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Só uma mulher conhece outra mulher. Ou não?

A pergunta dessa vez é: “mulheres deveriam escrever as histórias da Mulher-Maravilha?”. Entendemos que, em suas origens, as histórias da princesa amazona foram boladas para atingir o público masculino e não o feminino. Também aprendemos que 95% do público das histórias da Mulher-Maravilha era feito de homens e meninos durante se época do seu auge de vendas, os anos 1940.

Pela lei de Afrodite os homens foram banidos dos gibis das personagens femininas! Xô, falos!

Pela lei de Afrodite os homens foram banidos dos gibis das personagens femininas! Xô, falos!

Se pararmos para analisar, a série da Diana Prince espiã, que nas horas vagas tocava uma boutique, aprendia técnicas e filosofia orientais e vestia uma fashion jaqueta-vestido branca, iria se dar muito bem nos dias de hoje. Tendo em vista a repercussão que as mudanças no título da Batgirl causaram, em que a menina-morcego estará mais antenada com a moda, a música e os bairros alternativos de Gotham, indicam que sim, essa fase do título da Mulher-Maravilha foi revolucionária à sua época. Ela estava muito à frente de seu tempo, atualizando tendências que estão em voga hoje. Assim como, se formos analisar, também estava outra série que Denny O’Neil escrevia e que também não foi um fenômeno de vendas. Estou falando de Arqueiro Verde/Lanterna Verde.

A Mulher-Maravilha de Heinberg retomava a Diana Prince agente secreta, mas sem a butique... :-(

A Mulher-Maravilha de Heinberg retomava a Diana Prince agente secreta, mas sem a butique… 😦

No período DC pós-Crise Infinita e pós-sabemos-que-a-Mulher-Maravilha- é-uma-assassina-cruel-e-raivosa, muitos autores tentaram assumir o título da princesa amazona, que, devemos admitir, é uma publicação de grande volatilidade de escribas e desenhistas. O primeiro foi Allan Heinberg, famoso autor de séries de TV como Grey’s Anatomy e a atual-série-gay-da-HBO-mas-que-foi-cancelada-para-desespero-das-bibas, Looking. A série de Heinberg tinha uma premissa interessante, belos desenhos de Terry e Rachel Dodson, mas esbarrava nos problemas de muitos compromissos do escritor, que acabou entregando uma série pingada e, quando a conclusão foi publicada, os leitores já haviam perdido o interesse na história.

Em seguida, a DC achou que seria interessante trazer uma mulher para o título e, num arco ligado com a terrível minissérie O Ataque das Amazonas, quem assumiu o título foi a romancista Jodi Piccoult, autora de livros como O Pacto.  Demonstrando total desconhecimento do Universo DC, total desconhecimento de técnicas de roteiro e de narrativa, a romancista levou o arco aos trancos e barrancos, num fracasso imenso.  Piccoult foi seguida por J. Torres que fez três edições fill-in até que Gail Simone assumisse o título.

Jodi Picoult, amassoult, recortoult, só não agradoult...

Jodi Picoult, amassoult, recortoult, só não agradoult…

Com Gail Simone nas rédeas da revista, personagens coadjuvantes começaram a ficar mais interessantes, o humor começou a fazer parte das histórias – a marca-registrada de Gail – , a escritora começou também a cavoucar no passado de Hipólita e Diana. Mas Simone também errou na mão ao exterminar quase todo o panteão do Olimpo e desenvolver um novo campeão dos deuses gregos, na saga A Ascensão dos Olimpianos. A Mulher-Maravilha como personagem, como mulher, não foi muito explorada. E então a fase de Simone se encerrou e veio J. M. Straczynski que bagunçou o coreto de vez.

Essa é a Simone que todos querem ouvir no Natal!

Essa é a Simone que todos querem ouvir no Natal!

Assim, não necessariamente uma mulher vai fazer o melhor trabalho de escrita para um personagem feminino. Sabemos que muitos escritores homens são memoráveis em criar e desenvolver personagens femininos, como é caso de Chris Claremont, Neil Gaiman, Terry Moore e os irmãos Hernandez. Por outro lado, ao ler as histórias de Kelly Sue DeConnick em Capitã Marvel, eu tive uma epifania de aspectos femininos que nunca tinha me dado conta, como por exemplo a sensação incômoda de um lápis de olho nas suas pálpebras. Homens, que estão lendo esse texto, fiquem sabendo: as mulheres choram quando se maquiam por causa da sensibilidade do olho. Um detalhe que só uma mulher saberia conferir a uma história de personagem feminina.

Sofredora Safo! Diana se rendeu ao patriarcado!

Sofredora Safo! Diana se rendeu ao patriarcado!

Sempre quando um escritor é perguntado: “Você é homem, como consegue escrever personagens femininas tão reais”, o escritor que escreve tão bem mulheres responde: “É simples, eu não as trato como mulheres, eu as trato como SERES HUMANOS”. Seres humanos, como eu e você, que tem a mesma maneira de pensar. Que comem, bebem, transam e fazem suas necessidades como qualquer outro. Em uma coluna no site Comics Alliance, que saiu este mês, a colunista evoca a necessidade de a Mulher-Maravilha ser escrita por uma mulher, pois somente uma mulher entenderá como uma mulher pensa.

Eu acho isso uma falácia das grandes. Ora, para escrever um personagem negro é preciso ser negro? Ou o mesmo para um personagem gay? Claro que não. Basta se colocar nos sapatos desse personagem. Isso se chama narração em ponto de vista, uma maneira de contar história muitíssimo popular nos quadrinhos. Fazer isso que a cara colunista do Comics Alliance fez, é praticar o pior tipo de preconceito possível: o que vem de dentro do gueto e se recusa a abraçar o mundo. Aquele preconceito de que já experimentou todas as coisas que valiam a pena e as que sobraram não servem para nada. É como se ela dissesse: “Nós, mulheres, somos boas demais para não sermos escritas por mulheres. Só quem nos entende somos nós mesmas”. E na minha humilde opinião, não é bem assim. Mas ela diz: “Abracem coisas que assustam vocês – como a moda – e descubra um novo mundo de narrativa, e uma nova audiência”. Realmente a mocinha não estudou história dos quadrinhos, pois sabemos que a Mulher-Maravilha foi criada para agradar AOS HOMENS.

A guerreira escocesa Gail Simone e a Mulher-Maravilha no traço de Aaron Lopresti, que a acompanhou na maior parte da sua run.

A guerreira escocesa Gail Simone e a Mulher-Maravilha no traço de Aaron Lopresti, que a acompanhou na maior parte da sua run.

Uma HQ deve primeiramente agradar seu público base para depois se expandir para novas fronteiras. Como foi o caso de Sandman, uma HQ que se dá bem tanto com homens ou mulheres, e sim, tem uma grande base de leitoras. E tcharam, surpresa, ela é escrita por um homem. Não, eu não quero uma Jodi Piccoult ou uma Marjorie Liu para escrever as histórias da Mulher-Maravilha. Também não quero ela escrita por uma mulher que “por acaso” é esposa de um desenhista bambambã, como o caso da nova escriba da princesa amazona, Meredith Liu. Não quero uma HQ que me convença de que a Mulher-Maravilha é uma mulher real. Quero um quadrinho que me mostre que Diana Prince é um ser humano real. Só isso.

4 comentários

  1. Bem, eu não sei qual a dificuldade que as pessoas têm em escrever a Mulher-Maravilha. Talvez seja o medo de dar muita força a mulher e ser chamado de feminista, ou então fazê-la dependente demais e ser tachado de machista. Uma fase memorável da personagem, na qual eu gosto muito e – infelizmente – não foi mencionada foi a de George Pérez. Pérez trouxe uma personagem forte, que não dependia dos homens, mas era delicada e sensível, sem deixar de lado seu instinto de guerreira. Ela se entendia com a modernidade, mas sem deixar suas origens e seu passado para trás. Era uma amazona, uma guerreira e uma embaixadora. Alguns podem não ver assim, mas sempre considerei essa a melhor fase da personagem, pois além de agradar ao homens, era possível agradar as mulheres.
    Sim, ela foi criada para agradar ao público masculino, mas por que não agradar ao feminino, também? Por que não fazer uma personagem para as mulheres se identificarem? Mas concordo, não é necessário uma mulher para entender a Mulher-Maravilha, pois o mais importante é estar ligado a humanidade da personagem, pois o resto se arranja.

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    • guilhermesmee diz

      É Nardan, concordo que o Pérez fez um ótimo trabalho e talvez seja o escritor definitivo da WW. Mas aqui eu quis focar mais nos escritores entre a Crise Infinita e Os Novos 52 apenas. Senão poderia ter citado o Jimenez e o Rucka que também foram ótimos para a Diana. Abraços!

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  2. João diz

    “atual-série-gay-da-HBO-mas-que-foi-cancelada-para-desespero-das-bibas”

    Tá sabendo legal ser escroque.

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