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A Questão dos Estereótipos nos Quadrinhos, por Will Eisner

Não adianta fazer beiço, Eisner, o que está feito, está feito...

Não adianta fazer beiço, Eisner, o que está feito, está feito…

Ébano Branco era o parceiro de aventuras, ou melhor, o taxista do Spirit, maior criação de Will Eisner. O problema era que a caracterização de Ébano enquanto pertencente à núbia raça deixava muito à desejar. Era um estereótipo dos mais horríveis: dentões, parecendo um macaco, cartunesco, enquanto o Spirit era um esbelto e atlético caucasiano.

Na ocasião do lançamento da sua graphic novel Fagin, o Judeu, em que Eisner tenta dar um novo viés ao personagem receptador de objetos e crianças, Fagin, de Oliver Twist – livro de Charles Dikens – o autor resolveu fazer um mea culpa explicando um pouco sobre a criação e desenvolvimento de Ébano Branco, bem como tratar dos estereótipos nos quadrinhos.

Para ler mais sobre a cor da pele nos quadrinhos, leia esse artigo aqui. Agora fique com a citação de Einser:

“Em julho de 1940, comecei uma tira de jornal, chamada Spirit, sobre um herói mascarado, que punha em cena, como contraponto cômico, um jovem afro-americano de nome Ébano. Isso não era nenhuma inovação. Jack Benny tinha Rochester, o cinema tinha Stephin Fretchit, e o rádio tinha Amos e Andy. Tais eram as caricatura estereotipadas aceitas na época. Naquele estágio de nossa história cultural, o uso deformado do inglês, com base na origem étnica, era considerado humor. Ébano falava o dialeto ‘negro’ convencional, e seu humor leve contrabalançava a frieza das histórias de crime. Na minha ânsia de atrair mais leitores, achei que tinha descoberto um bom filão.

Em 1945, depois de uma interrupção para prestar o serviço militar, voltei às histórias em quadrinhos. Durante esse intervalo tomei maior consciência das implicações sociais do estereótipos de raça e passei a tratar Ébano com mais discernimento. E como é comum entre os desenhistas de quadrinhos, me afeiçoei muito a ele e procurei retratá-lo tal qual imaginava. Com a emergência dos movimentos pelos direitos civis, criei um detetive negro de linguagem impecável e passei a tratar o assistente de meu herói com mais cuidado.

Spirit de Porko!

Spirit de Porko!

Um dia recebi uma carta de um colega de classe que havia se tornado militante dos direitos civis, me repreendendo por abandonar as ideias ‘liberais’ que compartilhávamos na universidade. No mesmo dia, uma carta do editor de um jornal afro-americano de Baltimore me elogiava pela ‘sutileza da abordagem’ de Ébano. Essas cartas me fizeram compreender que minhas histórias, embora fossem concebidas como entretenimento, alimentavam o processo racial com a imagem estereotipada. Em busca de diversidade étnica, substitui Ébano por um menino esquimó e depois por Sammy, um rapaz branco. A tira acabou em 1952, e, prosseguindo minha carreira nos quadrinhos educativos, nunca reconhecia contradição entre meu retrato de Ébano, quando visto historicamente, e o ódio que me provocava o antissemitismo na arte e na literatura.

Embora não sinta nenhum remorso por ter criado Ébano, foi ao longo dos anos que ensinei arte sequencial que tomei consciência do problema que já durante meus cursos era confrontado sem cessar com a questão dos estereótipos. Conclui que havia estereótipos ‘bons’ e ‘ruins’;  a palavra-chave era ‘intenção’. Já que o estereótipo é uma ferramenta essencial na narrativa dos quadrinhos, é dever do autor reconhece seu impacto no julgamento social. Na américa do século XXI, lutamos contra o ‘perfil racial’. Vivemos em uma era que requer dos criadores gráficos uma enorme sensibilidade ante a injustiça dos estereótipos.

O Ébano Branco hoje em dia, no traço de Darwyn Cooke.

O Ébano Branco hoje em dia, no traço de Darwyn Cooke.

Foi nesse contexto e com plena consciência da influência da imagem na cultura popular, que comecei a cria histórias em quadrinhos que tratavam de temas ligados à identidade judaica e ao preconceito que os judeus ainda enfrentam. Alguns anos atrás, estudando contos folclóricos e clássicos da literatura com vistas à adaptação para os quadrinhos, descobri as origens dos estereótipos que aceitamos sem questionamento. Ao examinar ilustrações das edições originais de Oliver Twist, encontrei um exemplo inquestionável da difamação visual na literatura clássica. A memória do uso grotesco dessas imagens pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, cem anos depois, comprovou a persistência desses estereótipos cruéis. Combatê-los tornou-se um obsessão e percebi que não tinha escolha a não ser incumbir-me de um retrato mais verdadeiro de Fagin, contando a sua história da única maneira que me era possível.”

Will Eisner, Flórida, 2003. Retirado de Fagin, o Judeu, de Will Eisner. Tradução de André Conti. Cia das Letras, 2011.

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