Qual o Limite da Censura?

Hulk esmaga Censurinhas!

Afinal, alguns quadrinhos devem ser deixados longe das crianças? Ou deveriam ser deixados longe de alguns adultos também? Quando se fala em censura se vem à mente uma coisa negativa, a proibição da expressão humana. Mas censura também está ligada à classificação etária, pois os produtores de conteúdo, pais e psicólogos estão preocupados com o acesso das crianças a esse material.

Hulk esmaga Censurinhas!
Hulk esmaga Censurinhas!

Tocando nesse ponto, no que se refere aos quadrinhos, no final dos anos 50 nos Estados Unidos ocorreu uma caça às bruxas aos comics, liderada pelo psiquiatra Fredrick Wertham. O profissional afirmava que, através de estudos feitos por ele, os quadrinhos eram os responsáveis pela delinquência juvenil. O Superman ensinava as crianças a pularem pelas janelas. Batman e Robin incentivavam à homossexualidade. Mas a verdade é que aquela era a “geração perdida”, crianças que cresceram sem a tutela dos pais. Os homens estavam envolvidos com a guerra, e as mulheres, trabalhando nas fábricas de armamento para sustentar a família. Logo, as crianças ficavam ao relento.

Wertham foi seduzido pelo estrelato
Wertham foi seduzido pelo estrelato

Isso não impediu que se abrissem diversas comissões no Senado americano investigando o conteúdo dos quadrinhos. Claro, alguns era de mau-gosto, como a história Foul Play, da editora EC Comics, que mostrava um time de beisebol competindo usando os restos mortais dos colegas. A EC Comics, portanto, era a principal investigada da comissão. O que não queria dizer que não havia um complô das outras editoras, como a DC Comics, para o fim da sua concorrente, pois a EC Comics fazia um sucesso estrondoso à época com suas histórias de crime, horror e ficção científica.

Foul Play: uma das histórias mais nefastas de todos os tempos dos quadrinhos.
Foul Play: uma das histórias mais nefastas de todos os tempos dos quadrinhos.

Dessa maneira, a EC Comics acabou fechando e foi criado o Comics Code Authority e seu famigerado selo que garantia, ao ser exibido na capa de um gibi, que aquela publicação era “saudável” para as crianças e às “famílias tradicionais”. Essa censura aos quadrinhos acabou gerando uma época mais inocente nos quadrinhos, em que os quadrinistas tinham de rebolar pra fazer histórias inventivas. Essa época ficou conhecida como Era de Prata.

Com o tempo, o código acabou sendo flexibilizado. Nos anos 70, as criaturas sobrenaturais foram permitidas novamente, o que gerou uma onda de quadrinhos de terror. Nos anos 80, as drogas estavam permitidas nos gibis. Mas ali pelo ano de 2001, as editoras começaram a perceber que o Código dos Quadrinhos havia se tornado obsoleto, com muitas linhas e revistas se dedicando exclusivamente a leitores maduros.

Depois da cama, uma boa chuveirada!
Depois da cama, uma boa chuveirada!

Aí voltamos à velha questão, os quadrinhos seriam para crianças ou para adultos? Percebe-se, principalmente em épocas de rede sociais, que nem as crianças nem os adultos sabem interpretar direito uma história em quadrinhos – quiçá uma notícia, um livro ou até um meme do Facebook. Vide V de Vingança, Cavaleiro das Trevas, Watchmen. Mesmo dentro dos bastidores dos quadrinhos, essas HQs foram mal interpretadas, gerando uma onda que foi chamada de grim’n’gritty, de personagens cruéis e raivosos, rangendo os dentes e portando armas gigantes.

Não sabe de nada, inocente!
Não sabe de nada, inocente!

Não era bem isso que V, Cavaleiro e Watchmen queria discutir, mas sim o limite da violência e da participação do Estado na vida do cidadão, num tempo em que a censura comia solta no mundo inteiro. Tempos como hoje, em que o conservadorismo vem abocanhando as mentes dos cidadãos. Por isso, quando há um inimigo em comum é mais fácil dominar a mente do povo. Nada une mais as pessoas do que saber quem odiar. Mas nada afasta as pessoas do que ter que pensar sobre isso. Talvez, essa seja a razão porque esses quadrinhos são indicados para leitores maduros, e não para leitores adultos.

As histórias são como sonhos. Não devem ser censurados, mas o significado é aquele que o nosso “eu desperto” dá a eles. Talvez uma história com morte e sexo passe despercebida por uma criança que ainda não tem aquilo como maldade, mas a um adulto, ela pode ser muito perniciosa e gerar reações que não foram previstas pelos autores da história. Como os sonhos, os efeitos e significados das histórias estão no subconsciente e, uma hora, quando menos percebemos, eles vêm à tona para nos atormentar ou nos tornar mais conscientes de nós mesmos.

Nasci para chocar!
Nasci para chocar!

Porém, quando esbarramos em cartuns polêmicos como os do jornal francês Charlie Hebdo ficamos pensando se realmente não deveria haver uma censura maior para capas como as dos imigrantes ou do corpo do menino sírio, Aylan Kurdi, na praia. Essa discussão, portanto, pode ser como ouvir música sertaneja, pagode e funk. Pode ser de mau gosto para alguns, outros, podem adorar.  Cabe ao produtor e aos consumidores da história classificar na sua mente o que é de bom e o que é de mau gosto e se realmente aquele tipo de produto, que dissemina ideias desse tipo pelo mundo, vale a pena a audiência.

Voltemos, então, à pergunta título do artigo: “Qual o limite da censura?”. Todos temos nossa autocensura e sabemos quais temas nos tocam mais e quais passam – a princípio – livremente pelas nossas mentes. Cada um sabe dos seus limites. Alguns são mais sensíveis à mortes brutais, outros à cenas de sexo explícito, outros à temas liberais e outros à exploração de personagens femininas. Os temas polêmicos são sempre bem-vindos, quando tratados de uma maneira que gerem discussão, que sirvam para a história e não apenas para aparecem ali gratuitamente só para chocar. Nesse último caso, a cena já não é polêmica, mas apelativa. Essa linha tênue entre a polêmica e a apelação, que nem sempre é a mesma para todos, deveria ser uma questão perene na mente dos produtores de conteúdo e de material cultural, para aplicar uma censura que muitas vezes falta a alguns: a autocrítica.

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8 Comments

      1. ah certo!! saco algo de HQ e de mangá! Vou falar sobre censura na TV dos animes (derivados dos mangas). Alegaram a violencia etc etc inadequado pra criança etc etc
        Ironicamente o governo jamais incomodou na epoca o SBT por causa da banheira do Gugu. Ou programas policiais sensacionalistas…

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      2. Oi Stefano! De certa forma nossas noções do que era permitido e não foi mudando com o tempo. Da mesma forma, que nos anos 90 a Xuxa e as Paquitas dançavam e cantavam “Don’t like short dick man” no Planeta Xuxa e todas as crianças adoravam. E os adultos permitiam. Então, é uma questão de perspectiva. =P Abs!

        Curtido por 1 pessoa

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