Por que ler os (quadrinhos) clássicos?

O negócio tá MAUS pra eles...

Muitos se perguntam por que quadrinhos um leitor iniciante da mídia deveria começar. É verdade que existem inúmeros “cânones” dos quadrinhos como Little Nemo in Slumberland, Terry e os Piratas, Os Sobrinhos do Capitão, Popeye, Mandrake e até certas obras dos quadrinhos de super-heróis. Mas o que são os clássicos dos quadrinhos? Na literatura podemos contar com a Odisséia, as Metamorfoses de Ovídio, a Divina Comédia, e até a Bíblia como livros clássicos. Mas e os “clássicos dos nossos tempos”, onde se encaixam? Para isso invoco o livro Por que ler os clássicos, de Ítalo Calvino, para tentar nos fazer compreender essa clássica bagunça.

"Minha mãe mandou eu escolher este daqui". Assim, escolhemos nossos clássicos. #sqn
“Minha mãe mandou eu escolher este daqui”. Assim, escolhemos nossos clássicos. #sqn

No livro de Calvino, antes de definir clássicos, ele busca definir o que é um clássico e faz isso através de 14 itens, os quais vou tentar transportar para o âmbito da nona arte, as nossas tão queridas histórias em quadrinhos. Vamos lá, então. Apertem seus cintos e a qualquer caso de despressurização, máscaras de personagens de quadrinhos cairão automaticamente na sua cabeça. As setas laterais você pode utilizar para fugir a um post anterior ou posterior. Use o assento pra flutuar em outras leituras de quadrinhos. Ok, chega de enrolação, vamos ao que interessa:

  1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo…” e nunca “Estou lendo…”

Se aplicarmos isso nos quadrinhos, todos eles serão clássicos. Ora, quadrinhos são rápidos e fáceis de ler. Uma ida no banheiro resolve uma revista (ou não). Acho que para os quadrinhos funcionaria melhor com “Estou lendo de novo…” ou “Estou analisando essa HQ para o meu TCC…”. Aí sim poderíamos dizer que é um clássico, mas ainda assim…

"Um bom livro deve ser bem digerido!"
“Um bom livro deve ser bem digerido!”
  1. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.

Acho que para os quadrinhos há duas saídas: ou é aquele quadrinhos transformador do leitor, aquele mindblowing que te faz ver o mundo de outra maneira (leia mais aqui) ou são aqueles quadrinhos com os quais aprendemos a ler quadrinhos, que possuem valor sentimental, como os X-Men ou algumas histórias da Turma da Mônica têm para mim. Condições de apreciar não valem para as HQs. Podemos ler no banheiro, no ônibus, na cama, na internet ou no celular.

"Esse HULK é INCRÍVEL!" "Mas será que é um clássico?"
“Esse HULK é INCRÍVEL!” “Mas será que é um clássico?”
  1. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se com o inconsciente coletivo ou individual.

Quantas capas de quadrinhos fazem referências a capas de quadrinhos? Quantos quadrinhos referenciam a outros quadrinhos? Podemos dizer que a cultura dos comics é bastante incestuosa, mas através dela também conhecemos particularidades do mundo em que vivemos. Nossos quadrinhos preferidos vão estar em nossa mente, aquela cena gravada no cérebro, evocada e evocada várias vezes, como aqueles episódios de Chaves que já vimos vezes e vezes, todos sabemos que o Hulk é “incrível”, por exemplo e que o Batman é auxiliado pelo Robin. Coisas que já entraram para o inconsciente coletivo.

"Pelo jeito todo clássico é Flex, mas nem todo Flex é clássico!"
“Pelo jeito todo clássico é Flex, mas nem todo Flex é clássico!”
  1. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

Por isso é bom ler no papel algo que você leu no scan. Além do artifício da tradução, há uma segunda leitura. Inúmeras HQs guardam uma segunda, uma terceira, quarta e quinta leituras, como o caso de Flex Mentallo (ver mais aqui).

  1. Toda primeira leitura de um clássico, na verdade é uma releitura.

Num mundo que pipoca produções estreladas por super-heróis aqui e ali, quem pode dizer qual é a versão definitiva de um super? É a do cinema? É a da série? Do desenho animado? Do romance? Ou seja, se você conheceu os Vingadores do filme, o quadrinho dos heróis mais poderosos da Terra, será, sem dúvida, uma releitura. Ainda que no primeiro caso não necessariamente tenha envolvido o ato de decifrar palavras.

MACANUDO, de LIniers. O que será que aconteceu entre uma cena e outra?
MACANUDO, de LIniers. O que será que aconteceu entre uma cena e outra?
  1. Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer.

Para isso talvez os quadrinhos não sirvam, porque existem muitas histórias beeem rasas. Mas se formos parar para analisar a elipse, ou seja, a sarjeta, ou ainda, a transição entre quadrinhos, há muita história que se encerra ali dentro. É nossa imaginação que completa tudo. Esse mecanismo sempre tem algo mais a dizer. (Leia mais sobre isso aqui)

"Guinho, hoje vamos preparar uma deliciosa receita. São livros clássicos com chantilly!"
“Guinho, hoje vamos preparar uma deliciosa receita. São livros clássicos com chantilly!”
  1. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas de leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem e nos costumes).

Santa definição, Batman! Para o alto e avante com essa definição! Ao infinito e além! Todas essas frases já viraram bordões populares e estão inseridas na nossa cultura como a receita da Palmirinha ou da Cozinha Maravilhosa da Ofélia. Mas claro que os quadrinhos utilizam de estruturas de histórias anteriores à sua criação, no final do século XIX. Anteriores até do que a palavra escrita, quando eram contadas nas formas de mitos e lendas. Os sete argumentos básicos, que dizem por aí. Todas as formas de contar história, os utilizam de uma maneira ou de outra.

  1. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente repelem para longe.

Já falei aqui sobre resenhar obras de muito destaque ou clamor da mídia. Sim, elas dão medo, tamanho é o seu peso cultural. E isso acontece com os quadrinhos também. Muita gente foge de Watchmen ou de Sandman, mas também muita gente não quer ler Fantasma e Mandrake, obras incessantemente discutidas, mas que repelem os leitores por seu “peso cultural”.

  1. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são de fato lidos mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

Se estudássemos quadrinhos, ou história dos quadrinhos em qualquer escola ou faculdade – fato inexistente no Brasil de hoje – existiriam os quadrinhos chatos, como os livros de José de Alencar, que a gente teria de ler por obrigação. Mas também teriam quadrinhos como Machado de Assis, em que a leitura superficial do pré-vestibular não seria suficiente para contemplá-lo e cada vez que os lêssemos veríamos como são atuais e lidam com problemas contemporâneos. Quadrinhos, em sua maioria são bem datados e pertencem a um período circunscrito, mas há aqueles que comunicam além de seu tempo e provocam novas leituras como os undergrounds de Robert Crumb ou até mesmo O Incal, de Alejandro Jodorowsky e Moebius, transfigurado em O Quinto Elemento com Bruce Willis e Milla Jovovich.

Quem não se identifica com um Smiley???
Quem não se identifica com um Smiley???

10. Chama-se de clássico um livro que configura-se como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

Qual HQ seria um Aleph de Borges para nós? Eu diria que todos, Scott McCloud, autor de Desvendando os Quadrinhos – um clássico da teoria dos quadrinhos em forma de quadrinhos – fala que o humano se encontra na figura humana desenhada e nela se identifica. Todo o quadrinho possui uma representação de mundo. Está lá sua verossimilhança: na imagem. Há quadrinhos que se utilizam apenas da imagem sequencial e aqueles que o fazem bem, são clássicos da narrativa, são, ao mesmo tempo revigorantes leituras pós-modernas.

11. O “seu” clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

Nossos livros e autores preferidos dizem muito sobre nós mesmos, caros leitores do blog. Guardem o que eu falo, porque nossas leituras nos definem, pois elas também fazem parte da nossa bagagem, elas nos tornam quem somos. Então é por isso que fazer listas de melhores quadrinhos de todos os tempos é uma besteira sem tamanho, porque eles estão mudando com você e você está mudando com eles. E sim, ninguém vai concordar 100% com você. Claro, se você quer audiência faça uma lista dos seus 10 melhores, vai ter audiência sim, e muito muito xingamento.

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele já conhece seu lugar na genealogia.

Quem lê Watchmen sai transformado. Flex Mentallo. Sandman. Maus. Habibi, Cicatrizes. Quem leu reconhece o papel dele dentre as outras obras. Até quem não curte tanto um Manara ou um Moebius como eu sabe reconhecer o virtuosismo dos dois artistas, ainda que sua narrativa em questão de enredo deixe a desejar. (Quê? Tou tentando deixar esse post polêmico! Audiência!).

O negócio tá MAUS pra eles...
O negócio tá MAUS pra eles…

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

Imagine se Maus, de Art Spiegelman, não tivesse a parte do filho. Esse é o barulho de fundo imprescindível para tornar a obra “A OBRA”. Apenas comparando a situação do pai de Art durante o holocausto com a dos dias de hoje é possível estabelecer um paralelo, ou um paradoxo, de como esse terrível acontecimento na história humana deixou marca na família Spelgeman. No quadrinho ganhador de Pulitzer de 1991, ele está pincelando aqui e ali sua vida comum, seus percalços com o pai, ao mesmo tempo que mostra o miniholocausto que se tornou a vida do pai depois do horror da Segunda Guerra Mundial. Às vezes o barulho de fundo é só o eco do grito principal, reforçando o que, em forma de grito, não poderíamos perceber.

Tem algo mais clássico e atual que um quadrinho de Al Capp?
Tem algo mais clássico e atual que um quadrinho de Al Capp?

14. É um clássico aquilo eu persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.

Por trás do espaço da Barbarella havia a libertação feminina. Por trás da caipirice de Ferdinando, de Al Capp, estavam as questões daquele tempo que persistem no nosso. Batman é um psicótico tão terrível quanto seus vilões. O Sonho de Sandman, se sonhasse, seria um ser melhor. Nós que lemos quadrinhos sabemos o quanto as dimensões ou atualidades incompreensíveis estão envolvidas nas nossas leituras. E nem por isso deixamos de compreender seu paralelo com a realidade, por um lado, até a compreendemos melhor e nos tornamos melhores sujeitos atuantes na sociedade.

Como uma lista dos 10 melhores, a definição de clássicos da literatura quadrinistica é muito subjetiva, mas já que citei um monte por aqui, dá pra começar com esses, depois você volta aqui e me diz o que achou ou faz sua famigerada lista dos melhores quadrinhos de todos os tempos da última semana. O melhor mix brasileiro de HQ de super-herói americana. O melhor álbum recente de republicações sucessos do passado. Essa indústria cultural é um amor! ❤



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