O Papel da Crítica (Inclusive a de Quadrinhos)

Um Eco e um Suspiro da Cultura de Massa

Na faculdade de Comunicação Social aprendemos, logo no começo, sobre os gate keepers, ou seja, os formadores de opinião. Numa tradução literal, a expressão significaria “os guardiões do portão”, como na música de Sérgio Reis, do Menino da Porteira, triste que ela só, sertaneja que ela só, os guardiões da porteira são aqueles que selecionam quem ou o que entra e quem ou o que sai. Assim funciona a mídia em massa. Ela seleciona o que deve passar pelo seu portão e ser divulgado para o mundo. É um papel delicado. Mas ao fazer essa seleção – do que presta e do que não, do que a mídia acha que o público vai gostar ou não – mostra o quanto de poder esses veículos de comunicação tem em suas mãos.

Do palácio da Mídia mainstream:
Do palácio da Mídia mainstream: “Blogueiros? O que eles querem agora?”. Abaixo os blogueiros segurando faixas com: FATOS, OBJETIVIDADE, VERDADE!

No mundo da internet é um pouco diferente – só que não. Como sabemos, o próprio Facebook possui filtros do que ele mesmo acha que seus membros vão curtir ou não. Se você tem o costume de acessar um site todos os dias, vai saber que ele vai privilegiar esta ou aquela notícia de acordo com os seus interesses. Por mais que você procure alguma expressão no Google, ele também já possui no seus bancos de dados algumas informações sobre você e vai direcioná-lo aos resultados de acordo com o que você já procurou antes.

“Se não fosse por blogs, podcasts e twitter eu nunca saberia o que está acontecendo…”

As redes sociais e os sites de busca são os gate keepers do mundo conectado. Como disse, é um papel delicado. Como diria Delírio, irmã de Sandman: “Nossa existência deforma o universo. Isso é responsabilidade”. Então o que dizer de selecionar, curtir e compartilhar uma informação? E se a informação estiver incorreta? E se você não leu o texto inteiro, mas já comentou com um juízo de valor? Eu me preocupo com isso no meu blog, então, como falei, faço questão de me posicionar.

Um Eco e um Suspiro da Cultura de Massa
Um Eco e um Suspiro da Cultura de Massa

No seu famoso livro, Apocalípticos e Integrados, sobre a comunicação de massa – essa que existia antes da internet, que era pasteurizada e te obrigava a ter de assistir OU novela OU futebol e que era bem mais fácil de controlar você, seu vizinho e a sua cidade – Umberto Eco fala um pouco sobre o papel do crítico. OK, eu vou puxar a sardinha para o lado dos quadrinhos. Umberto Eco fala que quem controla o fluxo de informações se posiciona como um Super-Homem sobre a massa: “a comunidade reduzidíssima – e eleita – de quem escreve e de quem lê, ‘nós dois, você e eu, os únicos que compreendem, e estão salvos: os únicos que não são massa’”. Isso é ser Apocalíptico: nivelar seu público por baixo, achar que ele está sendo manipulado pela cultura de massa, que são ingênuos e ignorantes, pensar que, por deter a informação, seus leitores/público são apenas um rebanho a ser guiado pela porteira.

Enfiando informações nada confiáveis pela sua goela abaixo.
Enfiando informações nada confiáveis pela sua goela abaixo.

“Mas nesse mundo, que uns alardeiam recusar e outros aceitam e incrementam, não é um mundo para o super-homem. É também o nosso. Nasce com o acesso das classes subalternas à fruição dos bens culturais, e com a possibilidade de produzir esses bens graças a processos industriais”. Quem nunca desejou escrever e desenhar uma história em quadrinhos? Por que essa produção deve ficar nas mãos de apenas uns poucos? Aceitar e incrementar, buscar soluções e contestar o que está errado é o que fazem os Integrados. Eles agregam e tentam fazer desse, um mundo melhor, quem sabe através da crítica.

Não é o caso de levantar bandeiras, mas de apontar os erros e buscar novas propostas. Eco parafraseia a Escola de Frankfurt, de Adorno e Horkheimer: “A crítica não constitui um partido, não quer nenhum partido para si, mas estar só, só, enquanto se aprofunda em seu objeto, só, quando a ele se contrapõe”. De fato, um papel delicado, ir contra àquilo que mais ama, que é seu objeto de análise.

Tô, a Missão!
Tô, a Missão!

Podem dizer: “O que você quer falar? Quadrinhos não são nada. Criticar quadrinhos não leva à lugar nenhum”. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas eu já fico muito feliz de plantar uma interrogação, uma pulga atrás da orelha das pessoas. Como aquele livro que você lê e, de repente, muda tudo que você conhecia do mundo. Adoro ser um paradoxo para meus leitores. Acho que a função do crítico não é dar respostas, mas plantar perguntas. Ou, como dizia a música , de Tom Zé: “Tô te explicando para te confundir. Tô te confundindo pra te esclarecer”. Tô falando de quadrinhos porque é a forma que encontrei pra buscar alguma solução. Pra mim e pro mundo. Ou, como diria o Eco, em palavras bem mais rebuscadas: “A soma dessas mensagens mínimas que acompanham nossa vida cotidiana constitui o mais aparatoso fenômeno cultural da civilização em que somos chamados a atuar”. E, como diria Stan Lee: “Tá falado!”.

Fiquem com o Sérgio Reis:

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