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Neil Gaiman e Chris Claremont: Quem Usa Melhor Shakespeare?

Dois grandes escritores de quadrinhos, Chris Claremont e Neil Gaiman, ambos de origem inglesa, têm grande influência do grande bardo, William Shakespeare. Vamos dar uma olhada em como cada um usa as influências do maior escritor da língua inglesa e o que a crítica fala sobre isso.

Everybody Hates Chris

Everybody Hates Chris

Começando com Chris Claremont, que nasceu em Londres, mas muito cedo foi viver em Long Island, nos Estados Unidos. Como tinha ascendência judaica pelo lado da mãe, Claremont passou alguns anos de sua juventude em um kibutz. Na idade adulta optou por cursar teatro na Bard College enquanto trabalhava como uma espécie de office-boy na Marvel. Sua primeira chance como escritor foi assumir a revista Uncanny X-Men após a saída de Len Wein. Claremont também escreveu Marvel Team-Up, Luke Cage e Punho de Ferro, Miss Marvel, Mulher-Aranha, Novos Mutantes, Excalibur e muitas outras séries mutantes. Mas é famoso mesmo por passar 17 anos à frente da revista Uncanny X-Men e, depois, mais alguns anos em outras revistas derivadas.

Em primeiro lugar, o estilo de Claremont é baseado nos diálogos. Assim como Shakespeare ele dominava esse elemento para mostrar como são os personagens. Assim como o bardo, com o desenvolvimento de mais e mais tramas, ia deixando os personagens cada vez mais claros para o leitor usando motivações variadas e diferentes padrões de diálogo.

Eu sou o melhor no que faço, e o que faço não é nada bom. Eu uso Croc's!

Eu sou o melhor no que faço, e o que faço não é nada bom. Eu uso Croc’s!

Claremont tinha um sentido sobre teatralidade, um conhecimento que Shakespeare dominava. Esse sentido garantiria o sentimento de melodrama para as histórias de Chris Claremont. Ambos dominavam o argumento a fim de criar muitos pontos de interesse para mostrar à audiência os mais variados lados da narrativa como era possível. Dessa maneira, uma subtrama que se iniciava numa edição X só iria se tornar uma trama principal quinze edições depois, no caso das revistas mutantes, marcando uma estrutura bem característica do teatro. Isso sem falar nas frases de efeito como “Sou o melhor no que faço, mas o que faço… não é nada bom”, do baixinho peludo invocado canadense Wolverine.

Socorro! Isso não é água, é Kaiser!

Socorro! Isso não é água, é Dolly Guaraná!

Em 2009, um artigo da revista Slate dizia que Claremont era “o mais novelesco escritor dos quadrinhos… Uma cena característica de Claremont é tanto um personagem com a cabeça caída, cheio de vergonha, com dois enormes rios de lágrimas descendo por suas bochechas enquanto ele ou ela proporciona um monólogo autodepreciativo, ou um personagem com a cabeça erguida e a boca aberta num grito de raiva, brandindo pequenos punhos em direção aos céus e jurando que o mundo inteiro muito em breve irá aprender sobre seus sentimentos”. Porém o artigo também comprova que “a genialidade de Chris Claremont foi ter transformado os mutantes num posicionamento genérico para todas as minorias”.

Neil Gaiman, por sua vez, é um escritor inglês filho de pais judeus cientologistas. Ele não cursou faculdade mas começou a carreira como jornalista tendo escrito livros informativos sobre a banda Duran Duran e sobre o livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. Começou nos quadrinhos com sua aproximação a outro escritor inglês, Alan Moore, que o ensinou a fazer roteiros de quadrinhos. Sua estreia foi uma pequena história do Monstro Pântano, que acabou saindo no encadernado Dias da Meia-Noite. De lá pra cá ele trabalhou em Miracleman, Orquídea Negra, Livros da Magia, 1602, Eternos e, claro, a sua maior criação e contribuição para a história dos quadrinhos, a série Sandman, em que narra as aventuras da encarnação do Sonho e sua família, os Perpétuos.

Estou na Lanterna... dos Afogados...

Estou na Lanterna… dos Afogados…

Foi nessa série que Gaiman homenageou descaradamente o bardo Shakesperae, colocando-o como um dos personagens da história Sonhos de Uma Noite de Verão, em que uma trupe teatral vai encenar a peça homônima, mas que acaba sendo substituída pelos próprios personagens do reino de faerie, como a rainha Titânia e o rei Oberon. Essa história ganhou o prêmio World’s Fantasy Awards, o primeiro e único dado a uma história em quadrinhos. Também, nos últimos números da série Sandman, Gaiman volta a homenagear sem rodeios Shakespeare, dessa vez, fazendo a sua versão da peça A Tempestade.

Você teve o que todo mundo teve, o tempo de uma vida.

Você teve o que todo mundo teve, o tempo de uma vida.

Talvez a influência mais flagrante de Shakeaspeare sobre Gaiman sejam as frases “mundo cão” que ambos escrevem, retratando o lado agridoce da vida. São frases que agradam por mostrarem de forma contundente, porém simpática e por vezes irônica como funciona esse mecanismo chamado humanidade. Você pode ler algumas dessas frases nos posts de citações do encadernado Vidas Breves, de Sandman, neste link e nesse link.

Sonho Meu, Sonho Meu, existe alguém no mundo mais preguiçoso do que eu?

Sonho Meu, Sonho Meu, existe alguém no mundo mais preguiçoso do que eu?

O crítico Clay Smith fala o seguinte sobre a influência de William Shakespeare sobre Neil Gaiman: “Enquanto tal manipulação permanece relativamente escondida, a mão da autoria(dade) de Neil Gaiman aparece mais explicitamente através de grande parte de seu trabalho na forma de citações, comentários, paratextualidade – em menor parte, por meio de sua incorporação atribuitiva do corpo de outros trabalhos dentro do corpo do seu próprio trabalho. (…) A despeito de sua presença em formatos aparentemente diferentes (graphic novels, entrevistas, e webpages), essa referencialidade (re) articula a mesma mensagem: Gaiman é o vortex (uma de suas imagens recorrentes) do qual sua narrativa única transpira e da qual a maioria dos leitor não pode (não quer) escapar.

Shake, Shake, Shake... Shake Your Booty!

Shake, Shake, Shake… Shake Your Booty!

Por fim, chegamos à concussão de que as histórias de Shakespeare, Gaiman e Claremont querem passar a mesma mensagem. A de que a vida é transitória e a dor que sentimos não pode ser evitada. A existência é um grande esforço do ser humano que quase nunca resulta em nada, apenas na imensa metamorfose incessante do mundo. Ou, como diria o grande inspirador, William Shakespeare:

“A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”.

Agradeço ao Carlos Macedo por discutirmos o assunto e à Annie O’Reilly por acompanhar do reino de Morpheus.

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6 comentários

  1. Nunca li nada do Gaiman. O Claremont só pecava pelo excesso de recordatórios ou com personagens pensando ou falando o que faziam. Mas, ele não era o único a escrever assim. John Byrne, Judd Winick e Alan Davis, que o digam.

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  2. Shakespeare é fantástico e fez com que eu levasse a todas as minhas crises da adolescência. O que o Claremont fez nos X-men é um trabalho primoroso e que por ventura é a fase que mais me identifico nela mesmo que só tenha notado esta inspiração ao William só agora. Como não gosto do Gaiman,(sim, este ser humano existe) não sei falar muito sobre o estilo dele.

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