Análises, literatura, Sobre Roteiros
Comentários 6

Harry Potter e a Magia dos Quadrinistas Ingleses

Quero propor uma reflexão aqui com vocês, caros leitores. Se possível, deixem seus comentários. Há quase vinte anos venho acompanhando quadrinhos com mais atenção e uma coisa que mais gosto é identificar os estilos dos autores, os temas que são caros para eles, a maneira como constroem seus universos e seus personagens, as referências que usam, quem eles inspiram e de onde se inspiraram.

2000 ad o começo de tudo

2000 ad o começo de tudo

Mas a reflexão que quero propor é perguntar e tentar responder é: quando o estilo se torna repetição? E a resposta que eu tenho para dar é: quando o escritor começa a plagiar a si mesmo. Dito isso, vou falar, é claro, dos supracitados escritores da invasão inglesa, pois eles são os mais fáceis de identificar estilo e influências. Como falei nesse link, as influências da maioria deles vem da revista 2000 a. D. e seus criadores, Alan Grant e John Wagner, mas também da literatura inglesa de fantasia, Charles Dickens, George Orwell, Lewis Carrol, P. L. Travers, J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis, Roald Dahl. Sem esquecer William Shakespeare.

Talvez a literatura que mais se apoie na magia – e digo magia, não mitologia – seja a literatura céltica/inglesa essa é a razão de muitos dos nossos queridos escritores da invasão inglesa se pareçam tanto e briguem tanto entre si.

E não se esqueça do SHAKESPEARE!

E não se esqueça do SHAKESPEARE!

Não podemos deixar de destacar como o estilo da criadora de Harry Potter, J. K. Rowling é muito semelhante ao de Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. Todos tiveram a mesma influência e cresceram lendo os mesmos livros, até porque tem mais ou menos a mesma faixa etária. Os memes que vivem sobre suas cabeças são parecidos. Todos são filhos do pós-guerra, ou seja, baby boomers preocupados com o que a magia da época – a bomba atômica e os perigos da radiação – fariam com suas vidas. A maioria deles vem de famílias com dificuldades financeiras e desde cedo se rebelaram contra autoridades. O papel da família também é essêncial em suas vidas, com um ou dois membros dela sendo peça chave de suas histórias. Todos são muito ligados ao modo de vida inglês e reproduzem o mesmo em seus livros.

A magia ter um papel principal em seus livros e/ou quadrinhos tem toda explicação nesse background de fuga da realidade e de contestação da autoridade enquanto se escoram num cantinho familiar para viver da maneira como escolheram: criando histórias, ou seja, indo além do que se esperava de sua geração. O trabalho de indústrias, de bater ponto e limpar privadas e cafeterias nunca foi bem assimilado na cabeça destas pessoas, elas estavam sempre disfarçando a realidade buscando refúgio nas suas criações mentais.

De meninos e de corujas...

De meninos e de corujas…

Explicado isso, vamos ver suas criações recentes. Alan Moore está isolado do mundo e bombardeando todo mundo com suas contestações de direitos autorais sobre suas histórias, enquanto continua a usar personagens dos outros para dar vasão às suas ideias. Sua última empreitada, o app de quadrinhos Eletricomics.com, pretende trazer uma história “reimaginando” Little Nemo in Slumberland, de Winsor McKay. Seu último quadrinho lançado, Nemo: The Roses of Berlin, é tão impermeável que parece refletir o sedentarismo de Moore no mundo. Moore inventou uma fórmula e se acomodou nela, sem trazer nada de novo nos quadrinhos desde que criou a linha ABC Comics.

Neil Gaiman resolveu se dedicar à literatura, mas suas últimas criações como O Oceano no Fim do Caminho, parecem ser um recorta e cola de suas outras criações, usando os mesmos elementos de outras obras. Nem mesmo um dos seus quadrinhos mais recentes, Os Eternos, um trabalho sobre encomenda da Marvel parece ter enxugado toda a viçosidade de Gaiman, voltando a trabalhar com os personagens que fazem parte de um reino escondido, mas que perderam a memória por uma razão ou outra praticada pelos seus inimigos.

Se a indústria está vivendo uma crise de criatividade e de repetição de fórmulas que vem sendo usada desde 20 e 30 anos atrás eu não saberia dizer, mas diante destes dois grandes bastiões dos quadrinhos parece que sim.

É ou não é egocêntrica uma convenção só para falar de VOCÊ?

É ou não é egocêntrica uma convenção só para falar de VOCÊ?

Embora eu não seja uma Morrison bitch tenho que me curvar e fazer a genuflexão ao careca de Glasgow. Ele é o cara que mais sabe trabalhar mercadologicamente a indústria de quadrinhos. Poxa, ele tem uma convenção de quadrinhos só sobre ele! Ele é o escritor mais comentado de 2014 com Multiversity. E se reinventou em Happy! Parecendo uma mistura de Garth Ennis com a J. K. Rowling.

Por isso, leitores de quadrinhos que torcem o nariz para Harry Potter, pensem duas vezes ao fazer isso pois estarão também torcendo sue órgão olfativo para a “invasão inglesa”. Lembrem-se que eles tem o mesmo background e ele só vem se repetindo em formas de palavras e imagens dentro de suas narrativas de maneiras diferentes. Magia é a fuga da realidade e, ao mesmo tempo, é a realização, um paradoxo que só podemos resolver dentro de nós.

Anúncios

6 comentários

  1. Duas coisas, os criadores da 2000 AD seriam Pat Mills e John Wagner. Alan Grant veio mais tarde e não tem a mesma influência.

    Multiversity, embora muito bem feito, não é particularmente criativo. É o Morrison fazendo o seu próprio “Watchmen” (com os mesmos personagens da Charlton que o Moore usou como base para os de Watchmen) e explorando as mesmas temáticas que ele usa no seu trabalho de super-heróis há anos. A EXECUÇÃO é bem diferente e sofisticada, mas o conceito é o mesmo de sempre.

    Curtir

  2. De novo, dizer que os últimos albun da Liga Extraordinária do Moore são impermeáveis, num post sobre as referências da literatura inglesa neles, não faz sentido. O Roses of Berlim é pura referência literária (além das de cinema expressionista alemão, que são relativamente populares).

    Curtir

    • guilhermesmee diz

      Os da Liga não, mas em especial os da Nemo. Exatamente por ser PURA referência que a história se perde para referenciar coisas. O leitor leigo não vai compreender. Ninguém é obrigado a ler trocentos livros e filmes para entender uma história.

      Curtir

  3. Engraçado esse post falando sobre a coisa da repetição dos autores; uma coisa que conversamos e repito: eu detesto repetição, mas alguns escritores como Neil Gaiman conseguem se repetir de uma forma que me agrada. Isso é pra poucos….

    Curtir

  4. Kaique Sales diz

    Sou um Morrison bitch!
    Mas pow, o careca está usando as mesma fórmulas desde homem animal 🙂 Por sorte gosto muito do que ele escreve.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s