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Quadrinho nacional: um mercado de nicho ou um mercado popular?

Estava discutindo isso com um amigo no facebook. Os quadrinhos brasileiros devem seguir seu próprio caminho ou devem seguir as fórmulas de outros mercados como o americano e japonês para se tornarem populares? Vemos que desde 2010 os quadrinhos brasileiros têm amadurecido. Têm se tornado diversos e oferecem várias alternativas para quem quer conhecê-lo. Até existem super-heróis brasileiros, embora ninguém seja capaz de citar um de destaque.

Tudo que meu mestre mandar..

Tudo que meu mestre mandar..

Nossa discussão começou com isso: super-heróis brasileiros. Não acho que esse estilo de história se popularize ou se dê bem no Brasil, pelo motivo de que super-heróis são um produto da cultura americana. Ninguém vê super-heróis franceses, polinésios ou argentinos. Ano passado um coletivo de quadrinistas brasileiros colocou no ar uma campanha no catarse para empenhar um álbum de crossover de super-heróis brasileiros chamado: A Ordem.

Super-heróis se originam de tempos de dificuldades, como a grande depressão no anos 30 nos Estados Unidos ou a Segunda Guerra Mundial. Como falei nesse link sobre a intrínseca relação entre super-heróis e guerras. Ao mesmo tempo, no Brasil não existem guerras que justifiquem a existência de super-heróis. Não há um inimigo comum contra o qual os brasileiros lutam, como nazistas ou comunistas russos.

Pelos poderes de Saramandaia! Eu tenho o voo!

Pelos poderes de Saramandaia! Eu tenho o voo!

Por isso, imagino que a melhor forma de se trabalhar poderes na realidade brasileira é como já fizeram os renomados Gabriel García Márquez e João Guimarães Rosa, com seu realismo fantástico sul-americano, que deu frutos na cultura popular brasileira com as novelas de Dias Gomes, como Saramandaia e Roque Santeiro. Mas uma vez peço para que deem uma olhada no link sobre as relações quadrinhos e novelas. E nada de homens e mulheres com uniformes colantes com nomes como os gêmeos Ordem e Progresso, ou cada super-herói representando um estado e com o Paraná que atira pinhões nos inimigos e o do Rio Grande do Sul, que tem espetos de coraçãozinho de galinha que saem pelos braços. Não, né?

Sabor Brasilis, de Pablo Casado e Hector Lima e Felipe Cunha e George Schall

Sabor Brasilis, de Pablo Casado e Hector Lima e Felipe Cunha e George Schall

Eu acho que o quadrinho nacional já achou sua cara a partir de 2010. Uma cara que foge dos super-heróis, que é exatamente essa: fugir do pop e ir pro cotidiano, para os animais, para os independentes. Cada país tem o seu tipo de produção cultural e é preciso entender o público e criar uma HQ para ele. Por exemplo, a Sabor Brasilis: uma HQ pop brasileira, mas ao mesmo tempo indie e fala sobre novelas, que é uma coisa cara os brasileiros.

Existe um ranço pseudo intelectual nas HQs brasileiras, no mercado inclusive, de que o que só deve ser valorizado são graphic novels, nada relacionado a super-heróis porque tudo que se produz nesse sentido é lixo. O mesmo para a Turma da Mônica e Disney. Mas, diferente do meu amigo, não acho que o rancinho psedo-intelectual que irrita uma pá de gente seja a cara das HQs brasileiras, não. É a cara de quem é importante – ou se acha importante – no mercado nacional. É a cara da academia brasileira que não valoriza a diversidade apenas as suas linhas de pesquisa.

As Graphics MSP, capitaneadas por Sidney Gusman.

As Graphics MSP, capitaneadas por Sidney Gusman.

Existem diversas HQs que são bastante acessíveis pra todo mundo, a começar com as Graphic MSP. É um exagero ou puro desconhecimento falar que a HQ brasileira é pseudo intelectual. Eu vejo pouquíssimas que se encaixam nesse perfil. Mas claro que sempre existem as HQs herméticas, que ninguém entende nada. A maioria são entretenimento por entretenimento. Falo isso tendo em vista as várias HQs “mudas” que temos feitas no Brasil, cuja intenção não é serem herméticas, mas atingir a todos os públicos.

Mesmo nos filmes e música nem tudo é pop, existem as músicas e filmes mais eruditas e ter isso no quadrinho brasileiro é sinal de mais puro amadurecimento. A formação do mercado de quadrinhos brasileiro está nos super-heróis e na Turma da Mônica e na Disney, a partir dos aonos 80, mas claro, os exegeses da pureza acham que isso não vale nada. Cospem no prato que comeram.

Os problemas da comunicação..

Os problemas da comunicação..

Isso é um problema de mensagem: toda comunicação passa uma mensagem e o meio escolhido para mandar ela para o receptor. Escolher os quadrinhos, uma mídia marginal, popular e pop também já é escolher um viés pop. Só que como é uma mídia marginal ela também precisa comunicar aos nichos e, por isso, tantas HQs fazem tantas referências de tantas outras HQs. Mas sim, existem oportunidades para coisas diferentíssimas no mercado nacional, hoje em dia mais que nunca.

Passar uma mensagem com quadrinhos não é algo erudito, nem ultradesenvolvido. A diferença é como se faz isso nos quadrinhos e buscar entender como ser erudito nos quadrinhos sem estragar a passagem da mensagem, sem fazer menos do leitor ou fazer com que seu público se sinta um jegue na frente da sua obra. Se alguém acha erudito um gibi que passa uma mensagem, seja ela qual for, então o funk carioca e o filme global Se eu fosse você… caem na vala do erudito. Eles passam mensagens de superação (beijinho no ombro, eu sou mais eu, no caso da Valesca) ou de aceitação das diferenças (Se eu fosse você…), então a questão não é mensagem, mas a maneira como se passa e o meio que se utiliza. Tem que, sim, conhecer o meio e o formato do veículo que vai se utilizar e para quem vai comunicar. Uma questão básica de adequação.

A Popozuda passa uma mensagem, sim!

A Popozuda passa uma mensagem, sim!

Não existe como começar algo e classificar essa coisa insipiente como pop. Como é que vai se começar com pop se para ser pop precisa fazer sucesso? Funk era um nicho no início. O mundo já perdeu essa cara de cultura de massa, entrem no padrão da cultura de massa, consumam o que a TV e a mídia manda ou ninguém vai da bola pra você. Isso já acabou. O bom hoje é ser diferente, não igual. Agora cada um faz o que realmente lhe agrada. Tem que começar pelos nichos para depois se tornar pop. Ninguém sai por aí estourando nas paradas. Mas mais do que nunca é preciso entende seu público.

O que existem são fórmulas garantidas, mas porque seguir pelas fórmulas se trilhar um caminho só seu é muito mais recompensador do que ficar copiando os outros? Não é só recompensador para quem faz mas para quem frui, porque assim, o público está exposto a coisas que vão além da mesmice. Hoje, produtos culturais que se dão bem, são aqueles que conseguem furar a definição de nicho e se tornam algo muito mais que pop, se tornam um fenômeno. Vejam por exemplo Harry Potter, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e os próprios heróis Marvel e DC Comics.

As séries mais bem-sucedidas hoje em dia são aquelas que conseguem romper rótulos, mas isso não quer dizer que elas sejam pensadas como algo para ser pop e estourar nas paradas. O pensamento sempre vai de conquistar um mercado-teste e ir do menos para o mais do que do mais para o menos. Isso é o pensamento minimalista, onde menos é mais e se aprende logo em Arte Um, quanto maior for a poluição visual, de personagens e narrativas épicas, menor vai ser o interesse do público. Isso não funciona assim. O pop, infelizmente, ou para o bem de todos os nerds injustiçados do mundo, não move mais o mundo.

Obrigado Marcio Andre da Silva Oliveira por discutir comigo esse assunto. 😉

2 comentários

  1. espero que não fique brabo comigo mas eu discordo,os quadrinhos nacionais de super herois tiveram extrema popularidade dos anos 50 até final dos anos 70,sendo que o raio negro foi uma hq que saiu em varias editoras nacionais e sai até hoje,o mercado de quadrinhos nacionais de super herois voltou no final dos anos 80 e inicio dos anos 90,vale lembrar iniciativas como o pequeno ninja e capitão ninja,assim como diversos outros herois da epoca,o mercado assim como o mercado internacional de quadrinhos começou a cair com o advindo da internet e diversas outras coisas que todo mundo sabe,assim como o mercado internacional de quadrinhos de super herois está em crise,está o interno,soma-se o fato de grandes editoras de quadrinhos não existirem e editoras não se arriscarem com esse material a coisa fica mais feia ainda,ainda tem o problema da recente politica cultural nossa de desapreciar a inciativa comercial cultural para crianças e adolescentes,sendo vista como um flagelo social (como os quadrinhos foram perseguidos durante o codigo de conduta dos quadrinhos nos anos 50 e 60)

    Todos esses fatores somados ao preconceito cultural enraizado que vê os quadrinhos como uma forma menor de arte (algo que está diminuindo no exterior mas aumentando des do inicio dos anos 2000 para cá ironicamente indo contra a mare mundial) dificulta as coisas e outra o brasil do final dos anos 90 para cá tem deixado de investir em material cultural quanto mais em quadrinhos,falta pouco para sepultar essa industria cujos unicos exemplos de sucesso ziraldo e mauricio foram atacados por agendas politicas recentemente

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    • guilhermesmee diz

      É verdade Olavo, a formação do mercado de quadrinhos vem de antes dos anos 80, mas se cristalizou como o vemos hoje a a partir dessa época. Não por acaso, ´é essa a época de maior valorização da cultura de massa.

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