Capitão América, Homem de Ferro e a Guerra Civil que Travamos Todos os Dias

De que lado você está? Dentro ou fora?

Era uma vez o plot “atire primeiro, pergunte depois”. Nas revista dos super-heróis geralmente era assim quando dois personagens se encontravam: primeiro eles brigavam um monte por um mal entendido, depois discutiam e aí sim iam bater em quem realmente merecia. Mas isso tem mudado nos roteiros e argumentos dessas histórias se tornando mais complexos e desenvolvidos.

De que lado você está? Dentro ou fora?
De que lado você está? Dentro ou fora?

Como eu falei nesse post, os quadrinhos de super-heróis se tornaram mais blá, blá, blá do que soc, tum, pof, pois no mundo real não se pode resolver tudo aos socos e pontapés. Os quadrinhos vão ao encontro do que ocorre hoje nas redes sociais: muita discussão de ideias, principalmente no campo político.

Essa foi uma marca que sagas como Guerra Civil e Vingadores vs. X-Men trouxeram. Além de dialogar, essas histórias de super-heróis trouxeram um viés mais político para os leitores de super-heróis. Elas fizeram os leitores a buscarem a se questionar: “De que lado você está?”. Era o que perguntava a tagline de Guerra Civil.

Era uma luta pelos direitos civis dos super-heróis. Se por um lado o Capitão América defendia a liberdade dizendo que super-heróis não precisavam ser registrados, por outro, o Homem de Ferro queria que eles fossem registrados e regidos pelo Estado.  Mas escolher um lado, assim como na política, não é tão fácil quanto pensa.

Capitou? Ou não Capitou?
Capitou? Ou não Capitou?

Se o lado do Capitão América pode aparentar a Esquerda, pela defesa dos direitos civis, direitos humanos e a liberdade de expressão, por outro, não podemos esquecer que Steve Rogers é o símbolo máximo da América, os Estados Unidos, o país-símbolo do capitalismo. Ele mesmo veste a bandeira deste país, ainda que em muitas situações tenha lutado contra o governo.

Eu não sou de Ferro que nem você!
Eu não sou de Ferro que nem você!

Já o Homem de Ferro seria a Direita, controladora, que defende a um determinado e diferenciado grupo, uma elite cerceadora de direitos pois detém mais poder que os outros. Mas também não podemos esquecer que Tony Stark está nesta saga representando o Estado – símbolo maior da Esquerda – que quer controlar os direitos dos super-heróis de agirem livremente.

Na HQ, assim como no mundo real, existem os dois lados de uma mesma moeda. Todo sistema é falho – como se Karnak, dos Inumanos, encontrasse aquela rachadura na estrutura – pois são feitos por humanos. Todo diálogo é uma Guerra Civil, como diria o pensador Michel Foucault.

Ele também diz que as relações de poder permeiam toda interação social. Mas também afirmava que “Não há relação de poder entre sujeitos livres”, ou seja, na nossa sociedade atual, nenhum sujeito é totalmente livre. Ele também costumava dizer que “a política é a continuação da guerra por outros meios”.

“Não há relação de poder entre sujeitos livres"
“Não há relação de poder entre sujeitos livres”

A evolução dos quadrinhos do combate para o diálogo e do diálogo para o combate, não é nada mais do que o exercício da política entre super-heróis. Segundo Marcos Braga Júnior, no livro Michel Foucault: a legitimidade e os corpos políticos, “toda e qualquer relação social, ainda que sob regime de paz, seria trespassada de luta e reenviaria a uma situação de combate anteriormente manifesta de certo, futuramente emergente”. Talvez seja por isso, assim como nossos amigos super-heróis, vivemos brigando uns contra os outros.

Faça como o espelho: reflita!
Faça como o espelho: reflita!

Mas sério, se você gostou desse post não deixe de ler esse que citei lá em cima e reproduzo o link aqui embaixo, sobre guerras e conflitos do mundo dos supers e dos humanos fracotes:

Mais blá, blá, blá…

Leia também esse post abaixo e saiba porque é importante se posicionar na vida:

Os Quadrinhos me Ensinaram a Me Posicionar

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8 Comments

  1. na minha humilde opinião, o problema todo com a Guerra Civil é a perspectiva tendenciosa com que o evento, no geral, foi narrado. Um debate interessante poderia ter se desenvolvido, mas a certa altura preferiram vilanizar o Homem de Ferro e sua turma, afinal o que a Marvel parecia querer mesmo era criticar o Patriot Act de Bush através da posição resistente do Capitão América, que representaria a defesa das liberdades individuais do cidadão norte-americano vitimizado pela paranoia antiterrorista. Só que o Capitão América, na verdade, tá todo errado: ele não serve como representação da população norte-americana, ao menos na Guerra Civil (ela já está muito bem representada na história – são as pessoinhas que vivem sob constante risco de vida num mundo onde seres superpoderosos anônimos se acham maiores que a lei). O que ele queria no fundo era continuar vivendo com o privilégio do vigilante fascista com complexo de messias, impondo sobre todos sua moral e seu senso de justiça – e que se ferrem as autoridades legalmente instituídas. Como nos faz pensar o maior quadrinho do gênero, “quem vigia os vigilantes”, oras?

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    1. Americanos sempre tendem a fazer maniqueísmo em todas as questões. Vide winners x losers no ensino médio. Geralmente que não compartilha das suas ideias é, automaticamente, o inimigo. Também é uma perspectiva bastante brasileira, calcada nos grandes rivais do futebol. Fla x Flu, Gre x Nal. E hoje em dia petralhas x coxinhas. O mundo é mais que bem e mal e se deve relativizar os pontos absolutos para absorver as nuances. Mas a grande maioria não está nem aí para nuances e relativizações. Tá mais pra defecar na cabeça dos outros. Somos todos frutos da cultura de massa, queiramos ou não.

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      1. Concordo com você, mas a questão é que sustentar o argumento da defesa da liberdade individual se utilizando de super-heróis, como é feito com o Capitão América na Guerra Civil, é bem problemático. É difícil relativizar o absurdo que seria a existência real dos super-heróis da forma como eles existem e atuam nos quadrinhos. Funciona muito bem como fantasia escapista, mas não cabe numa democracia “saudável” do mundo real, como o próprio Alan Moore já tentou, digamos, “demonstrar”. Tem todo um subgênero de HQs super-heroicas dedicadas a especular sobre a distopia louca que seria viver sob a “proteção”, o “altruísmo” e a “benevolência” dos super-heróis. O grande mérito da Guerra Civil, pra mim, acaba sendo exatamente fomentar esse tipo de discussão sobre super-heróis, ideologia e política, porque pra mim a história em si é frustrante.

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      2. Sim, mas Vladek, tu não acha que é um bom ponto de partida? Por que, imagina, sem essa HQ, muitas pessoas não discutiriam ideologia(s). Claro que há diferentes proporções e diferenças enormes entre o mundo ficcional e os quadrinhos. Mas se a gente conseguir puxar o interesse das pessoas para discutir uma coisa séria através dos quadrinhos, já não é válido? Abs!

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  2. Exato, por isso digo que o mérito da Guerra Civil é esse, o de trazer esse tipo de discussão, ainda que a execução tenha sido, novamente na minha humilde opinião, medíocre. Na verdade o que mais me atrai nos super-heróis é exatamente quando os autores problematizam a ideologia subjacente às narrativas típicas do gênero ao trazê-las pra realidade. Como diz o pesquisador Marc DiPaolo, os super-heróis são um conceito fundamentalmente conservador, mas podem ser utilizados pra veicular valores progressistas e questionar autoridades quando conseguem transcender o objetivo mais raso e primordial da catarse pela violência. O mais frustrante pra mim, como leitor brasileiro, é que ainda vejo em fóruns de discussão um monte de fã conservador – lê coisas de gente como Morrison e Moore mas na política admira mesmo é um Bolsonaro. Enfim, parabéns pelo blog e pelo texto, me conforta conversar com leitores de HQs de mente aberta. Abraços

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  3. Olá..amo quadrinhos, não tive tempo ainda de fazer nada sobre, sou formada em engenharia civil, e hoje estou realizando um sonho…que é estudar cinema. Ah!! Sobre o filme Capitão América Guerra Civil, eu adorei o filme em partes, mas achei desnecessário a luta entre CAP e Iron Man!… achei desnecessário o Capitão ficar contra os amigos para salvar um amigo que por mais que estivesse “inocente” em seus crimes por ter sido manipulado, não sei o porque de terem feido aquilo. Eles tem que ver que, na vida real a justiça e a segurança nacional, iriam sim querer satisfação deles em tudo, então por mais que eu ame o Capitão América, tenho que ficar do lado do Iron Man! Porque não estou do lado de beleza física, e sim da verdade, é outra coisa… esse filme tirou a doçura e a bondade do Capitão. Detestei o final do filme! Não sou de puxarope saco dos meus ídolos, eu sou uma apaixonada por cinema. Então eu vejo os erros. BJos

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