A vida na gangorra: Parafusos – mania, depressão, Michelangelo e eu, de Ellen Forney

Ellen Forney

Depressão é coisa feia. Beijinho no ombro daqueles que dizem que se resolve com uma pia de louça suja para lavar. Se lessem a graphic novel de Ellen Forney, publicada esse ano no Brasil pela WMF Martins Fontes, com certeza se arrependeriam amargamente de suas palavras insensatas. No livro de Ellen, Parafusos – mania, depressão, Michelangelo e eu, ela tenta associar o pensamento criativo com “loucura”, ou seja, a necessidade de usar medicamentos para o transtorno mental. Enquanto isso, vai explicando como “funciona” sua bipolaridade e os gestos que vem fazendo para mudar esse quadro.

Parafusos – mania, depressão, Michelangelo e eu, de Ellen Forney (WMF Martins Fontes, 2014, 252 págs, R$ 39,90, Tradução de Marcelo Brandão Cipolla)
Parafusos – mania, depressão, Michelangelo e eu, de Ellen Forney (WMF Martins Fontes, 2014, 252 págs, R$ 39,90, Tradução de Marcelo Brandão Cipolla)

Ellen sempre passou por fases. Uma delas é a mania, quando está eufórica, cheia de pensamentos. A outra, a depressão, quando se sente inútil e embotada para a vida. Ellen sempre aprendeu a dar significado às coisas. Mas não o significado aparente, ela buscava encontrar ali algo mais. Nas árvores, nas pessoas, nas gotículas do box do banheiro em que visualizava pessoas numa festa na floresta. Ela diz que esse é o trabalho do artista: encontrar mais significados nas coisas que as pessoas “comuns” não veem.

Ellen Forney
Ellen Forney

Pesquisando sobre artistas que tiveram transtornos mentais, Ellen encontrou vários nomes de artistas plásticos, poetas, escritores. Lá embaixo do post tem uma lista dos principais nomes que já foram internados em clínicas, que tentaram suicídios e que se suicidaram mesmo. Assim, Ellen viu que não estava sozinha nesse mundo de “loucos”. Passou a estudar as biografias de Vincent Van Gogh, Eduard Munch e Georgia O’Keeffe. Ela tinha medo que os remédios, principalmente o Lítio, pudessem prejudicar seu trabalho criativo. Chegou à conclusão, depois de ler muitas biografias, de que tudo é relativo. Alguns artistas não conseguem criar durante seus “episódios” e alguns não conseguem criar enquanto medicados. Por outro lados, algum se sentem mais à vontade e produtivos quando estão no ápice dos seus transtornos e outros, se sentem plenos quando medicados. Ellen chega a descobrir que quando Michelangelo pintou a Capela Sistina, no Vaticano, ele estava no ápice da sua depressão, e que as pinturas ali retratadas refletem isso muito bem.

Na companhia dos gênios!
Na companhia dos gênios!

Ellen Forney traz uma narrativa envolvente e divertida que, apesar de tratar de um tema pesado com a depressão, consegue nos arrancar muitas gargalhadas. É um livro muito informativo para que pessoas que possuem transtornos mentais aprendam que não estão sós no mudo. Pelo contrário, elas estão na companhia de grandes gênios. “Transtornos mentais e genialidade parecem estar entrelaçados”, dizia para mim minha terapeuta, talvez tentando me consolar de que eu sofria com depressão. Se eu tivesse lido esta graphic novel de Ellen Forney no início da minha depressão, talvez eu tivesse visto minha situação de outra maneira. Ou seja, ela é indicada para quem está dentro e está fora do ciclo depressivo.

Os vais e vens da bipolaridade... :-) :-(
Os vais e vens da bipolaridade… 🙂 😦

Enquanto a gente está em depressão, costumamos colecionar badges, ou seja, distintivos dos nossos feitos e não feitos que nos categorizam como o cocô da mosca do cocô do cavalo do vilão. Neste livro, Ellen nos apresenta isso como “o fardo”, o fardo da existência do deprimido que se sente um desperdício de espaço. Para todo lugar que eu ia, eu carregava meu fardo e, assim, afastava as pessoas com minha negatividade. Não é uma coisa consciente, é um ciclo vicioso, que as pessoas “de fora” não conseguem entender. Pelo menos não os que nunca sofreram com algo parecido. Uma solução para isso é a TCC (terapia cognitivo-comportamental) que nos faz conhecer nossos pensamentos destrutivos e lutar contra eles. Por exemplo, Ellen se perguntava “Quando ser ‘feliz’ é ser feliz DEMAIS?”, enquanto estava em seus episódios de mania eufórica, e encarava as respostas que considerava mais racionais. É o velho embate expectativa x realidade. É o ver as coisas com outro significado do artista, mas voltado para a vida interna, não à externa. “Você precisa carregar consigo ou que é bom e o que é ruim”, dizia minha terapeuta.

Quem gostou dos livros de Alison BechdelFun Home e Você é Minha Mãe? – certamente vai gostar de Parafusos. A obra de Ellen Forney está na mesma leva que essas obras ou Retalhos, Umbigo sem Fundo e muitas mais. É uma daquelas graphic novels que vão ficar na nossa memória por um bom tempo depois de lermos e reverberará em outras obras.

Abaixo, uma das músicas que acho que é um tipo de “conversa de terapeuta para alguém deprimido”, Hey Jude, dos Beatles. Mais abaixo, uma lista sintetizada de artistas “loucos”:

Vincent Van Gogh

Eduard Munch

Georgia O’Keeffe

Virginia Woolf

Sylvia Plath

Paul Gauguin

Michelangelo

Mary Shelley

Tenessee Williams

Jackson Pollock

Mark Waid

Emily Dickinson

Leon Tolstoy

Joan Miró

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