Por que os quadrinhos são mais importantes hoje do que jamais foram?

O incrível desenho de David M. Buisán. Adoro esse cara!

“Por mais de um século, os quadrinhos têm se mostrado uma forma de comunicação que casa a sequência linear da tipografia com a percepção global de uma matrix internetesca de partes simultâneas”, essa é uma das razões que tornam os quadrinhos uma mídia tão atual. Para além disso, listei algumas outras razões, inspirado no artigo de Bill Kartalopoulos, para o Huffington Post, que você pode ler aqui. Kartalopoulos é o editor da versão 2014 da incrível coletânea Best American Comics.

Minha prateleira de graphic novels e o fantástico Building Stories, de Chris Ware.
Minha prateleira de graphic novels e o fantástico Building Stories, de Chris Ware.

A MUDANÇA DE PARADIGMA DAS GRAPHIC NOVELS

As graphic novels alçaram os quadrinhos a um outro patamar. Os “romances gráficos” levaram alguns jornalistas e teóricos a compararem e até incluírem quadrinhos como literatura, mas, conforme expliquei neste link, quadrinhos não são literatura, eles são mais que isso. São um meio puro, uma narrativa híbrida de palavras e imagens. Ainda assim podem abarcar artes tão grandiosas como a literatura e a pintura, mesmo estando enclausurados no meio de produção industrial e se caracterizando como um meio de comunicação de massa. Esse fenômeno das graphic novels tem ocorrido de 2000 para cá nos Estados Unidos. No Brasil, de 2004 em diante. Já na Europa, é um fato consumado, visto que o sistema produtivo lá se caracteriza – principalmente nos países francófonos – pela comercialização de quadrinhos na forma de álbuns.

O incrível desenho de David M. Buisán. Adoro esse cara!
O incrível desenho de David M. Buisán. Adoro esse cara!

QUADRINHOS NO CINEMA: OS SALVADORES DE HOLLYWOOD

A nova mina de ouro dos estúdios americanos. A nova solução da “crise criativa de Hollywood”. Sim, adaptações de quadrinhos para o cinema são o canal desde 1999, quando saiu o primeiro filme do Blade – O Caçador de Vampiros pela 20th Century Fox. Mas elas não se restringem apenas aos super-heróis como comprova Scott Pilgrim Contra o Mundo, uma outra narrativa híbrida só que dos quadrinhos com os videogames. Elas não se restringem ao cinema americano, como temos Persépolis, Azul é a Cor Mais Quente, O Gato do Rabino, O Pequeno Nicolau. Ainda há a série Diário de Um Banana, que mescla narrativa de diário com quadrinhos e se tornou filme recentemente. Hoje, as maiores bilheterias do cinema se baseiam em quadrinhos ou se relacionam diretamente com a cultura de fãs. Para saber mais sobre essa Era do Cinema nos quadrinhos veja este link.

Marvel AR: um tipo de transmídia?
Marvel AR: um tipo de transmídia?

O DESAFIO DOS QUADRINHOS DIGITAIS

Durante o início do século XXI a indústria de quadrinhos sofreu um baque: a pirataria de comics. Os famosos “scans” distribuídos par-a-par, via torrentes, via downloads, estavam dilapidando os lucros das empresas quadrinísticas. A solução foi encontrar aplicativos que casassem a narrativa única dos quadrinhos e os aperfeiçoassem para a leitura na internet. Assim surgiu o comiXology, um site que revolucionou a forma de ler quadrinhos na internet, oferecendo uma experiência única principalmente em se tratando de tablets e celulares. Logo as grandes empresas como Marvel e DC Comics adaptavam seus quadrinhos a essa realidade trazendo à baila seus próprios aplicativos de leitura. Alguns deles, trazendo também o recurso dos motion comics. A Marvel, numa experiência pioneira, trouxe o Marvel AR, sigla de Augmentent Reality, em que ao fotografar o símbolo dom aplicativo no celular ou tablet o usuário era levado a conhecer conteúdos extras sobre a revista física, como filmes, depoimentos dos autores, fichas de personagens e muito mais. Ele funciona mais ou  menos no estilo dos QR Codes, para exemplificar.

Os quadrinhos únicos de Matias Schmied, obras de arte ou cultura de massa?
Os quadrinhos únicos de Matias Schmied, obras de arte ou cultura de massa?

UM MEIO ÚNICO EM UM ÚNICO MEIO

Como pudemos perceber acima, os quadrinhos não estão amarrados a um tipo de plataforma – o papel – mas também não só ao digital. Como menciona Kartalopoulos em seu artigo “Apesar de bastante alinhados com a cultura literária, os quadrinhos também são um tipo de arte visual. E como qualquer forma de arte, os quadrinhos possuem propriedades específicas do meio que nos permite expressar ideias que não poderiam ser transmitidas de outra forma. Mas diferente das nossas formas de arte mais tradicionais – pintura, desenho, escultura, têxteis – os quadrinhos não são necessariamente feitos de um único material. Mais parecidos com colagens, os quadrinhos representam uma estratégia conceitual que pode abraçar todo tipo de arte em seu método. Enquanto isso nós fazemos mais que ler quadrinhos, eles nos induzem a ler de formas diferentes do que apenas a prosa”. A arte de Matias Schmied,  como visto acima, comprova isso. Para ver mais exemplos da arte dele, clique aqui.

As Graphics MSP, capitaneadas por Sidney Gusman.
As Graphics MSP, capitaneadas por Sidney Gusman.

A REALIDADE DO BRASIL

Como falei na entrevista para o site Homo Literatus, o mercado de quadrinhos no Brasil, vem, desde a metade da década passada, passando por uma fase de amadurecimento. Vou copiar de lá o que falei: “vejo que muitas editoras têm tentado penetrar no mercado de quadrinhos, principalmente através de adaptações literárias em arte sequencial, para venderem seus produtos para o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola). Mas também vejo que o mercado de quadrinhos está amadurecendo seu melhor lado, que é o lado autoral. Temos muitos quadrinistas completos que desenham e escrevem suas HQs. Também estamos tendo um proliferação – ainda que em menor escala – de roteiristas que só escrevem. Ao mesmo tempo, a Maurício de Sousa Produções tem prestado um enorme serviço ao mercado nacional, ampliando seus horizontes através de revistas seriadas como Turma da Mônica Jovem, ou pela bela iniciativa capitaneada pelo Sidney Gusman, da Graphic MSP, que valoriza os autores nacionais criando novas versões de seus personagens famosos. Tanto a TMJ como a Graphic MSP são fenômenos de vendas. A TMJ já ultrapassou os 400 mil exemplares de tiragem, coisa que nenhum livro alcança, e se trata, vale frisar, de uma revista seriada, que tem todo mês na banca. Já as Graphic MSP são uma janela e tanto para seus autores. Tanto é que Danilo Beyruth (Astronauta: Magnetar) e Vitor Cafaggi (Turma da Mônica: Laços) já emplacaram séries próprias pela multinacional Panini, e hoje são celebridades do quadrinho nacional. Então acho que o mercado de quadrinhos, apesar da crise econômica mundial, só tem a crescer”.

Os tipos de Transmídia: Franquia, Portmanteau e Complexa.
Os tipos de Transmídia: Franquia, Portmanteau e Complexa.

O FENÔMENO DA TRANSMÍDIA

Quando se pensa em transmídia, um dos elementos mais básicos a ser usado nessa estratégia são os quadrinhos. Eles são relativamente baratos de se produzir se comparados a uma série de TV, um game, um websode, um site viralizado. Temos de ter em mente que existem dois tipos de transmídia. A primeira delas é a mais comum de vermos por aí: as adaptações de filmes em quadrinhos, ou vice-versa. Ou de games em quadrinhos ou de quadrinhos em games. Esse fenômeno se chama remidiation, ou remediação na última flor do Lácio, inculta e bela, tonar uma mídia em outra, resumindo. Esse tipo se chama Transmídia de Franquia. Mas a transmídia mais fascinante é aquela que é chamada de Portmanteau. Portmanteau é uma palavra híbrida criada por Lewis Carrol no livro Alice no País das Maravilhas e servia até então para expressões idiomáticas. Até que o mestre das montagens Sergei Eisenstein usou a expressão sem eu livro O Sentido do Filme, para explicitar a justaposição som/imagem do cinema, que pode ser aplicada para escrita/imagem nos quadrinhos. A transmídia portmanteau é uma fascinante ferramenta do século XXI, utilizada de uma forma parecida do Marvel AR. Ela é típica dos ARGs (Augmented Reality Games), que para chegar ao final do jogo é preciso recolher informações dentro do jogo, mas também fora dele: websodes, animações, lugares físicos, livros, fichas e, claro, quadrinhos. Uma forma de narrativa com mais de cem anos, mas que vem sendo aplicada mais e mais nas novas tecnologias narrativas características da realidade digital.

Essa realidade digital que estamos inseridos nos dias de hoje é um caminho sem volta. Graças à internet, seu contexto global e seu hipertexto que nos permite saber “quase tudo um pouco e quase tudo mal”, como diria a música do Kid Abelha. Os quadrinhos buscaram seu lugar na realidade hipermidiática do nosso século, e claro, encontraram, se mostrando mais importantes hoje do que nunca foram. É assim que eu encaro os quadrinhos. “Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa mas nada tanto assim”. Essa música nunca foi tão atual.

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