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Personagens Normais não têm História

Vamos falar de personagens. Por que não temos histórias sobre super-heróis passando roupa ou indo trabalhar? Porque ninguém gostaria de ler isso. Histórias normais são chatas. Ninguém compra um gibi pra ler uma história “normal”. Passar roupa é chato. Trabalhar é chato, é tudo repetitivo.  Esses momentos são cortados dos livros, dos gibis e dos filmes. Ninguém vai escrever uma música sobre passar roupa. A gente pode ter esses momento na nossa vida, mas quando alguém perguntar pra você como foi seu dia e você disser “passei roupa”, ninguém vai perguntar “E aí, a camiseta azul estava muito amassada?” ou “Calças jeans você não precisa passar?”, mas vão mudar de assunto.

Xixizão América

Xixizão América

Ninguém vai escrever um quadrinho pra falar de uma rotina “normal”, para atrair o público. Tem de haver alguma coisa diferente, que chame a atenção, que passe daquela coisa banal pro negócio estupendo. Por que eu estou falando isso? Simplesmente porque as pessoas costumam julgar quem não tem uma vida “normal”, ou dentro dos padrões estipulados pela sociedade. Trabalho, por exemplo, tem de ser das 9 às 5, “oh what a way to make a living, is just taking and no giving”, como diria Dolly Parton. Amores tem de ser monogâmicos e heteronormativos. Pessoas tem de ser brancas, católicas, ocidentais. Isso é ser “normal”. E isso é chato.

Quem disse que o Batman não curte comer uma rosquinha?

Quem disse que o Batman não curte comer uma rosquinha?

Personagens não são interessantes se forem “normais”. É a estranheza que mexe com as pessoas numa história, por isso elas as leem. Você pode dizer que os coadjuvantes são pessoas normais e mesmo assim eles fazem sucesso. Não, não são normais. Eles são amigos de super-heróis e isso já basta para deixá-los em perigo. Martha e Jonathan Kent eram um casal que não conseguia ter filhos. Isso já é bem fora do comum. Imagina! Um casal! Que não tem filhos! Que horror! Não pode!

Casal sem filhos? Num podhy!

Casal sem filhos? Num podhy!

Batman é um homem solteiro que vive com o mordomo e adota um filho cujos pais morreram num acidente do circo. Hum, cuidado, mas às bocas pequenas o milionário adotou o garotinho para se aproveitar dele, é sim! Tudo não fica mais interessante com intriga? Se não fazem intriga da sua vida, me desculpe, ela não é interessante e você não suscita nenhuma imaginação nas pessoas. Pegue seu certificado de “normal” ali no guichê e a certeza de que você está inapto para ganhar um gibi com seu nome de título.

Os “normais” são os famosos “lurkers”, pessoas de fórums ou da internet que não tem nada a acrescentar, são apenas um número, são anônimas, são piores que trolls, ainda que os trolls não devam ser alimentados.

Snapper Carr, o "normal de estimação" da Liga da Justiça.

Snapper Carr, o “normal de estimação” da Liga da Justiça.

Por outro lado os personagens mais queridos são aqueles disfarçados de normais, mas que possuem uma natureza reveladora. Pegue Snapper Carr, por exemplo. Ele representava o leitor comum dentro da Liga da Justiça e, mesmo assim, estalando seus dedos ele embarcava na aventura e introduzia o leitor e as pessoas comuns às maravilhas fantasiadas da Liga da Justiça. Até que (!) se tornou um vilão!

Pegue o gato da Poderosa. Todos pensavam que era um gato comum, mas não, ele era um espião (mesmo que contra sua vontade de gato). Pegue Jimmy Olsen, quantos superpoderes ele teve e continuou sendo um jovem comum? Alfred? Etta Candy em suas diversas encarnações? Ma Hunkel, uma boa velhinha que era um super-herói travesti nos seus áureos tempos? É, acho que ninguém é normal nos gibis. Nem na vida real. Se você se acha muito normal, existe uma doença chamada “normose”, é sério. É a doença que faz as pessoas ficarem deprimidas por não conseguirem ser comuns o suficiente para que tenham permissão de viver como querem e bem entendem. Problemas da sociedade pós-moderna. Por isso, deixe de lado essa ladainha de que o melhor é ser normal e vá procurar sua esquisitice, senão você não ganha um gibi só seu.

São tudo coisas SUPERNormais...

São tudo coisas SUPERNormais…

5 comentários

  1. Isaura Luiza Paramysio diz

    Engraçado que lá pelos anos 80, acho, teve aquela coisa de humanizar os heróis, dando.problemas reais para eles e draminha, e embora bem-vindo o faz sentir falta é coisas “normais” como o simples ato de comer um hamburguer ou, nem que seja meia página, de conversa fiada normal.
    Fora a falta de coadjuvantes normais.

    Contudo o que mais me irrita mesmo é que não “humaniza” os vilões, como humanos mesmo, vilões são vilanescos demais, e irreais, lembro de um amigo falando durante um filme numa cena que aparece um vilão: “você imagina este cara comendo”, “heim”, “comendo ou cagando, estes vilões é tudo meu plano hahhha”.
    não teve como eu não concordar com ele.
    Meu teste para vilão (e qualquer personagem) é imagina-lo acordando, e todo café da manhã solitário. Posso dizer que o Coringa não passou no teste.

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