Sem Alarmes. E Sem Surpresas. Por Favor.

spoilerNum mundo cada vez mais cercado de spoilers, todo mundo já sabe o que vai acontecer no filme mais badalado do ano antes dele estrear. Todo mundo sabe como aquela megassaga vai acabar antes de ter começado. Na internet somos inundados de trailers, de comerciais, de comentários dos artistas e dos diretores sobre os filmes que vêm por aí. Praticamente acabamos vendo o filme inteiro antes de ele começar. O resultado disso não podia ser outro: frustração.

Vivemos uma cultura dos teasers, por isso muita gente se frustra. Por isso, muita gente espera uma experiência além dos produtos culturais. Seja aquele site viral ou ainda os produtos licenciados do filme. Mas a frustração vem se tornando um mal com que a sociedade atual tem de lidar diariamente. E, antes da frustração, ela precisa lidar com a ansiedade. Como diz aquele meme: “Crie unicórnios, mas não crie expectativas”.

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É uma sociedade que evita alarmes, que evita surpresas, por favor. É uma sociedade que não brinca se não for do jeito dela. E se continuar não sendo, não vai lutar para transformá-la, vai sim, descontar na pessoa mais próxima por causa das suas ansiedades e frustrações. Assim são os nerds de fóruns, RPGs, do Facebook, que são ansiosos e frustrados demais para estabelecer uma conversação saudável. Logo partem para ofensa. Logo dizem que não gostaram sem entender, sem nem ter lido todo o texto.

Os spoilers e o fracionamento dos filmes em miniteasers são alimentadores dessa cultura do quero/não quero que aconteça, como se tivéssemos um pensamento mágico que pudesse controlar todas as coisas do mundo. A frase “hoje todo mundo é crítico”, se ampliou. Hoje todo mundo é roteirista, diretor, produtor, editor, desenhista. Sem nem ter se dedicado um segundo para estudar no que está embasando sua parca opinião. A frase “hoje todo mundo é crítico” se tornou “hoje todo mundo é um control freak”, do momento que acha que a vida das pessoas é filme ou gibi e pode editá-la ao seu bel prazer.

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Se formos analisar as produções e a indústria cultural pelo viés da psicanálise e comparar tudo como uma relação sexual, podemos separar ela em duas partes: os Doadores e os Receptores. Os doadores são aqueles que sentem prazer doando – não, não é DANDO, engraçadinho, é se doando. Os doadores são aqueles que se sentem felizes produzindo e vendo que o que produzem é bem aceito e difundido. Os receptores são – sem ser engraçadinho – os passivos da história. Não produzem, apenas consomem. Não se doam, apenas aguardam. Apenas anseiam, apenas se frustram. Os receptores – ao meu ver – querem se tornar doadores, querem produzir, mas não conseguem. Por isso jogam suas frustrações sobre os que produzem, e se tornam esses control freaks que querem dar pitacos em tudo que aparece no mundo como se tivessem um PhD naquilo. Ansiedade e frustração de uma sociedade de indivíduos cada vez mais prostrados e acomodados com o que tem e se veem no direito de apenas julgar e não buscar construir.

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Mas já que estamos falando de sexualidade – e como é bom falar disso, né?! – vou aproveitar para falar do princípio de prazer, ou seja lá como os estudiosos chamam isso. Eles se dividem em aceleração de prazer e retardamento de prazer. Como eu falei antes, vivemos numa sociedade da ejaculação precoce: todos querem AQUILO e querem AGORA. Ninguém quer mais viver o prazer dos pequenos momentos, das pequenas descobertas, dos detalhes em que se encontram o diabo e também DEUS. Todos tratam os produtos culturais como aquela rapidjeenha no banheiro da buatchy. As pessoas querem um resumão pra se satisfazer e dizer: eu fiz. Como se fossem no Rock in Rio não para curtir o show, mas pra comprar a camiseta “ROCK IN RIO: EU FUI!”. Até porque essas camisetas do Rock in Rio Eu Fui podem ser compradas por quem não foi no Rock in Rio.

Não dizem que essa é a geração “só a cabecinha”? Não existe mais o aproveitar a experiência, existe sim, é um trofeuzinho na sua Playstation Store da Vida. Alguém vai ganhar um badge se leu este texto até aqui? NÃO!

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2 Comments

  1. Oi Guilherme,

    parabéns pela análise precisa do (triste) momentum humano dos dias atuais. Vivo dizendo que essa Era do Selfie tirou a capacidade de contemplação das pessoas. Tudo é superficial, tudo é efêmero, pret a porter ao cubo… nossa viajei, rs, mas é a minha percepção.

    Já pensou O Império Contra Ataca nos dias de hoje? Todo arrebatamento que a minha geração (sou de 73…) experimentou nos cinemas estaria perdido por causa dos sites omeletianos que insistem em colocar spoilers já no título das matérias. Até fiz uma brincadeira sobre isso outro dia, posso publicar aqui se te interessar.

    Grande Abraço,

    Zé Carlos.

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    1. É verdade, Zé Carlos! Seria como aquele episódio dos Simpsons que o Homer sai do cinema falando que o Vader é pai do Luke. Hehehe! Bem, pode postar, se for coisa de bom gosto… Abs!

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