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Consciência Negra: Cumbe, de Marcelo D’ Salete e Tungstênio, de Marcello Quintanilha

No mês da consciência negra no Brasil, quero apresentar para vocês duas HQs que retratam essa representativa parcela da população nacional. A primeira delas é Cumbe, de Marcelo D’ Salete, que traz histórias sobre os escravos bentos no Brasil. A segunda, é Tungstênio, de Marcello Quintanilha, essa, contemporânea, trazendo um recorte do cotidiano brasileiro das grandes cidades. Além de retratarem o povo negro brasileiro, pode-se dizer que as duas HQs se passam no mesmo espaço, porém em tempos diferentes. As duas, entretanto confirmam que as mazelas sobre o povo da pele escura continuam a segregar a nação.

Detalhe de Cumbe

Detalhe de Cumbe

O REBUSCADO NO POPULAR

Ambas obras trabalham em profundo a alma da população brasileira, porém, o fazem ao retratar cenas cotidianas, que se encontram na cultura e nos costumes e que já estão imiscuídas no Brasil. Como em Tungstênio, quando Keira traz à tona sua definição de “necessidade do amor”. Esse mesmo amor fugidio também está em Cumbe e é mostrado de vários jeitos, mostrando expressões e costumes que ficaram arraigados no povo brasileiro. Da mesma forma, ficamos sabendo da sabedoria popular em seções da população geralmente tidas como ignorantes.

O TRABALHO COM O TEMPO

Quintanilha traz um trabalho ímpar com o tempo nas histórias em quadrinhos. Ele vem e volta no andamento e nas cenas, sempre poucos segundos antes delas voltarem a acontecer e, quando o faz, passa a retratar outros ângulos da cena para que o leitor entenda a continuidade narrativa. O autor de Tungstênio usa narrativas entremeadas, como se uma câmera lenta ocorresse apenas nos momentos de tensão, uma coisa cada vez mais comum nos filmes, mas pouquíssimo utilizada nas HQs. Essa câmera lenta também está em Cumbe, mas a velocidade da contemplação não é mais medida pela sequência dos quadros, mas pelo olho do leitor que se demora na poesia imagens. Essas imagens servem tanto para contextualizar como para refletir. São imagens profundas, como se enraizasse o sofrimento dos escravos na nossa retina.

Um dos detalhes centrais de Tungstênio: o uso do tempo.

Um dos detalhes centrais de Tungstênio: o uso do tempo.

HISTÓRIAS PLURAIS

Além de obviamente retratarem a diversidade brasileira, Cumbe e Tungstênio são narrativas plurais. Enquanto Cumbe apresenta várias histórias em um mosaico de que vai trazer uma grande história para o público, Tungstênio conta uma história só, mas que na verdade está fragmentada em vários personagens e vários pontos de vista. Tungstênio também trabalha o monólogo interno de maneira peculiar. Quintanilha não utiliza a primeira pessoa do singular, ele usa a segunda, a terceira e isso, no início, causa um estranhamento no leitor: não se sabe quem está narrando. Mais para frente, com outras vozes adicionadas à narrativa, entramos no jogo de Quintanilha. Cumbe, por sua vez, não possui muitos monólogos, sua interiorização é profunda, sim, mas se dá mais por meio de imagens que palavras, que criam uma empatia gigantesca no leitor.

RETRATOS MARGINAIS

Quadrinhos, talvez a mais marginal das artes serve, nestas duas obras, para retratar àqueles que estão à margem na sociedade. Outro paralelo que pode ser traçado é com outra obra de D’Salete, Encruzilhada, que também foi resenhada aqui no blog (clique aqui), que mostra pequenos episódios em que as pessoas vão sendo esquecidas e colocadas em segundo plano para que outras, como as que fazem parte da mídia, do sistema e das classes dominantes continuem a se fortalecer. Seja durante a colonização do Brasil, seja nos dias atuais, o negro quilombola não é muito diferente do negro suburbano em sua aceitação no nosso país, ainda que com algumas práticas e políticas diferentes.

Tungstênio, de Marcello Quintanilha e Cumbe, de MArcelo D' Salete, ambos pela editora Veneta.

Tungstênio, de Marcello Quintanilha e Cumbe, de Marcelo D’ Salete, ambos pela editora Veneta.

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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