

“Palavras são simples, as emoções é que complicam a vida. Você nunca sabe pra que lado elas vão te levar. Por isso não confio na fidelidade. Não sei se meu beijo é bom. Eu nunca provei. Não sei se eu sei te amar como você merece, porque não acredito em casamento. Não sei amar de perto. Meu amor se manifesta a uma distância segura. Com todos os itens de segurança. Meu amor se manifesta por palavras frias que nunca sentirão o seu calor. Pois quando eu tocar você vou sentir frustração por tudo o que você poderia ser e não é.”

Capa do Fratura Exposta #02, por Jader Corrêa
Capa do Fratura Exposta #02, por Jader Corrêa

Ainda temos Teodora, a mãe da família, que apresentava um programa infantil em uma estação espacial, mas foi flagrada transando com os animatronics do seu show e foi despedida. Mais uma vez ela vai ter que lidar com a competição e os segredos de sua família. Mas o que a HQ quer passar além de mostrar que todo mundo tem problemas de relacionamento é que todo mundo tem uma fratura para ser exposta. Todo mundo tem uma mancha que nem Vanish limpa, e o melhor a fazer, sempre é expor essa fratura para que todo mundo possa ver. Abraçar a mancha. Revelar a fratura. Porque por mais que todos na família tenham dificuldade de se envolver com Jonas, o patriarca, e talvez o culpem por seus problemas, ele também é incapaz de usar seus poderes de levitação na frente dos filhos.

É uma das brincadeiras mais divertidas, não acham? O controle, eu digo. Manipular as pessoas é bom. Fazer com que elas façam as coisas e ainda achem que as fazem por vontade própria. Bancar o Grande Titereiro. Arranjar aquele puta encontro para sua amiga com o seu ex-marido mala. Agradar o chefe para receber aumento. Deixar a mocinha bonita sentar no seu lugar no ônibus pra olhar o decote dela de cima. JogarThe Sims”.

Esse ano eu lancei a minha HQ, e também um livro chamado Loja de Conveniências como forma de expor para o mundo minhas fraturas, assumindo minhas manchas e com a certeza de que muitas ainda se revelarão ao longo dos anos. Parei de beber, encontrei um antidepressivo eficaz, tenho feito muitos amigos e me relacionado muito bem com as pessoas apesar de minhas dificuldades. Se você está no fundo do poço e tudo que Deus lhe dá é uma pá maior, use ela para escalar as paredes do buraco.

“Enganar-se a respeito da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade: a privação mais horrorosa, que não é possível recuperar nem nesta vida… nem na futura!” – Soren Kierkegaard

 

Aqui embaixo está o link para a minha HQ, caso você tenha se interessado. O primeiro volume está à venda e o segundo está vindo por aí!

Como comprar Fratura Exposta

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1 Comment

  1. Já estava interessado na obra Smee, agora ainda mais. Por ter se entregado à sua arte já lhe dou os parabéns. Também tenho descoberto os fins terapêuticos da escrita: quando escrevo sinto que me aceito e conheço a mim mesmo cada vez mais, com minhas virtudes e defeitos. Parece haver algo xamânico na escrita mesmo.

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