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99 Firulas – Homem-Aranha: 99 Problemas, de Matt Kindt, Marco Rudy e Val Staples

Sabe aquela embalagem de biscoito que tem um design super transadinho, na última moda, que ganhou trocentos prêmios de embalagem do ano e te faz querer comer daquele biscoito nem que seja o último do pacote? Aí você abre a embalagem e vê que dentro dela só tinham seis biscoitos todos embalados em papel manteiga separados unidade por unidade e quando você morde o biscoito parece feito de jiló com pasta de avestruz? Foi assim que me senti lendo Homem-Aranha: 99 Problemas.

Peter Parker Não Tem Teto de Vidro

Peter Parker Não Tem Teto de Vidro

Quando eu via os previews dessa nova empreitada de minisséries da Marvel Knights em um site gringo, eu pensava: nossa que interessantes esses layouts, deve ser uma história muito inovadora. Talvez 99 Problemas seguisse a premissa da Era da Forma nos Quadrinhos, que já falei aqui – onde a forma está a serviço da história e a história, à serviço da forma – mas não. Talvez por contar com um roteirista que também é desenhista e que fez trabalhos tão interessantes como 3 Story e SuperSpy, a arte de Marco Rudy, que tem um quê de David Mack (desenhista e argumentista de Kabuki e Demolidor), pudesse dar um reforço para a história.

Mas como aprendemos em toda aula de design: menos é mais. Talvez isso sirva para o texto: minimalista até demais, numa história que nem depende dele. Por outro lado, a arte é capaz de causar epilepsia numa criança japonesa muito mais que os raios do Pikachu. São páginas e mais páginas que gritam nos nossos olhos: pela poluição visual, pelos layouts desbaratados, pela mistura esquizofrênica – no mau sentido – de estilos de desenhos. Ou seja, um desserviço à narrativa.

O Oscar de Melhor Mixagem de Imagens vai para...

O Oscar de Melhor Mixagem de Imagens vai para…

Ao mesmo tempo, como o mote da história é que o Homem-Aranha deve enfrentar 99 vilões, ele está passando por fases de videogame num malfadado estilo Scott Pilgrim Contra o Mundo. Se a intenção era de passar vertigem, tontura, desorientação para o personagem, eu aceito, mas no caso o leitor que busca uma história completa, com começo meio e fim é desiludido. Acaba jogando seu dinheiro fora. Como a gente odeia histórias que nos subestimam, não é mesmo? Histórias rasas, sem significado, só viagens do autor. E a gente odeia da mesma forma histórias que nos superestimam com significado tão herméticos que não é possível sair do raso da mesma forma.

Poderiam ter seguido o exemplos dos mestres, como essa página abaixo que Neal Adams fez na sua fase dos X-Men, mais precisamente em X-Men#57, em que o Fera caia de um prédio. Isso é um masterwork, um trabalho de mestre que será imitado por gerações e gerações.

Fera caindo para o estrelato nessa página famosíssima de Neal Adams

Fera caindo para o estrelato nessa página famosíssima de Neal Adams

Não sei quem teve a ideia de tratar a HQ Homem-Aranha: 99 Problemas dessa maneira. Mas tenho um palpite que tenha sido Matt Kindt no seu jeito hipster de fazer quadrinhos. O problema é que para ser hipster no mainstream é preciso seguir algumas regras, como por exemplo a narrativa fazer sentido. São muitas firulas numa história que vai do nada para lugar nenhum. Ou seja, não é uma história, não é uma jornada para o leitor, mas apenas desperdício de dinheiro e de papel.

Essa história está perigando a entrar na lista das piores leituras do ano, pois como história em quadrinhos daria um belo livro de colorir anti-stress.

“Homem-Aranha: 99 Problemas, de Matt Kindt, Marco Rudy e Val Staples. Panini Books: 116 Páginas. Tradução de Érico Assis e Paulo França R$ 21,90”

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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