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Anos 70: Nada Mais Atual do que Relevância Social

Dizem que os anos 70 foi a década perdida dos quadrinhos. Que de lá não se tirou nada. Mas vejam bem, os anos 70 vêm na onda dos movimentos estudantis de 68. Foram nos anos 70 que se intensificaram muitas das lutas pelos direitos civis de várias camadas das minorias sociais. Claro que isso uma hora iria refletir nos quadrinhos.

Sejam os movimentos dos Panteras Negras, seja o sutiã queimado em praça pública. Temos também o evento Woodstock que reuniu milhares de jovens hippies ao som de rock’n’roll, fazendo amor livre num chão lamacento de um sítio no meio do nada. Até os movimentos gays se iniciaram nos anos 70, com Stonewall e a eleição de Harvey Milk. Tudo isso é relevância social. Se você reclama que as revistas de super-heróis não têm mais graça hoje porque são politizadas demais, amigo, sinto lhe informar que isso não é de hoje.

Rá Denny O'Neil já era hipster nos anos 70, meu filho!

Rá Denny O’Neil já era hipster nos anos 70, meu filho!

Um dos grandes nomes dessa relevância social dos anos 70 foi Dennis O’Neil. É, isso mesmo! O cara que era editor e escritor na época da Queda do Morcego, em que o Batman tem sua coluna quebrada por Bane. Nos anos 70, Dennis, ou Denny, como é conhecido, era um cara que queria ser jornalista, mas como não conseguia trabalhos freelancers nessa área, na conturbada época da Guerra do Vietnã, Denny resolveu se voltar para os quadrinhos.

Leitor ávido da literatura que ficaria conhecida como Geração Beat, que produziu coisas inventivas como On The Road – Pé na Estrada, de Jack Kerouac e Almoço Nu, de William Burroughs – uma literatura pé no chão e ao mesmo tempo lisérgica, politizada e que também não queria nada com nada – O’Neill trouxe mais que o Boogie Oogie dos anos 70 para os quadrinhos. “Eu era muito velho para ser um hippie de fato, nasci um pouquinho antes, mas pertencíamos a uma geração rebelde e haviam preocupações política reais”, conta Denny O’Neil.

Esqueça a velha! A Nova Mulher-Maravilha agora é vegana

Esqueça a velha! A Nova Mulher-Maravilha agora é vegana.

Para começar, ele mexeu na Mulher-Maravilha mais que qualquer Straczinsky ou Azzarello poderiam ter mexido. Ele retirou os poderes de Diana e tornou-a discípula de I-Ching, um mestre do kung fu (sim, graças a Bruce Lee as artes marciais estavam em alta). Steve Trevor era morto e Diana abriu uma boutique para a vida melhorar. As tramas eram cheias de aventuras detetivescas, reviravoltas e claro, Diana também foi lutar no Vietnã. O desenhista das histórias era Mike Sekowski.

Talvez fosse a Mulher-Maravilha-que-não-era-Mulher-Maravilha mais feminista de todos os tempos. Até que uma feminista daquelas bem chatas escreveu um artigo na Ms. Magazine dizendo que a verdadeira Diana era a da Era de Ouro. Ah, esses fãs saudosistas que não abraçam a mudança! Naquela época não tinha essa de vou xingar muito no twitter, não! Era assim: vou publicar um artigo acadêmico numa revista de nicho ressaltando os pontos positivos da antiga Diana e detratando os pontos fracos da nova Diana. Aprendam, meninos! Senhorita Gloria Steinem, esperneante da idade da pedra.

Então a DC Comics voltou ao que era antes e deixou de lado uma das fases mais legais da Mulher-Maravilha. Essas histórias foram publicadas aqui em As Aventuras de Diana (Quem Foi?), de Editora Ebal, em uma série separada e com um título que não era Mulher-Maravilha.

Julius Schwartz, o editor da época queria “um pouco daquela coisa experimental”. Foi no título Lanterna Verde/Arqueiro Verde que Denny O’Neil virou motivo de culto. As vendas dos dois heróis não iam bem e os editores resolveram juntá-los numa só. Assim, O’Neil e Neal Adams, que já vinham escrevendo histórias backup do Arqueiro em Detective Comics e Brave and The Bold, assumiram o novo título da dupla, claro, com todas aquelas coisas experimentais que fizeram sua fama na época.

A passagem curta dos dois já começou causando. Já na primeira história, um homem negro que estava prestes a ser despejado do prédio onde mora dá um sermão em Hal Jordan por defender apenas os brancos, mas nunca os negros: “Eu li sobre você, como você trabalha para os pele-azuis… e como você ajudou um planeta em algum lugar que tinha pessoas-laranja… e você fez coisas consideráveis para pessoas de pele roxa! Mas tem algumas cores de pele com as quais você nunca se preocupou…  como a pele negra! Eu gostaria de saber… por quê?! Me responda isso, Senhor Lanterna Verde!’. Ao que Hal responde: “Eu… Não posso…”.

Distrito 9 feelings...

Distrito 9 feelings…

A cada edição a revista surpreendia por se mostrar liberal demais para aqueles tempos, lidando com temas como feminismo, poluição, a causa indígena, superpopulação. Mas nenhuma provocou tanto espanto como a capa em que o Arqueiro Verde pega o seu parceiro-mirim, Ricardito, se drogando com heroína. A revista em questão, Green Lantern/Green Arrow #76, de maio de 1970 ganhou as páginas de publicações como o The New York Times.

“Se você definir o Lanterna Verde como um tipo de melhor policial do mundo, um cara bom, mas um cara muito tradicional, você precisará de alguém para confrontá-lo. Isso era mais ou menos o  que a personalidade alterada do Arqueiro Verde dizia : o contrário”, explica Denny O’Neil.

Oh Não! Meu protegido, Ricardito, é um funkeiro! Como farei para ele se livrar desse vício ruim?

Oh Não! Meu protegido, Ricardito, é um funkeiro! Como farei para ele se livrar desse vício ruim?

Se você pensa que na Marvel também não tiveram mudanças positivas aos direitos civis está muito enganado. Pra começar, em 1970 a revista do Capitão América passava a se chamar Captain America and The Falcon, e passava a apresentar também o vingador alado como coprotagonista. Nas primeiras edições do título renomeado, pelas mãos de Gary Friedrich no roteiro e vários desenhistas clássicos nas imagens, Capitão e Falcão tinha que lidar com tumultos no Harlem – o bairro negro de Nova York – provocados pela Milícia do Povo.

Se aparentemente poderia parecer errado dois heróis lutando contra movimentos de direitos civis, algumas edições mais tarde se revelava que o líder por trás de tudo era ninguém menos que o fascista Caveira Vermelha, que queria acabar com a raça negra. Ao lado disso, ganhava destaque a Força Feminina da S.H.I.E.L.D., liderada por Sharon Carter e a Contessa Valentina Allegra de La Fontaine.

Força Feminina:

Força Feminina: “Só porque somos mulheres não significa que não vamos atirar!” #ata

Se você reparar bem tem muitas insinuaçõe sexuais nessas histórias do Caps e do falcão. tem uma hora que el pede para Steve escolher entre ele, Sam, ou a Sharon.

Se você reparar bem, existem muitas insinuações sexuais nessas histórias do Caps e do Falcão. Há um momento em que Sam pede para Steve escolher entre ele ou Sharon Carter.

Claro, as histórias podem parecer um pouco politicamente incorretas, já que o vilão manipula os negros para se voltarem contra si mesmos. As mulheres são relegadas a uma força separada da S.H.I.E.L.D. e são colocadas para teste ao invés de se juntarem a uma força mista. Mas, eram os anos 70, né, eles estavam engatinhando e bem, pelo menos estavam tentando. Essas histórias você pode ler em Coleção Histórica Marvel: Os Vingadores #6, da Panini Comics.

Pelo lado feminino, então, tivemos mais alguns destaques, que você pode conferir na matéria da Marvel Divas, nesse link aqui.

E então, tá reclamando do quê que agora as duas grandes só apoiam casamentos gays, esses árabes aí, os tais dos latinos e tá enchendo seus títulos de mulherzinhas heroínas? Não é de hoje. Vai estudar, Danilo!

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