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Humor, Filosofia e Joaninhas nas Tirinhas de Pedro Hutsch Balboni

Quem não gosta de uma joaninha? São bonitinhas e ao mesmo tempo devastadoras, e assim também são as tirinhas do  Pedro Hutsch Balboni, que desde 2008 publica as tirinhas Joãos & Joanas na internet. Assim como As Cobras de Luis Fernando Verissimo, Joãos & Joanas, traz duas joaninhas conversando sobre a vida, o universo e tudo mais. Pedro já lançou três livros nesse universo: Joãos & Joanas (uma compilação das tiras da internet), Fulanos & Fulanas (grandes artistas reinterpretando as tirinhas) e Tudo Já Foi Dito (uma história só, longa e filosófica, feita por vários colaboradores).

Agora, Pedro está numa campanha no Catarse (sim, ou outros livros também foram lançados por lá!) para lançar o quarto livro do universo: Ciclanos e Ciclanas. Falamos com o Pedro para nos contar mais sobre seus projetos, livros e também para convidá-los a colaborar no próximo livro!

Splash Pages: Oi Pedro, primeiro eu queria saber, como surgiu a ideia do João e Joanas. Por que quadrinhos e por que com joaninhas?

Pedro Hutsch Balboni: Fala Guilherme! Quadrinhos é a linguagem com que mais me identifico, desde criança. Andaram um pouco afastados da minha vida no fim da adolescência, naquele período pré-vestibular, mas voltaram com tudo na faculdade quando decidi começar a criar minhas tiras. Bom, as joaninhas eu nunca sei dizer exatamente de onde brotaram, mas tenho uma explicação posterior que satisfaz: elas são como o humor, sabe? Bonitinhas e fofinhas, mas são predadores implacáveis – assim como o humor é divertido e agradável, mas fala sobre coisas sérias e difíceis. Cavalo de Troia.

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SP:Seu projetos se deram muito bem no Catarse. O que você acha dessa plataforma de financiamento e quais as dicas você dá para os quadrinistas que querem se aventurar pelo crowdfunding?

Pedro:Muito bem é relativo, ainda tem muito tempo de campanha e muitas metas a atingir, rs! Eu acho demais. O conceito de financiamento colaborativo é incrível, e com a internet ele tem a possibilidade de se tornar algo mais legal ainda. A plataforma do Catarse é redondinha, e o pessoal que trabalha lá é gente fina. Tudo muito legal.

A dica principal que posso dar para quem quer iniciar uma campanha lá é: planeje. Muito. Para isso, é fundamental se munir de informações. Leia todas as dicas que já estão no site, é crucial, e eles antecipam várias questões que você provavelmente não teria considerado. Depois disso, veja os projetos já aprovados que têm a ver com o seu, e veja o que eles fizeram. Tenta ver o que de positivo dá pra aplicar no seu projeto, e vai montando o seu Frankenstein. Ter familiaridade com a ferramenta e saber pensar como um apoiador também ajuda; isso é, apoie projetos, veja como é quando as recompensas chegam na sua casa, sinta o processo. Sem contar que pra mim sempre pega mal quando a pessoa que cria o projeto ainda não apoiou nenhum…

SP: Suas tiras começaram na web, em 2008. O que a internet tem a oferecer que o papel não tem e o que o papel tem a oferecer que a internet não providencia”?

Pedro: Hum… a internet tem essa coisa da resposta instantânea, dos comentários, do ‘curtir’ e do ‘compartilhar’. É produzir e publicar, sem filtros, isso foi o que me motivou a começar. Não tem intermediários entre quem lê e quem escreve, esse encurtamento de distâncias é bacana. O papel pra mim ainda é o melhor suporte para a leitura. Tem uma coisa legal em torno dele, essa sensação de ‘materialidade’ é um certo conforto no meio da nossa era digital. Eu fiquei 4 anos produzindo tiras e só depois lancei meu primeiro livro; foi um divisor de águas. Eu tive que me envolver muito mais com meu trabalho e fazer várias coisas novas. Sem contar que, depois do livro, a procura por tiras para material didático aumentou, vieram mais depoimentos de leitores que curtiram, e a sensação de não saber por onde os livros vendidos estão circulando traz uma incerteza reconfortante.

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SP: Tanto Fulanos & Fulanas quanto Ciclanos & Ciclanas, contam com a parceria e colaboração de vários talentos dos quadrinhos brasileiros. Como você vê essa sinergia entre os quadrinistas brasileiros?

Pedro: Eu acho incrível. Não sei se é por grande parte do trabalho de um quadrinhista ser algo mais solitário, mas esses meus projetos costumam ser muito bem recebidos. Comecei essa história de convidar pessoas para desenhar joaninhas em 2009, no Primeiro Concurso das Joaninhas (agora está rolando o Sétimo!), e os artistas curtem bastante participar. Para mim, é incrível ver os insetos com quem convivo sendo repaginados de maneiras tão únicas. O pessoal de quadrinhos em geral é muito unido; e é uma turma muito legal. Costumo dizer que lidar com o pessoal do nosso meio é um privilégio – uma das vantagens de ser quadrinhista – as pessoas são muito bacanas.

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SP: Agora, mata uma curiosidade: por que Ciclanos & Ciclanas e não Sicranos & Sicranas?

Pedro: A principal razão é que eu sempre escutei assim (risos). Mas aí fui dar uma lida por aí; o pessoal usa Ciclanos normalmente quando a ordem é Fulano, Ciclano, Beltrano; e Sicrano na ordem Fulano, Beltrano, Sicrano. Pela sonoridade na proximidade entre palavras. O Ciclanos tem essa coisa de ciclos que pretendo citar na edição (por ser o segundo da edição); e a ordem Fulanos, Ciclanos e Beltranos é alfabética – de trás pra frente, isso também me agrada

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SP: Noto que há muita amizade entre quem produz quadrinhos, as pessoas fazem boca-a-boca de obras, chamam para colaborações, se apoiam mesmo. Se trata de um joaneiro, como coração de mãe, que sempre cabe mais um?

Pedro: Eu vejo assim. É como uma família, sempre crescendo. E o sucesso de um traz novas oportunidades para os outros. Talvez por o mercado ainda ser tão miúdo existam tantas oportunidades… os projetos colaborativos têm crescido, e isso faz sentido em tempos de internet. E quando as pessoas corajosas o suficiente para chafurdar no mundo dos quadrinhos se reúnem, é natural brotarem amizades.

SP: Como você enxerga o público dos quadrinhos brasileiros? É um público restrito?

Pedro: Não enxergo muito… rs, brincadeira. É um público em crescimento. Existem muitos leitores veteranos, e muitos jovens chegando. Não dá pra negar que é um momento bacana. Mas sempre tenho medo que esse seja o auge. Que não melhore mais do que agora. Pois a coisa está ficando bacana, mas continua muito difícil viver de quadrinhos no Brasil. A CCXP mostrou pra gente que tem muito leitor querendo quadrinhos, e pro público que tem muito quadrinho legal por aí. Mas ainda não é uma constante. Foi um evento fantástico, o que precisamos é que isso se estabeleça como um cenário consistente. Nosso trabalho, como autores, é criar material bom para fidelizar o público.

SP: Tenho duas referências que me vêm à cabeça: As Cobras, de Luis Fernando Verissimo e as tiras sem imagens do Marcelo Saravá. Você pensou em alguma delas quando criou/está criando suas tiras das joaninhas? O que acha delas?

Pedro: Não, eu não conhecia nenhuma delas – as Cobras do Veríssimo eu conhecia sem conhecer, já tinha visto tiras em livros da escola, mas nunca tinha ido atrás delas. Quando comecei a publicar e falaram que minhas tiras lembravam As Cobras, fui procurar, comprei um livro; e fiquei muito feliz com a comparação. Muito mesmo. O trabalho do Saravá também me foi indicado assim, e também li e adorei. Inclusive, ele é um dos poucos quadrinhistas que conheço que usa o mesmo programa que eu para criar as tiras, o Comic Life.

SplashPages

SP: Quais as vantagens e desafios de se trabalhar com imagens, de certa forma imutáveis, numa tira de quadrinhos?

Pedro: Primeiro, os desafios: tem muitas ideias que descarto por precisarem de movimento, de um apoio mais claro da arte. Assim, existe uma certa limitação para a minha criação. Mas essa limitação também traz novos horizontes; depois que você ‘treina’ isso um pouco, as ideias começam a vir pré-filtradas, e dá pra usar um pouco de metalinguagem e brincar com a forma. Em muitas tiras consigo dar uma ilusão de movimento que só funciona por ter personagens estáticos. Sem contar que isso facilita muito o trabalho de fazer uma tirinha, no sentido de produzir – costumo dizer que minha produção é Fordista, em série. Eu gasto tempo mesmo é pensando, não executando, e isso ajuda a melhorar a qualidade do que faço. Acho, rs.

SP: Conta um pouco pra nós as novidades que o Ciclanos e Ciclanas está trazendo. Por exemplo, se uma joaninha da sua tira pousasse na sua roupa, isso iria ser sinal do quê?

Pedro: O projeto novo está trazendo…. artistas novos, rs! Se cada livro puder ser considerado um filho do autor, um livro novo muda tudo. O Winnicott diz que a cada bebê que nasce a história do mundo recomeça, pois ele traz consigo inúmeras possibilidades. Talvez seja tipo isso. Talvez não. Eu sei que, se uma joaninha pousasse na minha roupa, provavelmente seria para reivindicar seus direitos. Ou para trazer sorte.

SP: Obrigado pela entrevista, Pedro. Seja sempre bem-vindo aqui no Splash Pages!

Pedro: Eu que agradeço!! Obrigado pela atenção e pelo espaço. Espero não ter sido espaçoso 😛

SP: Como dizemos aqui no Rio Grande: Capaz! Foi um prazer!

Acesse esse link para colaborar com o Pedro, os Joãos e as Joanas!

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