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Grant Morrison: O Nonsense Que Faz Sentido

123, lá vou eu! Quem não se escondeu é meu!

123, lá vou eu! Quem não se escondeu é meu!

Muita gente diz que não encontra sentido nas histórias de Grant Morrison. Pode até ser. Mas que elas estão recheadas de significado, ah isso elas estão. Tudo depende, é claro, da forma como você as lê. Vamos falar um pouco sobre isso ao dar uma olhada no volume d’ Os Invisíveis chamado Conte Até Zero.

Primeiro, preciso defender Morrison das acusações daqueles que dizem que suas histórias não têm sentido. Ela têm. Começo, meio e fim definidos. Elas vão de uma situação inicial que se complica e se transforma no final. Talvez os temas e complicações das histórias do escocês não sejam tão permeáveis, mas aí entra o significado. Ele não é um só, por isso, essas temáticas tão fractais – uma imagem que se reproduz, que pode ser desconstruída pelo leitor em pequenos elementos que formam o plano geral.

Ykeees! Eca, eca! Bleargh!

Ykeees! Eca, eca! Bleargh!

Esses dias li Spawn/Batman, de Frank Miller e Todd McFarlane. Essa é uma história sem sentido nem significado. Com diálogos pobres, construção duvidosa e que você não leva nada da história. Ela é rasa. Por outro lado, outras histórias como A Magia de Aria, de Brian Houlguin e Jay Anacleto vão do nada para o lugar nenhum. Elas são tão rebuscadas e pedantes que se esquecem da estrutura básica de uma história.

Sexo é simples e é complicado

Sexo é simples e é complicado

Mas pegando Os Invisíveis como exemplo, sua interpretação é tão complicada e tão simples como a sexualidade humana. A imagem acima mostra como as nuances da sexualidade humana podem ser complicadas, apesar de parecer algo tão natural para todos nós. Analisar as histórias de Morrison exige que enxerguemos não apenas uma camada, mas várias delas, como por exemplo quando ele nos coloca o seguinte diálogo: “Esta chuva caiu antes desta casa existir, ou talvez venha a cair quando nem nós nem a casa existirmos mais…”. Passado, presente e futuro ao mesmo momento.

O mundo da linguagem não é tão simples quanto pensa. nele cabe o que não cabe na despensa.

O mundo da linguagem não é tão simples quanto pensa. nele cabe o que não cabe na despensa.

No arco seguinte, “Campo de Concentração América”, a personagem Boy é transformada em diversas camadas de personalidades, uma reescrita sobre a outra, todo esse sistema de escrever e reescrever é baseado em palavras mágicas. Como diz Morrison lá pelas tantas: “A realidade é baseada na linguagem”. E, como diz o filósofo Willard Van Orman Quine, a linguagem é uma arte social. Ou seja: as palavras têm significado para nós, porque estamos acostumados com a maneira que elas são usadas pelos outros, não porque existe uma ligação entre palavras e coisas reais. O modo como a linguagem é usada socialmente a torna significativa. Ou seja, existem expressões que só fazem sentido para um nicho. Como algumas expressões dos quadrinhos. Nem todo mundo vai entender “Bazinga!” se você proferi-la.

Mas Morrison está sempre brincando com a metalinguagem, quando diz que “O universo é um holograma criado da sobreposição de dois metauniversos”. Se pegarmos as ideias de Platão, sabemos que estamos vivendo dois mundos: o mundo das ideias e o mundo dos sentidos e é a sobreposição deles que dá sentido para a nossa existência. Da mesma forma talvez se dê a sensação que ler quadrinhos nos dá: a cruza de dois mundos, as imagens (os sentidos) e do texto (as ideias), ou vice-versa.

“O universo é um holograma criado da sobreposição de dois metauniversos”.

“O universo é um holograma criado da sobreposição de dois metauniversos”.

Imagens também são linguagem. Imagens em sequência são linguagem. O imagético é linguagem e os arquétipos, como faz Morrison quando Os Invisíveis são confrontados com o universo da linguagem, são camadas da linguagem. São camadas invisíveis, que não estão lá, mas estão, são agentes da cultura e da contracultura, como nossos amados protagonistas. Essas camadas devem ser descontruídas como faz Morrison em tantas e tantas HQs, mas de forma evidente, não tão sugestiva como n’Os Invisíveis. Como diria outro filósofo, Jacques Derrida, o significado nunca é tão direto quanto pensamos que é, e esse significado está sempre sujeito a ser descerrado pela desconstrução.

“Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
Antoine de Saint-Exupéry

Precisamos ter sempre em mente que, essencialmente linguagem é sugestão. Por isso escritores são chamados de magos das palavras. Por isso ao usar a prática psicológica psicodrama- em que dizemos imaginariamente para as pessoas o que realmente queremos dizer – seja linguagem e sugestão. Ou os mantras repetidos incansavelmente por budistas, hippies e quetais. Até os próprios e atualíssimos memes da internet são palavras mágicas que povoam nossas mentes coletivas e nos sugerem coisas.

É amigos, quando vocês pensaram que a coisa era simples, eu vim aqui, descontruí elas, e você se complicou ainda mais. Assim também são as histórias de Morrison, que não são desprovidas nem de sentido não de significados, mas são feitas de camadas como uma cebola, cada vez que você tira uma, aparece outra, até chegar realmente no cerne da questão.

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