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Os Quadrinhos Me Ensinaram a Me Posicionar

Outro dia um menino que gostou dos meus posts aqui no blog e que eu acabei fazendo amizade no Facebook veio me perguntar: tu é de esquerda ou de direita? E veio me perguntar a razão da minha escolha. Depois ele disse que não se posicionava, porque segundo um videoblog o correto era não se posicionar. Era um vídeo com a teoria dos bombons. Você pode escolher a caixa da Nestlé ou da Garoto – eu adoro as duas igualmente – mas digamos que nelas existam 5 bombons que você gosta de um total de 10. Nas duas. Se você pegar qualquer uma delas vai levar cinco que gosta e cinco que não gosta. E isso, segundo o vídeo, era o problema das ideologias.

Comer ESSE Garoto, tudo bem. OU OUTROS não pode, nem com consentimento!

Comer ESSE Garoto, tudo bem. OS OUTROS não pode, nem com consentimento!

Só que, amigo que fez o vídeo, não sei se tu já percebeu, mas esse é problema da VIDA. Nem sempre levamos o que compramos. A maioria da vezes é como diz o ditado: levamos gato por lebre. Até os mixes da Panini são assim. A gente não tem 100% de aproveitamento. As pessoas também são assim, porque as pessoas vêm com mixes de tantas coisas, que é difícil ter um aproveitamento de 100%. Mas a gente tem – não – a gente DEVE lidar com as diferenças. A gente mesmo tem uns mixes dentro da gente que nós mesmos não aceitamos. Mas levar consigo o que é bom e o que é ruim, e se aceitar e aceitar o mundo do jeito que é faz parte da vida e de uma coisa que pouca gente tem: AMADURECIMENTO.

Agora são crianças! Aonde esse mundo vai parar? Já refletia Magneto, um terrorista, sobre condenar crianças

Agora são crianças! Aonde esse mundo vai parar? Já refletia Magneto, um terrorista, sobre condenar crianças

Nem sempre a gente se define, dizem que não é bom se definir. Mas ficar em cima do muro não pode. A sociedade demanda definição das pessoas. Seja numa urna eletrônica, seja na hora de escolher o que vai encher seu prato no buffet. É aquele clichê: a vida é feita de escolhas e tu e mais ninguém tem que lidar com elas. Não sou eu que exijo de mim mesmo me definir homossexual. É a sociedade. Imagina que triste é a vida de um cara que só se assume depois dos quarenta anos. Perdeu metade da vida vivendo uma mentira porque tinha medo do que a sociedade fosse dizer para ele, ou do que ele pudesse sofrer.

O Homem-Aranha tira máscar e mostra sua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim!

O Homem-Aranha tira máscara e mostra sua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim!

Isso é covardia. Mas a maior covardia é uma sociedade que deixa de se posicionar quando poderia fazer a diferença. Vamos pegar um exemplo dos quadrinhos. Tem uma batalha em Gotham City. Lá pelas tantas você tem o DNA capaz de salvar ou corromper a cidade, o país, o mundo. O Batman te oferece uma chance. O Coringa te oferece uma chance. E o que você faz? Dá de ombros. Não ajuda nem atrapalha. O que pode significar não a vitória do bem, nem a do mal, mas o fim do mundo. Isso é o que acontece quando as pessoas não se posicionam. O próprio Jesus disse: “Seja frio ou seja quente; seja morno e te cuspo na cara!”. Um pouco agressivo para o cordeiro remissor dos pecados, mas está na Bíblia, como gostam de dizer. Escolher lados significa paixão, significa luta, significa tesão pela vida. Ficar na mesma significa apatia, doença, depressão.

O que eu faço? Eu uso os quadrinhos como forma de expor as minhas ideias, por isso que chamo meus artigos como “crônicas do mundo dos quadrinhos”, porque sim, eles incluem posicionamento. Eu vejo tanto absurdo ser dito no meio quadrinístico, sobre os personagens, sobre decisões editorias, sobre histórias, que  me preocupa se os leitores levam isso para a VIDA deles também, se as escolhas que eles fazem não vão prejudicar o seu cotidiano. E o pior: acabarem estigmatizando ainda mais os leitores de quadrinhos como um nicho de gente que não compreende o mundo, que são levianos – citando Aecinho -, um grupo resistente às mudanças que só deseja ler a próxima edição e mais nada para o mundo.

Ser capacho do governo (de qualquer governo) ou pensar pela própria cabeça (qualquer cabeça)?!

Ser capacho do governo (de qualquer governo) ou pensar pela própria cabeça (qualquer cabeça)?!

Essa mudança é possível através dos quadrinhos, mas claro, apenas se o leitor for capaz de interpretar, analisar e criticar os quadrinhos não apenas da forma rasa: “gostei por causa disso ou daquilo”, ou “o Millar faz umas cenas foda de cachorro mordendo os bagos do cara todo cagado”. Mas analisar e criticar de uma forma que faça diferença para sua vida e para o mundo em que vive. Que uma história em quadrinhos comova o seu leitor a ponto de ele ir praticar a justiça dos seu tão amados super-heróis.

Talvez eu esteja levando os quadrinhos muito a sério? Talvez. Mas se apoiando nas teorias de Warren Ellis e Grant Morrison, imagine que o mundo de discussão sobre quadrinhos seja um microcosmo da discussão do mundo. Como é que fica nossa amostragem? Se depender de muitos leitores de quadrinhos acomodados com o mundo como está, que só querem saber de ler seus gibis tranquilamente em suas poltronas, nada vai mudar além do “Continua na Próxima Edição…”.

Obrigado ao Wesley Rogério por perguntar e perguntar todo o dia. Me enche de orgulho saber que tu pode entender o que eu te digo e não levar a mal. Siga assim, padawan!

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

9 comentários

  1. Ótimo ensaio. Já faz uns meses que estou para escrever um desses também sobre como muitos dos leitores fãs de heróis tomam posições vilanescas ao defenderem brutalidade policial contra manifestantes, serem homofóbicos, machistas e fascistas. Como se a única coisa que tivessem aprendido com super-heróis fosse o fato de que com algum poder (liberdade nas redes sociais), você pudesse atacar todos que são contra aquilo que você acredita.

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  2. Gostei do texto. Mas em certos casos, nem perco mais meu tempo tentando me posicionar pra defender algo. Deixo as coisas caminharem pro buraco. Infelizmente as pessoas exigem, em certos casos, que vc escolha um lado,por causas de interesses próprios da pessoas que te obriga a escolher. Ninguem esta interessado em chegar em um acordo. Querem impor a todo custo sua ideologia. Sempre foi assim na vida, e questões como politica, religião, opinião sexual etc. Agora esses mesmos movimento estão acabando com os quadrinhos.

    Existem muitos que são contra mudanças de etnia do Tocha humana no novo filme do Quarteto Fantástico por puro racismo. Disfarçam seu racismo com outras desculpas pra detonar o filme.Existe a mudança do personagem Thor, que agora é Jane Foster. Existem os casos de personagens se assumindo homossexuais e por ai vai as polemicas.

    O fato é que se vc é contra determinada mudança, te chamam de racista, homofóbico etc. Se vc é a favor, tbm te é chamado de varias coisas. A questão que me incomoda é que no fundo, muitas vezes , as pessoas não se importam com os personagens. Querem mesmo é impor sua opinião e exigem que vc concorde com eles. Os quadrinhos viraram mais uma zona de batalhas ideológicas , motivadas por interesses pessoais. Usam personagens que tanto amamos. Por isso, muitas vezes não perco mais meu tempo querendo me posicionar, pois não vejo argumentos sinceros.

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  3. acho válido se posicionar de um lado se você conhece tudo que aquele lado tem e vai te oferecer. Tiozinho aí falando que é esquerdista só pq é contra Dilma sem nem saber o que é que tem de errado de verdade no país…
    eu entendo o amigo aqui em cima (mauricio da costa) que falou que prefere não tomar lados pq no fim, é só desculpa de alguem pra conseguir alguma coisa, mas acho que todo mundo deveria aprender o que puder, e passar pra frente pra todos conseguirem formar sua opinião…

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  4. Pingback: Grant Morrison Não Gosta dos Filmes do Batman de Nolan | Splash Pages

  5. Conhecendo agora seu espaço e já gostei, curti esse post aqui também, mas gostaria de educadamente discordar da sua critica à teoria dos Bons-bons, mas sem pretensão de considerar prejudicado todo o resto do texto:

    Sobre a teoria dos bons-bons (que eu não conhecia e adorei o comentário sobre comer Garoto [a marca]) eu vejo mais como uma questão de rótulos, um problema de linguagem e significados: ao se posicionar se dizendo de esquerda ou direita você atrairá sobre si uma série de posições do esteriótipos que pode não ser sua opinião (os bons que você gosta), e isso é de fato preocupante e também me faz não me posicionar “fortemente” a favor de uma delas. Eu prefiro ter minha opinião sobre cada assunto de acordo com minha construção de argumentos, e eventualmente eu percebo que meu pensamento se alinha mais com uma ideologia ou outra, mas tento não me rotular como um deles.

    Exatamente por isso digo que não tenho religião, mas na verdade só para poupar explicar que tenho sim uma religião, mas é a minha. Tem certa parte de cada uma que conheço.

    Mas levando para o lado de quem interpreta isso como uma desculpa pra se dizer “apolítico”, cabe todas a critica que fez nesse post.

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    • guilhermesmee diz

      Junior se te amedronta se posicionar como esquerda ou direita, imagina como é para um gay se assumir. Porque fazendo isso leva muito mais que rótulos e posicionamentos políticos, em algum países é risco de morte. Por isso eu digo que tem que ser muito macho pra ser gay. De qualquer forma, valeu pelos elogios! Abraços!

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  6. É a primeira vez que eu comento aqui, mas depois desse texto, acho que vão ser várias. A “teoria dos bombons” embora aparentemente simples, consegue passar uma boa ideia do que são as coisas, a principio fiquei um tanto receoso, mas acabei aceitando, seria interessante o Sr ter colocado o referido vídeo.

    Eu também tenho blog e escrevo, embora eu esteja tentando melhorar a cada dia, não consigo ainda ter um domínio coeso textual como o seu, por isso, antes de tudo, gostaria de elogiar a forma que escreveu, mesmo sendo algo que eu discorda-se, que não é o caso, ainda teria gostado da leitura.

    Ontem eu escrevi um texto chamado “O Efeito Inverso Aplicável do Liberal nos Dias de Hoje” (Deveria ter feito um título mais curto, enfim) no qual eu de maneira semelhante, porém que seguindo outro caminho, falava sobre o quanto as pessoas lutaram para ter uma sociedade mais baseada na “aceitação” bem como diversidade, e no entanto seguem um caminho inverso, indo através da censura, zombaria, ou puro ataque mesmo.

    Eu nunca me rendi a essa classificação pífia de quadrinhos serem vendidos como “cultura pop”, para mim eles tem tanta relevância quanto diversas obras conhecidas e respeitadas da literatura, embora muita gente ainda tente classificá-lo como subgênero, para se ter uma ideia, essa semana li um texto de uma moça sobre o filme “Kick-Ass 1” e ela sintetizava “não espere algo grandioso, é só mais uma história de puro entretenimento e diversão, tal os quadrinhos, Kick-Ass pode ser agrupado junto a Watchmen.” Isso diz tudo…

    Vou assinar o blog para sempre ser atualizado no meu e-mail, gostaria de te convidar, caso acha-se interessante, a publicar esse texto no meu blog, ou nossos blogs serem parceiros, embora o meu seja da plataforma blogger, não sei tem alguma incompatibilidade.

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  7. Pingback: Capitão América, Homem de Ferro e a Guerra Civil que Travamos Todos os Dias | Splash Pages

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