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Eu sou o melhor no que faço, mas o que faço… ninguém sabe o que é!

“Cão que ladra não morde!” também serviria para dar título a esse artigo. Mais uma vez vou falar da velha regrinha da escrita TO SHOW > TO TELL, ou MOSTRAR > DIZER, ou “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Geralmente esse erro mostra que o escritor é inexperiente, ou que não tem segurança no que escreve, mas até mesmo figurões dos quadrinhos caem nesse erro.

O ponto que quero destacar aqui é a caracterização de personagens. Eu gosto muito do Brian Wood, acho que em histórias fora do mainstream ele se dá muito bem. Mas quando ele pega revistas como as dos X-Men ele se dá muito mal. Sabe por quê? Porque ele está sempre lidando com grandes ameaças nas revistas dos mutantes. Quando eu digo grandes ameaças, são grandessíssimas ameaças, do tipo de escala global, que podem consumir um planeta. Mas nós só sabemos disso porque ele (enquanto narrador dos diálogos dos personagens da revista) fala isso. Ele se esquece de mostrar esse poder da tal superameaça.

Sou o melhor no que faço, e  o que faço de melhor é... quadrinhos indie!

Sou o melhor no que faço, e o que faço de melhor é… quadrinhos indie!

Sou o melhor no que faço, e  o que faço de melhor é... mordiscar e soltar fogos de artifício!

Sou o melhor no que faço, e o que faço de melhor é… mordiscar e soltar fogos de artifício!

Pegue por exemplo Arkea, a nêmese da equipe feminina dos X-Men em vários arcos da revista homônima e sem adjetivos. Ela é um vírus tecnorgânico que é irmão de John Sublime, tão bem (ou nem tanto) trabalhado por Grant Morrison nos seus Novos X-Men. Sabemos que ela invade corpos e tal, que controla tecnologias, mas por que não mostrar que ameaça mesmo ela tem pro mundo? A mesma coisa com Futuro, do último arco do autor em X-Men. Ele é um grande terrorista internacional que invade a Mansão Xavier para sequestrar Jubileu. Mas por que mesmo que ele é uma ameaça? Não sabemos. Isso não foi mostrado, foi dito.

Sou o melhor no que faço, e  o que faço de melhor é... ter o mesmo sobrenome de um presidente!

Sou o melhor no que faço, e o que faço de melhor é… ter o mesmo sobrenome de um presidente!

Já um grande escritor como Chris Claremont cai nesse erro porque confia demais nos diálogos, culpa, talvez, de sua formação teatral. Mas isso têm se acentuado depois que ele retornou aos X-Men, criando personagens como o insosso e sem pé nem cabeça Vargas, que é um homem que odeia mutantes, que conseguiu matar o Fera e a Psylocke, mas ninguém dá um centavo por ele porque ninguém o percebeu como essa grandessíssima ameaça que Claremont alardeia. O mesmo com o telepata superpoderoso Elias Bogan, também na fase esquecível dos X-Treme X-Men, capaz de dominar a própria Fênix Rachel Summers, mas ninguém sabe de onde veio, pra onde foi e porque é tão poderoso. Isso não foi mostrado, foi dito.

Sou o melhor no que faço, e  o que faço de melhor é... tagarelar sobre o que estou fazendo no exato momento!

Sou o melhor no que faço, e o que faço de melhor é… tagarelar sobre o que estou fazendo no exato momento!

O último exemplo já não é nem um pleonasmo, é uma hipérbole – ok, eu confundo essas figuras de linguagem – O pleonasmo é como aqueles diálogos do Stan Lee em que aparece o Tocha Humana lançando uma bola de fogo e a legenda diz “O Tocha Humana lança uma bola de fogo!”. A hipérbole seria a legenda dizer ainda: “O Tocha Humana, homem todo composto de fogo iridescente, poderoso como uma estrela em estado nova, lança uma bola de fogo aquecida e candente”. O exemplo é o Pantera Negra de Reginald Hudlin.

Sou o melhor no que faço, e  o que faço de melhor é... INVERSE GANG BANG!!!

Sou o melhor no que faço, e o que faço de melhor é… INVERSE GANG BANG!!!

Pra quem não conhece o Pantera Negra, ele é o regente do reino de Wakanda, um enclave hipertecnológico no meio da África, uma civilização superdesenvolvida graças à mineração de vibranium, um metal que serve para diversos fins, entre eles gerar ondas sônicas. O Pantera, além de ser um homem sábio, inteligente, também é mestre em combates. Para conseguir o título de Pantera Negra, o protetor de seu país, ele precisa derrotar o detentor anterior desse título, ou seja, o maior e melhor lutador de toda Wakanda. Mostrado isso, T’Challa, o Pantera Negra já é fodão o suficiente, certo?

Mas o que Hudlin faz nos seus roteiros? Ele enche a boca do Pantera para dizer que o personagem é fodão e “come todo mundo” em Wakanda e, se reclamar, no mundo inteiro. Nisso, podemos chegar à três conclusões: ou T’Challa não é fodão coisa nenhuma e usa essa retórica apenas para compensar alguma insegurança, ou algum sentimento de inferioridade; ou então T’Challa é um filho da mãe arrogante que gosta de menosprezar as pessoas através de se vangloriar – um comportamento típico dos vilões; ou então de que quem sofre desse sentimento de inferioridade é o próprio escritor, inseguro do poderio do personagem que tem em mãos e que precisa, de alguma forma, usar uma ação afirmativa para justificar esse ato e, ao invés de mostrar o Pantera forte em atos, recorre ao recurso pobre – nesse caso – do  diálogo.

Sou o melhor no que faço, e o que faço de melhor é... fazer ameaças e não cumprir!

Sou o melhor no que faço, e o que faço de melhor é… fazer ameaças e não cumprir!

Ah, nossa velha amiga insegurança, todos a temos e ninguém a quer. Para se livrar dessa convidada indesejada o que podemos fazer é: admitir os erros, procurar não repeti-los e seguir o conselho da Luciana Genro para o Danilo Gentili: “Vai estudar, Danilo!”.

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