Antes do Authority: StormWatch – Volume Um, de Warren Ellis e Tom Raney

Jack Hanksmoor do pé cascudo. O Jack não lava o pé, não lava porque não qué...

Dizem que Authority é um divisor de águas de como os super-heróis são encarados hoje em dia. Foi nessa série que germinou outro sucesso: Os Supremos, de Mark Millar e Brian Hitch, dois artífices que trabalharam em Authority, o grupo da Marvel Ultimate que não era mais do que uma versão acertada dos Ultramariners, que apareceram primeiramente em Authority – uma versão tresloucada dos Vingadores. (Eita que Supremos é uma versão da versão da versão). Mas, muito antes de Authority, seus membros e escritores e desenhistas vieram de StormWatch.

Várias encarnações da StormWatch, os stalkers da Ororo Monroe!
Várias encarnações da StormWatch, os stalkers da Ororo Monroe!

StormWatch era a equipe de Vingadores do Universo WildStorm, o estúdio de Jim Lee na Image Comics. Eles respondiam às Nações Unidas e possuíam seres super-humanos de todos os países do mundo, todos eles com poderes ativados após um cometa passar pela Terra. Jim Lee foi esperto, por volta de 1996 ele começou a ver que se a Image, fundada em 1992 se baseasse apenas nos desenhos e não investisse em histórias consistentes iria perder o afã dos leitores muito em breve, se é que já não estava perdendo. Para tanto, ele chamou escritores de peso para suas revistas: Alan Moore em WildC.A.T.S. e, para a equipe derivada de Gen13, os DV8 (que eu já falei aqui) e para o StormWatch, ele chamou a estrela ascendente inglesa Warren Ellis.

StormWatch Volume Um, de Warren Ellis e Tom Raney. (2015, Panini Comics, 164 Páginas,  R$22,90, Tradução de Paulo H. Cecconi)
StormWatch Volume Um, de Warren Ellis e Tom Raney. (2015, Panini Comics, 164 Páginas, R$22,90, Tradução de Paulo H. Cecconi)

Ellis havia começado devagar na Marvel UK escrevendo séries como Os Cavaleiros de Pendragon, e as minisséries Druid e Elza Bloodstone – Monster Hunter. Logo, com seu talento, conquistou a revista do Excalibur e mais para frente a do Thor. Então, escrevendo prolificamente muitas revistas ao mesmo tempo, o escritor inglês chegou à WildStorm para DV8 e StormWatch.

No encadernado em questão, que marca sua estreia, ele já reestrutura a equipe, que perde sua ligação com a ONU, e é dividida em três grupos: Stormwatch Prime, Red e Black. Ele também trabalha com personagens que serão muito importantes para o The Authority, como Swift, uma tibetana que possui poderes de voo e rastreio. Mas ele também cria dois personagens que farão a base de Authority, como Jenny Sparks, “o Espirito do Século Vinte” e Jack Hanksmoor, o deus das cidades. Vale destacar que estes personagens criados por ele não usam uniformes e sim, ternos, da mesma forma que ele fez com Pete Wisdom, o agente secreto do Excalibur.

Jack Hanksmoor do pé cascudo. O Jack não lava o pé, não lava porque não qué...
Jack Hanksmoor do pé cascudo. O Jack não lava o pé, não lava porque não qué…

Nas histórias de Ellis encontramos citações a Friedrich Nietzche e Yukio Mishima, além de um pessimismo e arrogância que eleva a TODOS os personagens a terem de beber para aguentar a vida. Os heróis recebem fazes para serem comunicados de suas missões – alta tecnologia dos anos 90, sim! Mas o que marca mais na revista é o descaso da equipe e por parte do autor para com os Estados Unidos e a soberania das nações. Além de nos trazer pontos de vista de diversos povos, ele também adiciona conhecimento literário, científico e, como sempre, nos faz ler quadrinhos como se lêssemos ficção especulativa tecnológica e mística.

Jenny Sparks Will Fly!
Jenny Sparks Will Fly!

No final o que fica deste volume é o diálogo entre Fahrenheit (americana) e Flint (queniana) sobre países bons e não bons:

FAHRENHEIT: “Eu nãos ei se posso fazer isso. Não foi por isso que me alistei no StormWatch”.

FLINT: “E por que se alistou?”

FAHRENHEIT: “É meio bobo. É que… Eu tenho esses poderes, certo? E vivo num país seguro. Num país BOM. E não aprece certo só sentar e curtir e não fazer nada quando existem tantos países que NÃO SÃO BONS”.

FLINT: “Ouça, eu sou do Quênia. Sistema de partido único. Minha mãe perdeu um olho durante o golpe de 82… Ela era uma estudante. Meu avô perdeu as duas pernas na revolta dos Mau-Mau contra a Inglaterra, em 52. Não é um dos seus BONS PAÍSES sob vários aspectos. Há muito sangue no Quênia”.

“Sabe o que se aprende em países não muito bons? Que as regras não funcionam. Não para você. Eu me uni ao StormWatch porque queria ajudar a mostrar para as pessoas que existe um leque maior de regras, que todos podem usar. Regras para os direitos humanos. Regras para voar de lugar para lugar sem ser bombardeado. É uma boa solução não é? E se você não é parte da solução, você é parte do problema”.

É de se pensar, não é mesmo?! Como dizia Kennedy, um americano, “Não pergunte o que seu país pode fazer para você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. Pensar não dói. Doí menos que sair na rua pedindo Impeachman.

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8 Comments

  1. Stormwatch é muito bom mesmo! Mas isso de fazer a equipe se desassociar da ONU é fato? Estava lendo o volume 3 esses dias e eles sempre se apresentam como “Supergrupo especial para intervenção de crises das Nações Unidas”.
    Mas enfim, ótimo texto!

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