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O Crime e o Castigo de Garth Ennis

Uma coisa que sempre me irritou na carreira de Garth Ennis, para além das escatologias que ele insiste em colocar nas suas histórias, é aquela história de todo quadrinho que ele publica ter a tal da “parceria masculina”. Homens unidos fazendo escrotices e adorando. Isso está nas histórias do Constantine, que estão saindo aqui pela Panini Vertigo  e também no seu adorado idolatrado salve salve Preacher, que também sai esse mês em novos encadernados pela editora italiana. Mas desde seu início Ennis já dava sinais dessa temática já nas revistas da 2000 A.D. lá na Inglaterra, onde começou.

Espere o EnnisPerado!

Espere o EnnisPerado!

Outro ponto do Garth Ennis que não gosto é sua ojeriza aos super-heróis, tentando transformá-los sempre em fatores de comédia, como na série The Boys, que iniciou na Wildstorm e terminou na Dynamite Comics. Apesar de um aficionado pela Segunda Guerra Mundial, Ennis afirma que escrever uma história do Capitão América seria “extremamente ofensivo, porque para mim a realidade da Segunda Guerra era muito humana, caras comuns de carne e sangue chafurdando em miseráveis trincheiras inundadas. Então adicionar um pouco de narrativa fantástica super-heroica a isso sempre me enoja um pouco”.

"Garotos como eu sempre tão espertos perto de uma mulher, são só garotos..."

“Garotos como eu sempre tão espertos perto de uma mulher, são só garotos…”

Você pode perceber também que, em todas histórias de Ennis, a guerra está envolvida de um jeito ou de outro. Embora ele não tenha crescido num ambiente hostil, e sim no subúrbio de uma cidadezinha da Irlanda do Norte – onde sabemos, havia uma forte guerra entre católicos e protestantes, principalmente caracterizada pelas ações do grupo terrorista IRA (Ireland Republican Army) – não experimentou de violência nenhuma das que apresenta em seus gibis. Ele diz que o fato de seus gibis serem ultraviolentos são graças às leituras que teve na vida e o fato de ser brutalmente honesto quanto ao efeito da violência nas pessoas.

Um boa intenção, meu caro Garth, mas as pessoas entenderam errado. Elas acham que violência, nos seus gibis é algo bonito, a violência crua, gráfica e gratuita de seus quadrinhos fazem algumas pessoas gargalhar de satisfação. Um pouco disso se explica pela criação ateísta do autor e por tentar lançar mão do infame humor inglês, que é menos casto e mais puritano acerca do sexo e violência.

"Oh Halo Jones, vamos pra balada, quero sair com você na madrugada!"

“Oh Halo Jones, vamos pra balada, quero sair com você na madrugada!”

Garth Ennis também explica que suas maiores influências não são os autores ingleses comumente citados, Alan Moore, Gaiman e Morrison, mas Alan Grant, Pat Mills, John Wagner e os demais escribas da 2000 A.D.. “Para mim, Alan Moore era só o cara que escreveu A Balada de Halo Jones e estes quadrinhos ‘Choques Futuristas’ incrivelmente engraçados na 2000 A.D. Apesar de eu adorar aquela coisa, para mim, não eram o filé dos quadrinhos. Só quando eu descobri os quadrinhos americanos que percebi do que Alan era realmente, realmente capaz: V de Vingança, Monstro do Pântano e Watchmen. Mas por mais que na época eles não fossem creditados, descobri mais tarde que eram Pat Mills e John Wagner quem escreviam as coisas que eu lia quando tinha seis anos, todas aquelas histórias de humor negro, excessivamente dramáticas e violentas, baseadas nos personagens”.

Mas o que eu quero dizer que apesar de tudo isso, Ennis se redime comigo, porque apesar do “humor negro, violência e drama excessivos” ele é um cara que sabe colocar moral na história. Mas não falo da “moral e bons costumes”, eca! Falo de um conjunto de valores e conceitos que ele carrega em suas histórias como respeito e honra, mesmo que seja respeito e honra entre sacanas.

Para mim, Ennis é o Tarantino dos quadrinhos. Vocês podem ver que ambos estão ali e ambos têm suas obras de maior sucesso saindo no mesmo período. Sua temática é parecida. Os elementos que utilizam também. Bastardos Inglórios e Django poderiam muito bem ter sido escritas por Ennis. Assim como Tarantino seria o diretor perfeito para uma série de Preacher.

Ah o Dostoivesky diria sobre isso?

Ah o Dostoivesky diria sobre isso?

Garth Ennis mudou de figura para mim quando escreveu o Justiceiro na Marvel. E não fez só isso, também meu fez mudar minha opinião sobre o personagem Justiceiro (ver mais aqui e aqui também).

Ennis se redimiu ainda mais comigo quando me deparei com a minissérie Crime e Castigo (Pride e Joy), que ele escreveu em 1997, com o veterano John Higgins nos desenhos. Ela conta a história de um pai que quer passar os valores de hombridade, valentia e macheza para seus filhos, mas esconde um terrível segredo no seu passado. Essa é uma leitura recomendadíssima para fãs de Ennis, embora tenha sido uma de suas HQs menos comentadas, e é tão lado B, que nem um verbete na Wikipedia ela tem.

Eu interpretei Ennis errado em sua ânsia der mostrar os guts’n’glories dos quadrinhos, mas se eu errei de um lado, muita gente pecou pelo outro, suprainterpretando as histórias do irlandês, sua violência descerebrada e sua escatologia. Nem tanto ao céu nem tanto à Terra. O que se deve extrair de Ennis são os valores que ele tanto destaca em seus personagens e a sua narrativa, sempre forçando um pouco mais as fronteiras do meio histórias em quadrinhos.

Esse texto foi publicado originalmente na coluna Satélite Vertigo do site Terra Zero.

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6 comentários

    • guilhermesmee diz

      É verdade, Tiago! Uma das melhores HQs do Ennis, uma das mais envolventes, com certeza! Pra quem não leu vale ir atrás! 😉 Abração!

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  1. Lembro da época em que o Ennis estava em voga, e quem torcia o nariz adorou essa Crime & Castigo.

    Já fui mais devoto do Ennis e acho que ele tem momentos excepcionais em Hellblazer e Preacher. Mas agora entrego à internet a função de me dizer quando devo ler algo novo dele. Porque tem muita coisa muito ruim, infelizmente.

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  2. Pingback: O Círculo das Influências, de Will Eisner a Kelly Sue DeConnick | Splash Pages

  3. Pingback: Os Melhores Quadrinhos da Vertigo que li em 2014 | Splash Pages

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