É Uma Vergonha Ser Nerd? Sim ou Não?

Prazer, Guilherme VERGONHA Smee. Meu nome completo. ;-)
“Isto. É. Uma. Vergonha.” – Boris Casoy

SENHOR VERGONHA ALHEIA, PRAZER!

Eu me lembro a primeira vez que senti vergonha de ser nerd. Eu acabava de sair da banca em Erechim (minha cidade natal das grota) com uma revista Fabulosos X-Men, com o Gambit e a Vampira na capa. Atrás tinha uma propaganda da Queda do Morcego. Sentei no banco da praça para ler e meus colegas – que na época eu considerava amigos – chegaram e perguntaram o que eu estava lendo. Vendo o anúncio do Batman atrás começaram a me zoar por estar lendo uma revista do Morcegão. Desse dia então, não li mais quadrinhos em público lá naquela cidade.

Lembro também da primeira vez que senti vergonha de ser gay. Estava no carro com meu pai e falei alguma coisa com a palavra “bicha”. Meu pai me perguntou o que significava aquela palavra. Eu devia ter uns seis anos. Ele disse que era um homem que gostava de ser mulher. Eu, que tinha experimentado uns brincos de pressão da minha mãe para ver como é e adorava colecionar papéis de carta perfumados, já me senti culpado no cartório.

Aliás, culpa por nossas escolhas/não-escolhas/opções/orientações é uma coisa que a sociedade judaico-cristã ocidental está sempre disposta a atribuir às pessoas. Quantas vezes eu tive que lidar com ela e me trabalhar com terapia para me livrar dela. Mas isso não me impede de ouvir da minha família sempre que eu boto as culpas nos outros e nunca assumo responsabilidades. Aham, Cláudia, senta lá e pega essa pra ti, que eu não pego mais. E minha criação repressiva, quem assume a culpa? E todos os problemas que passei por causa dela?

Prazer, Guilherme VERGONHA Smee. Meu nome completo. ;-)
Prazer, Guilherme VERGONHA Smee. Meu nome completo. 😉

UM PROBLEMA CULTURAL. NOS DOIS SENTIDOS.

O mundo mudou e as coisas até parecem estar mais relativizadas nesse sentido de ser gay ou ser nerd. Até porque, de uma forma ou de outra, toda a cultura é construída por esses dois tipos de pessoas. Quem não gosta/ não está inserido na cultura tem GRANDES problemas. Maiores que os meus, garanto. O mundo mudou porque uma geração está mudando tudo, assim como aconteceu com gerações anteriores. O que dizia mesmo o The Who na letra de My Generation? Não era a música que nossos pais adoravam quando tinham nossa idade? E aí tipo asséam, eles não eram adolescentes? Pelo menos não o The Who.

A nossa geração cresceu assistindo desenhos animados, indo ao cinema para ver filmes de ação com Van Damme, Schwarzenegger e Stallonne, glorificando pessoas fúteis da mídia como Paris Hilton e Charlie Sheen, assistindo BBB e No Limite, ouvindo o girl power das Spice Girls e a liberdade de expressão de Gabriel, o Pensador, lendo Harry Potter e sabendo as cores dos Power Rangers e quais elementos formavam o Capitão Planeta, mas acima de tudo vivemos o auge da cultura de massa. Onde tudo feito na cultura era endereçado a “uma suposta massa homogênea com gosto também supostamente semelhantes”. Todo mundo queria crescer e ser publicitário e fazer comerciais premiados como os do Washington Olivetto. Todo mundo queria ser influente. Queria não. PRECISAVA. A mídia te obrigava a isso.

Os nerds sempre foram os que gostavam de cultura, mas não entendiam como podia o “zé-povinho” não gostar disso também. Por isso, estavam sempre excluídos do resto, sentados sozinhos com seus lanches, ou na primeira classe tentando desesperadamente escutar o que o professor falava, enquanto, lá no fundão, tinha uma algazarra. O mundo cresceu e, talvez por essa massificação da cultura, os nerds também aumentaram. Cada vez mais tem gente que curte séries, quadrinhos, games e coisas assim. É o símbolo de uma geração, claro.

Mas essa geração foi totalmente moldada POR UMA OUTRA GERAÇÃO, que trabalhava em meios de comunicação de massa e manipulava os gostos e anseios da que vinha por aí. Como diz Delírio, de Sandman, e eu adoro repetir: “Nossa existência deforma o universo. Isso é responsabilidade.”. Aí somos acusados de sermos irresponsáveis porque seguimos o Deboísmo, ou seja, costumamos fazer piadas com o que nos acontece, levamos menos a sério, sem tudo parecer um sacrifício interminável. Bazinga é bom, deixa a vida menos pesada, da mesma forma que os comunicadores da geração passada nos passaram que ela seria se fossemos ricos, famosos, gostosos e poderosos.

Shame On you. And INSIDE you. Fassbender = <3
Shame ON you. And INSIDE you. Fassbender = ❤

ESSE BLUSH É DA COR DA VERGONHA, PEÇA MARY KAY!

Essa semana li esse artigo acusando os nerds de serem uma vergonha. Mas eu acho que isso de que a articulista reclama é explicável. É um típico comportamento de gente que possui complexo de inferioridade. Como encarar um mundo que exige que você seja extremamente bem-sucedido em tudo se o máximo que você consegue é se reunir numa mesa de RPG e fingir que é um semideus numa história inventada por um amigo seu que se autointitula “o Mestre”? É olhando de cima para baixo para os outros, como a geração anterior à nossa costuma fazer com a nossa, como uma forma de demonstrar pode e de se afirmar, quando por dentro está morrendo com a falta de aprovação.

SHAgap

Então Orgulho Nerd, Orgulho Gay, sim. Pois atravessamos muitos preconceitos para nos estabelecermos como estamos. Ainda vamos conquistar muito mais, podem escrever. E não é porque tem algumas maçãs podres no cesto – e sim, tem muitas – que eu vou negar quem eu sou ou o que eu gosto. Toda amostragem de um grupo tem coisas não tão legais. Existem as bichas venenosas que detratam todo o segmento gay. Assim como existem nerds homofóbicos, machistas, racistas, que fazem uma má representação do segmento nerd. Não se esqueça que antes de gays e nerds, eles são pessoas. E tem defeitos e precisam melhorar assim como você, assim como eu, assim como a mina que escreveu o texto do link.

A nossa função, como pessoas, é mostrar não só o nosso lado ruim, mas o nosso lado bom e conviver com eles. Assim como fazemos com o das outras pessoas. É tentar mostrar como elas estão erradas e como elas fazem mal para você. É agradecer e promover bons momentos. Assim como tento fazer essas duas coisas com a minha família que me põe pra baixo. Mas no fim, a gente – gays, nerds, ou qualquer segmento “vergonhoso” da sociedade – tem de fazer é encarnar a poderosa Joan Jett e sair cantando pelas ruas da cidade: “I don’t give a damn about my bad reputation”, e buscar nossa felicidade. Vergonha é roubar e não poder carregar. Vergonha é ser corrupto e ser pego na Lava-Jato. Ser nerd, ser gay, é puro amor. De boa. 😉

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8 Comments

  1. Olá Guilherme, também sou de Erechim-RS. No meu caso vivi/vivo preconceito por ser negro e por ser nerd, numa cidade cheia de descendentes de italianos, alemães, etc conservadores. Eu hoje em dia voltei a colecionar, comprar quadrinhos etc, mas teve uma época na adolescência que larguei tudo dei quase tudo que eu tinha para poder ser aceito no grupo de amigos ficar com aquele menina que achava infantil essas coisas, bom lembra daquele episódio do TBBT que a Penny xinga o Leonard e ele decide vender tudo? Pois é mais ou menos isso, mais tarde voltei a colecionar e comprar de novo, há certos nichos de mercado hoje que não visa só crianças como público alvo mas pessoas mais velhas, tanto que Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, e outros estão voltando, e acredito que hoje há uma maior aceitação para com quem curte essas coisas, pois nerds estão a frente da administração de várias empresas, e algumas estão até se renovando ouvi outro dia que um membro por trás dos filmes da Marvel Studio foi demitido justamente por ter um pensamento machista que filmes com heroínas não dariam certo. O que eu vejo é mais preconceito entre os próprios nerds, uns não querem ser nerds querem ser otakus, outros querem ser gamers, galera tende a querer se fraqmentar, os mais jovens principalmente tendem a isso, e por qualquer coisa brigam, na época de infância a Guerra era SNES X Mega Drive e Sonic X Mario e veja só hoje tanto as empresas quanto os mascotes tem até jogos juntos e a galera se mata brigando por Playstation e Xbox como se fosse o Grenal. Por isso não importa se é gay nerd ou hetero todo mundo gosta de algo na vida, até as Senhoras que assistem novelas são nerds e não sabem pois é uma forma de série continua. Eu não tenho mais vergonha de colecionar coisas e quem quiser vai ficar comigo por que me aceita o resto do mundo irei ignorar.

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    1. É isso aí, Daniel! Nerd pode ser muita coisa. Gostei da comparação com o pessoal noveleiro. tem muita gente que é nerd e não sabe. É ser aficcionado por algo, se bobear até os esportistas gostosos são nerds por amarem tanto seus times de futebol. Vai saber, né?! Abs!

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  2. Mais um texto ótimo. Sou muito fã desse site por dois motivos: 1) você informa ao mesmo tempo que diverte, apostando num tom de humor que gosto muito; 2) você trata a diversidade de gêneros e orientações de forma positiva, ora em artigos específicos, ora em meras citações. Em suma, gosto da Splash Pages por que o responável é nerd E gay. Os leitores de HQ precisam de mais formadores de opinião como você, brother. Abraços e parabéns.

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  3. Como gosto de dizer: tudo que é diferente, “fora do normal, do comum”, as pessoas (massa) tendem a achar estranho, isto é normal do ser humano, temos é que aceitar e nos adequarmos a estas situações. E quando falo de estranho e diferente, é desde uma pessoa deficiente, ter seu próprio estilo ou mesmo já com seus quase 30 anos (eu) ainda ler quadrinhos…

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