A Era dos Quadrinhos de Forma

Chris Ware e Building Stories: uma mídia dentro da mesma mídia ad abismum

Estamos vivendo uma era em que os quadrinhos precisam se fortalecer em seu suporte mais antigo: o papel. A concorrência está aí. São os webcomics, os motioncomics, os quadrinhos em app, os quadrinhos em PDF e digitais pirateados. Mas o papel continua forte. A razão é que, por mais arcaico que seja, a leitura em papel permite uma experiência única no caso dos quadrinhos. Através dele, o conhecimento está nas mãos do leitor, que controla o ritmo da história e da leitura. Hoje muitos quadrinhos brincam com a forma como são produzidos, seja no layout de página, seja no design gráfico, nas onomatopeias, enfim, os quadrinhos de hoje abusam dos recursos gráficos para tornar essa mídia plena. Mas como foi que chegamos a esse patamar? Vou explicar em alguns itens.

Os cobertores e a experimentação estão presentes em toda história.
Os cobertores e a experimentação estão presentes em toda história.

INFLUÊNCIA DAS GRAPHIC NOVELS

Na metade da primeira década do século XXI, as graphic novels começaram a se proliferar nos EUA e no Brasil da mesma forma que os álbuns fazem na Europa. Porém, a diferença é que as graphic novels vindas dos Estados Unidos possuem uma peculiaridade que os álbuns não têm, que é a quantidade de páginas. As graphic novels parecem-se com tijolões que passam das 200 páginas e, com uma extensão tão grande, os autores se permitem mais experimentações na narrativa, como fazem Jeff Lemire em seu Essex County ou Craig Thompson em Retalhos. Ainda temos o fenômeno Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Brian Lee O’Malley, que casa a narrativa dos quadrinhos com os efeitos e qualidades próprias dos videogames.

Chris Ware e Building Stories: uma mídia dentro da mesma mídia ad abismum
Chris Ware e Building Stories: uma mídia dentro da mesma mídia ad abismum

CONSTRUÍNDO HISTÓRIAS QUADRO A QUADRO

Porém o maior revolucionário da forma no quesito graphic novels é Chris Ware e suas publicações na revista ACME Novelty Library, de onde saiu Jimmy Corrigan – O menino mais esperto do mundo. Nessa história, que pode ser lida de diversas maneiras, Ware brinca com a forma, mesmo que o conteúdo e o sentido da história se percam um pouco. Depois, mais tarde, Ware criou o genial Building Stories, uma caixa recheada de comics de todos os tamanhos e formas – ainda que apenas no papel – que separados contam uma história, mas juntos contam uma ainda maior. Uma espécie de transmídia dentro da mesma mídia.

QUADRINHOS DO BENDIS!!! ELE: Foi apenas um lance! ELA: Um lance? ELE (PENSANDO): Foi apenas o que houve. ELA: Foi... Foi apenas um lance? ELE: Podecrê! ELA: Certo. ELE: Você não acredita? ELA: Não. Não foi só um lance. Beleza. ELE: Foi só um lance.
QUADRINHOS DO BENDIS!!! ELE: Foi apenas um lance! ELA: Um lance? ELE (PENSANDO): Foi apenas o que houve. ELA: Foi… Foi apenas um lance? ELE: Podecrê! ELA: Certo. ELE: Você não acredita? ELA: Não. Não foi só um lance. Beleza. ELE: Foi só um lance.

APROXIMAÇÃO COM O QUADRINHO INDIE

Nos Estados Unidos a cultura indie tem muita força e vem se profissionalizando desde os anos 60, quando existia a cultura dos fanzines, diferente do Brasil, que vem aproveitando dessa profissionalização massiva desde os anos 2000. Lá, muitos artistas começam trabalhando em pequenas editoras e, para se destacarem num mercado tiveram de inovar na forma. Seja na forma da linguagem, como fez Brian M. Bendis; seja na narrativa, do jeito de Jason Aaron, Brian Wood e Nick Spencer; ou na própria forma, como fazem Kieron Gillen e Jamie McKelvie em seus Jovens Vingadores.

Pizza Dog!
Pizza Dog!

OS ARQUEIROS DA VANGUARDA

Guardando as portas da entrada para a vanguarda da forma na indústria mainstream estão dois bastiões armados e aljava e arco: Gavião Arqueiro e Arqueiro Verde. Dois personagens com grande destaque em outras mídias – cinema e séries – os dois vêm angariando fãs seja no audiovisual ou nos quadrinhos pela forma despreocupada e worry free dos arqueiros. Essa posição dos personagens combina e muito com experimentações na forma.

Pelo lado do Arqueiro Verde temos o time formado por Jeff Lemire, o desenhista Andrea Sorrentino e o colorista brasileiro Marcelo Maiolo. Cito aqui o colorista porque ele tem um papel essencial nessa ponderação sobre a forma. É ele quem dá ênfase às onomatopeias, criando um contraste colorido/monocromático/preto e branco com a arte assemelhada à stêncil de Sorrentino.

Pelo lado da Marvel, a HQ do Gavião Arqueiro, por Matt Fraction, David Aja e demais artistas, é menos sisuda, brinca com a linguagem, a narrativa, a forma, os desenhos, a cores. Talvez seja o representante mais genuíno desta discussão. A história de maior destaque nisso tudo é a do cachorro Sortudo/Mossarela que “fala” na linguagem de sinais e inspirou o trabalho de Eduardo Damasceno e Luiz Felipe Garrocho na Graphic MSP Bidu – Caminhos.

A experimentação de Beyruth com o GRID!
A experimentação de Beyruth com o GRID!

ORIENTADOS PELO GRID

Desde muito antes de Alan Moore, os quadrinistas vêm se orientando pelo grid para traçar o layout de páginas dos quadrinhos. Explico. Grid é uma ferramenta que orienta os designers gráficos, trata-se de uma grade de riscos entrecruzados, verticais e horizontais, que orientam a disposição de elementos nas páginas. No caso dos layouts de quadrinhos, se trata da composição dos quadros na página. Em Watchmen, Alan Moore e Dave Gibbons utilizaram um grid de 9 quadros por página para contar a história, podendo haver aglutinações e divisões. Foi assim que apresentaram as variações da história Temível Simetria, sobre Rorschach, em que os grids das páginas são espelhados.

Alan Moore não é o único a usar esse elemento: David Lapham usou um grid de oito quadros por páginas no seu premiado Balas Perdidas e no maravilhoso Fell foi a vez de Warren Ellis e Ben Templesmith trabalharem com seis quadros por página. Até Scott Snyder e Greg Capullo perverteram o grid ao colocarem o seu Batman numa história labiríntica em que a história, para ser lida, era preciso virar a revista e de cabeça para baixo e sair girando a publicação.

Outro trabalho de grid, mas agora nos quadrinhos brasileiros foi o que Danilo Beyruth fez em seu Astronauta – Magnetar, seu trabalho para a Graphic MSP. Para retratar a rotina do personagem, ele fez uma divisão de quadros em progressão geométrica para mostrar como a rotina do personagem principal era repetitiva e maçante.

Krazy Kat, de George Herriman (1913 - 1944)
Krazy Kat, de George Herriman (1913 – 1944)

FORMA > CONTEÚDO ou FORMA = CONTEÚDO?

Então, depois de ter falado tudo isso, temos de refletir: nos quadrinhos de hoje, a forma se sobressai ao conteúdo? Eu acho que não. Peguemos quadrinhos pioneiros das Sunday Strips (Páginas Dominicais) como Little Nemo in Slumberland, de Winsor McKay e Krazy Kat, de George Herriman, que apesar de surreais conseguiam passar suas histórias muito bem para um público muito menos experiente em leitura, em quadrinhos ou em cultura do que o atual. Imagino que, com exceção de Chris Ware – que brinca exclusivamente com a forma, sem privilegiar linguagem ou narrativa – , os quadrinhos atuais estão numa fase, ou melhor, numa era em que a forma se equivale ao conteúdo. Os artífices dos quadrinhos finalmente aprenderam a usar e abusar de suas potencialidades e tornariam isso um recurso narrativo tão eficiente como as elipses de flashback ou flashforward.

Como dizia a máxima do comunicólogo Marshall McLuhan, “o meio é a mensagem”. A forma com que se escolhe o meio que a história vai ser divulgada já é a história em si. Cada meio possui suas particularidades e potencialidade se escolher quadrinhos para contar uma história significa: subtexto, elipses de tempo, plano geral x close up, controle do tempo da narrativa pelo público, identificação com os personagens através do visual, efeitos especiais inesperados, linguagem coloquial, e, claro, experimentação e inovação que, desde sempre, foi um sinônimo quando se trata de quadrinhos.

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8 Comments

  1. Muito legal o texto mais uma vez, Smee! Mas não concordo com o Ware privilegiar a forma à narrativa – acho que uma serve à outra, e muito bem.

    Já leu o Multiversity: Pax Americana? Aquilo ali rende HORAS de discussão sobre forma. Inclusive sobre o ponto que você menciona no início, sobre como dar relevância ao impresso.

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  2. Obrigado Érico e Kleiton! Ainda não li o Pax, vou esperar sair por aqui, na verdade, mas ando ouvindo muitos elogios ao Watchemen do Morrison, hehe.
    Quanto ao Ware, realmente, a narrativa não é desprivilegiada, mas a gente se sente vazio depois que lê as histórias.

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