Entrevista, Eu e os Quadrinhos, música, quadrinhos, Sobre Roteiros
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O dinossauro da perna de pau, do olho de vidro, da cara de querido

Velociraptor Pirata. Um nome bastante peculiar. E essa peculiaridade você pode encontrar nas histórias em quadrinhos desse coletivo. Pra começar, South-Fi, uma HQ que trabalha a caipirice num mundo sci-fi de animais falantes e animais falantes do caipirês à la Chico Bento. Depois, a HQ-Poema Quando tudo é monótono, num formatinho pequeno de grande fofura como a Mix Tape de Lu Cafaggi. Mas a HQ do grupo que mais chamou minha atenção foi HUG, uma das melhores leituras que tive esse ano, serinho gente. Ela brinca com a narrativa dos quadrinhos, rompendo quadros, rompendo a narrativa comum dos quadrinhos e ainda assim não se mostra pedante, porque nos envolve no bom humor e no carinho entre os personagens. Sabe aquela pessoa que você ama tanto que só pensa em abraçar o tempo todo? É mais ou menos esse o mote do HUG.

Piratas do CariNHO

Piratas do CariNHO

Isso de nos envolver no bom humor e no carinho é uma marca registrada da Velociraptor Pirata. Foi assim que eles me recepcionaram na Gibicon deste ano, mesmo nunca tendo me visto mais gordo. Eles estavam lá na última mesa da feira, sentados pegando o frio e calor da maluca Curitiba, mas eram uma das bancas que o pessoal se reunia para conversar tal o seu carisma e talento. E ainda o Vítor Cafaggi fez questão de sentar com eles e autografar suas HQs com esse pessoal! Não é pra qualquer um! Pra vocês verem como esse Velociraptor é legal! Segue abaixo uma longa entrevista com o Phellip Willian Gruber e o Theodore (xará) Guilherme. A Melissa Garabeli ficou com vergonha de responder, mas a gente gosta dela mesmo assim.

Da esquerda para a direita: Phellip Willian, Melissa Garabellis, Theodore Guilherme, Larissa Clausen e Aliás Alisson

Da esquerda para a direita: Phellip Willian, Melissa Garabellis, Theodore Guilherme, Larissa Clausen e Aliás Alisson

Splash Pages: Qual a proposta do Velociraptor Pirata? Como foi que vocês se conheceram e resolveram criar o coletivo?

Theodore Guilherme: Todos nós nos conhecemos na universidade, eu (Theodore), a Melissa e o Alisson fazemos Artes Visuais e o Phellip faz Letras. Mas duas coisas nos uniram fortemente logo de cara, a vontade de uma produção autoral e o amor por quadrinhos. Sempre conversávamos sobre nos unir montando um coletivo ou studio de ilustração/quadrinhos, mas isso sempre ficava na conversa (rs). No comecinho de 2013 eu fiquei sabendo de um evento chamado Mini Comic Day, um desafio aonde vc faria uma pequeno zine em apenas um dia. Nisto resolvi convidar estes amigos para participar e como maneira de organizar nossa produção e mostrar pros amigos e colegas o que estávamos fazendo resolvemos nos unir em forma de um selo, e assim nasceu o Velociraptor Pirata. Após isso, vimos o quanto foi uma experiência incrível e ao mesmo tempo tudo aquilo que sempre conversávamos, então resolvemos que seria algo além de um evento somente, que estava destinados a ser um grupo de amigos que divulgaria o trabalho um do outro e trabalharíamos lado a lado.

Phellip Willian: O bacana aí já resumiu o processo de formação dos raptors. O que eu posso ampliar para a resposta é que muito das coisas que aconteceram no grupo já estavam no coração e fala desde meados de 2012, que foi quando nos conhecemos. South-fi já é mais velho que muita criança. Meus trabalhos com a Melissa sempre estiveram em nosso imaginário e o Alisson já tá cansado de receber roteiro meu que eu arrego. Hehe. No entanto, desde que nos conhecemos a produção aumento, a faculdade terminou (falta uma semana, mas tamo perto) e os planos para o FIQ de 2015 e outros eventos já tão na ponta da língua.

Olha o Ampersand fazendo companhia para o Velociraptor Pirata!

Olha o Ampersand fazendo companhia para o Velociraptor Pirata!

SP: Suas HQs lidam com personagens fofinhos, animais antropomórficos e fatos da vida. Quais as suas inspirações e influências para escrever e desenhar suas HQs?

Theodore: Eu posso falar sobre os fatos do animais antropomórficos, deixo a fofura pra Melissa (rs). Eu sempre gostei de desenhar animais, antropomorfizando ou não. Em 2012 eu desenhei uma série (https://www.behance.net/gallery/7072571/Animals-(Devaneio-Theodorico) para uma exposição que fiz, dentro disso eu acabei desenhando um urso tocando banjo (acrílica sobre tela), esse foi o primeiro desenho do Beard. Estava numa época ouvindo muito bluegrass, estilo de musica caipira americano, e comecei a imaginar aquela atmosfera estética que  via na musica em forma de quadrinhos. Numa conversa com o Phellip eu contei sobre essas ideias e então começamos a desenvolver e explorar esse conceito juntos. Ambos gostamos de ficção cientifica, filmes de espionagem, e estes outros elementos foram sendo acrescentados na história conforme fomos elaborando o universo.

Sobre influência é um assunto amplo, pois ela vem de inúmeros lugares, não sendo necessariamente ilustração e quadrinhos. Citei anterior musica, qual foi o primeiro meio de inspiração para South-Fi, isso dá pra ter uma ideia que inspiração não tem limites, haha. Mas como a galera gosta de ouvir nomes e os artistas que tu curte, eu admiro muito a produção de quadrinhos brasileira, sendo de ídolos ou amigos/colegas, e estou a alguns anos acompanhando fervorosamente essa galera: desde artista super renomados a anos na indústria, como os gêmeos (Fabio Moon e Gabriel Bá), Rafael Albuquerque, Rafael Grampá, Vitor Caffaggi, Magentaking, Davi Calil e muitos outros, como também uma galera que ando conhecendo pessoalmente (e com talento tão grande quanto esses que citei), Victor Moura, Guilherme Match, Bianca Pinheiro, e etc. Basicamente o que me inspira é o que ando acompanhando no momento, seja artista/musica/peça de design/obra de arte, e tudo isso me da insights para as produções.

Phellip: Novamente o South-fi já foi muito bem colocado. O lance dos animais antropofágicos (daria uma boa né?) e das fofuras de pernas são dos desenhistas. O Theodore sempre teve os bichos na mente e a Mel praticamente vive com as fofuras: ela vê, quase que literalmente, monstrinhos e animais em todo objeto.

Posso falar da inspiração da produção de roteiros. O TH comentou a produção do South-fi e eu ainda adiciono nestas influências os roteiros cinematográficos. Gosto muito de cinema e tenho colocado em South-fi uma formatação narrativa que em muito se aproxima de filmes de aventura e ficção científica. E a música é sempre presente, seja na história na hora da produção.

SP: A história de Hug lida com um monstrinho que sai à caça de um bichinho que saiu do seu nariz (!). Como foi o processo de criação e qual a origem desta história? E por que o bichinho sai do nariz do Hug?

Phellip: O processo de criação de HUG foi de supetão. Sentamos, pegamos o personagem que a Mel tinha acabado de esboçar e nos debruçamos sobre uma tentativa de “animação” muda. A ideia de sair do nariz foi a única forma que encontramos de colocar mais um personagem. Esta iniciativa, claro, deu um tom non sense pra história, mas a gente se divertiu muito criando isso, acho que demos mais risadas do que quem leu a história. Hug surgiu meio do nada e foi feito às pressas para o 24 horas de quadrinhos. A origem é a pressa e a agilidade, por isso as ideias tão cabulosas e inesperadas.

Oh, Suzana, não chores por mim, porque vou pro Alabama pra tocar meu bandolim...

Oh, Suzana, não chores por mim, porque vou pro Alabama pra tocar meu bandolim…

SP: Já South-Fi é uma ficção científica com personagens antropomórficos. Um dos personagens que mais chama atenção é Agente K, que tem uma cabeça de aquário com um caracol dentro. De onde saiu a inspiração para este personagem?

Theodore: South-Fi nasceu como disse de um conceito inspirado em um estilo musica e como as pessoas do sul do EUA vivem. Dentro disso fomos desenvolvendo os personagens, como Beard tinha uma carga mais dramática e séria, precisavamos de um personagem que fosse o oposto e que pudesse tirar a seriedade do Beard pra desenvolvermos outros aspectos tanto dele, quanto desse personagem. Sempre gostei de animais sem muito potencial aparente, acho que isso nasce da minha relação com ratos/topolinos, tenho um rato (tinha 2, mas infelizmente a Querosene morreu no inverno desse ano), e o fato das pessoas terem aversão a esses animais, ou menosprezo por eles me leva a refletir sobre sua posição. Quando fomos pensar em outro personagem, eu queria brincar com uma lesma, caracol, ou outro animal, mas como fazer ele interagir com o Beard? Então nos desenhos que surgiu essa figura de terno, inspirada diretamente no James Bond com cabeça de aquario, depois o Phellip criou um backgournd bacana para ele.

Phellip: Assino o que o TH afirmou, só lembrando que o K surgiu de uma pinup mais antiga que o próprio quadrinho. Ele criou o K meio que por brincadeira, mas ambos gostaram tanto do resultado que demos memória pro bicho. Hoje a gente se diverte bastante com ele e, como o Th lembrou, ele traz a possibilidade do humor pra narrativa.

SP: Em South-Fi também temos o clássico momento “chamado para a aventura”, que lembra muito O Velho Logan, de Mark Millar e Steve McNiven. Vocês conhecem a história? O que vocês pretendem desenvolver na continuação de South-Fi, que é uma narrativa seriada?

Theodore: Queriamos que South-Fi fosse uma aventura gostosa de ler, uma clássica jornada do herói. Adoramos diversos estilos de quadrinhos, seriados, tiras, filosóficos, dramáticos e etc, mas na época que o iniciamos, sabíamos que o que se encaixaria melhor neste universo era uma aventura (podendo encaixar sub-gêneros nela conforme necessidade). Quando fomos na Gibicon queríamos divulgar nosso trabalho que estamos fazendo com South-Fi, mesmo não tendo acabado ele. Tivemos um retorno incrível e pessoas que foram muito receptivas e carinhosas com nosso trabalho (como um tal de Guilherme Smee, haha) e isso foi incentivar para continuarmos com ele. Ainda estamos guardando datas e outros detalhes, mas o que posso dizer é que da próxima vez que formos levar uma nova revista de South-Fi para um evento, certamente será o arco completo da revista apresentado até então.

Phellip: Cara, to ligado neste quadrinho, mas não o li ainda – vai pra fila. A chamada para aventura é um tema muito presente em narrativas “épicas” e sempre nos agradou (como não lembrar do nosso querido Hobbit em sua jornada nada esperada). A ideia do desenvolvimento de South-fi seguirá nos moldes também das grandes jornadas, mas com alterações pontuais devido a singularidade do texto. Já temos o arco todo na cabeça e estamos criando já para publicar no ano que vem. Abandonamos a ideia seriada por FORTES E INÚMERAS sugestões – Hehe – mas o barco segue, sete mares encontraremos.

As HQs do velociraptor em outra sessão de fotos...

As HQs do velociraptor em outra sessão de fotos…

SP: Quando Tudo é Monótono não é nada monótona. Ela passa uma mensagem interessante. O quanto da vida de vocês está nas HQs que vocês criam e como isso ajuda ou atrapalha no seu trabalho?

Phellip: Uma pergunta relevante e muito sensível. Acredito que muito de todos está neste poema.

O desenvolvimento deste quadrinho não poderia ser mais sensato: um dia de chuva, nós dois “isolados” em um casa e com tempo suficiente para refletir sobre muito.

Acredito que qualquer história passa pelo que você é. É impossível, a meu ver, narrar qualquer experiência sem experimentá-la – mesmo que seja no plano da abstração. A identificação com o texto só se torna possível quando você consegue se visualizar na leitura, e isso foi o que aconteceu com muita gente que leu.

Não pensava que seria tão profundo assim, nem mesmo que o tom poético seria tão sensível. Eu mesmo quando li, algum tempo depois, me identifiquei tanto que a emoção me apareceu de susto como se fosse uma primeira leitura. Acho que embora a nossa vida esteja ali, nós conseguimos aproveitar da fruição do texto como expectadores. Neste sentido, o texto apenas nos auxilia a compreender e sentir a própria vida.

O que pode ser enrosco para nós é que é uma produção dupla. Ambos temos expectativas e sentimentos próprios e transmitir isso em uníssono é um desafio e tanto. Mas mesmo com desencontros e nebulosidades, nossa relação apenas se amplia e se fortalece.

SP: Agora falando em técnicas, vejo que vocês gostam muito de aquarela e de usar retículas, o que dá um efeito interessante e um diferencial para o trabalho de vocês. Como vocês aprenderam a forma certa de apresentar as HQs de vocês e todo o processo gráfico e editorial?

Theodore: Acho que foi tentativa e erro (haha). Eu sempre adorei aquarela, e processos artísticos tradicionais, então essa busca em estudar as técnicas e colocar no trabalho explorando seu potencial, foi algo natural. Quanto a retícula em South-Fi, foi pela intenção de emular uma estética desgastada ao qual combina na nossa opinião com o universo que mostramos, também foi uma leve inspiração nos quadrinhos do outro lado do mundo, e como os orientais usam esse artificio para criar atmosfera, contrastes e efeitos que ajudam a contar a historia.

Sobre o processo gráfico, não existe uma escola exata para quadrinhos, é na base da tentativa. Eu particularmente (Theodore) trabalhei dois anos numa editora da universidade, por mais que fizesse somente livros e revistas cientificas, vejo hoje que esse caminhar foi essência para me capacitar a editar minhas próprias revistas. Eu tento explorar aquilo que aprendo no dia a dia trabalhando com design, ao mesmo tempo me inspirando tanto nas publicações em quadrinhos, quanto de outros mercados editoriais, acho que este é um bom caminho para se fazer e pensar sobre como editar seus trabalhos.

SP: Se vocês pudessem descrever suas HQs em uma frase pra chamar as pessoas à leitura, qual seria ela?

Theodore: South-Fi: Um urso chuta-bundas, um agente-caracol-secreto e uma atmosfera que Clint Eastwood gostaria de fazer parte (passei do limite? hahah).

Phellip : South-fi: Uma Folk Saga das galáxias, em quadrinhos.

Hug: Você já quis abraçar um monstrinho que sai do seu nariz?

Quando tudo é monótono: Quando o ócio faz mais sentido do que fazer.

 

SP: Obrigado pela receptividade, pessoal, abração!

Theodore: Abraços, foi um prazer responder essas perguntas, e espero que o pessoal goste do nosso trabalho. Sempre que quiserem podem vir conversar com a gente!

Phellip: Valeu aí! Nunca fiz entrevistas assim, mas da galera que eu vejo por aí, as perguntas nunca são tão profundas e interessantes. Parabéns! E estamos abertos pro mundo.

Se você curtiu a entrevista e o pessoal da Velociraptor Pirata, visite o tumblr deles nesse link: http://velociraptorpirata.tumblr.com/ Lá você pode entrar em contato com eles e adquirir suas maravilhosas HQs.

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