Divas Divinas: The Wicked + The Divine, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie

What are you looking at? Vogue, let body go with the flow...
Você é divino ou maligno?
Como uma Deeeeusaaa você me mantéééém…

Imagine se cantores pops fossem a nova encarnação de um poderoso panteão que domina subliminarmente a humanidade por anos. Gente parecida com Beyoncé, Rihanna, Florence + the Machine, Usher e Pink resolvendo como o planeta deve girar. Agora, imagine que você é uma fã comum desse pessoal e se vê envolvida com eles. Essa é a trama de The Wicked + The Divine.

Essa é a mais nova criação conjunta de Kieron Gillen e Jamie McKelvie, a dupla que fez a segunda temporada dos Jovens Vingadores, com histórias loucas, nonsense e divertidas. Mas a música e o ocultismo já permeia a dupla há mais tempo. Juntos, os dois escreveram três fases da série Phonogram, toda em preto e branco que tratava da magia envolvida com o rock underground inglês.

The dog days are o-o-over, the dog days are go-o-one...
The dog days are o-o-over, the dog days are go-o-one…

Laura é uma jovem negra inglesa e é a nossa protagonista. Ela está no show de Amaterasu, uma deusa hippie que lembra Florence. Então, ela é “tocada”, pela deusa e, num momento de húbris, desmaia. Quando acorda, está ao lado de Luci (apelido de Lúcifer), uma mulher andrógina que lembra a Pink. Ambas são levadas pela polícia para julgamento sobre o que aconteceu na boate mas, de repente, Luci, com um estalar de dedos, explode a cabeça do juiz e dos policiais numa explosão tecnicolor que poderia ter saído de uma viagem de ácido. Mas não. Era real.

Através do envolvimento com Luci, Laura acaba conhecendo todo o Panteão. Gente com nomes como Baal, Anansi, Morrigan, além dos já citados Amaterasu e Lúcifer. Se você não está por dentro de mitologia e ocultismo, vou te dizer qual é o padrão. Todos esses deuses são considerados demônios em suas religiões. Só que mais do que isso, eles são os mentirosos, os manipuladores, aqueles que colocam a existência em xeque por causa de suas traquinagens.

It's mindblowing!
It’s mindblowing!

Quando Lúcifer se apresenta para Laura, diz ser “o pai das mentiras, o adversário, o senhor das moscas, a velha serpente, o deus deste mundo, o dragão, a estrela da manhã, Apollyon, etcetera, etcetera”, todos esses são os epítomes do diabo. Mas também não deixam de ser os epítomes dos outros deuses envolvidos. Por exemplo, poderiam todos ser utilizados para descrever Loki.

O título The Wicked (O Maligno) + The Divine (O Divino) mostra essa duplicidade que várias mitologias carregam. Muitas mitologias retratam seus deuses como falhos, ao mesmo tempo superpoderosos e ao mesmo tempo cheios de defeitos que podem provocar o final da existência. Tão divinos, tão humanos.

O mal, assim como o bem, são critérios humanos. Dessa maneira, os humanos criaram um Deus único que representava todo o bem e perfeição humanas. O Deus das religiões judaico-católico-islâmicas. Fazendo isso, concentraram todo o mal nos humanos: os pecados. Logo, os humanos não deveriam ser maus para atingir a perfeição. Mas se todo o mal está concentrado na gente e Deus não criou o mal, de onde ele vêm? E como poderemos atingir nossa redenção se somos todos falhos e malignos?

Everybody wants to rule their world.
Everybody wants to rule their world.

O título de Gillen e McKelvie fala sobre esse “mal’. Esse mal que no mundo de hoje chamamos de influência. Esse mal é hoje perpetrado pelos veículos de comunicação, pela internet e sim, onde os autores acertam em cheio: os ídolos pop. Por isso é tão comum vermos pastores e quetais condenando gente como Madonna e Lady Gaga dizendo que são cria do demônio. Elas podem ser mais influentes que uma igreja inteira. Elas carregam o mal chamado mídia e marketing pessoal, ou como diria RuPaul, “charisma, nerve, uniqueness e talento”.

Jesus Cristo era o popstar da época dele. Era Ele que infiltrava o “mal” na cabeça das pessoas e as levava a pensar diferente. Não é por acaso que os romanos O perseguiam: a religião criada por Ele tinha arrebatado milhões de seguidores e estava ruindo o império baseado nas divindades gregas. Até que, chegou um momento que o Império Romano não conseguia deter o avanço do cristianismo e resolveu adotá-lo como sua religião oficial. Qual foi o motivo? Obter “influência”.

What are you looking at? Vogue, let body go with the flow...
What are you looking at? Vogue, let body go with the flow…

Um dos princípios do wu wei, uma doutrina do taoísmo (Lembra? Aquela que tem o yin-yang? Um círculo com partes brancas e pretas e com um pinguinho da cor contrária dentro dele?) é levar conosco sempre o que temos de bom e de ruim, e nos aceitar como somos, seja com o povo nos chamando de santos ou de insanos. No mundo das influências é sempre bom lembrar da máxima: “de boas intenções o inferno está cheio”. Por isso todo deus tem um pouco de demônio e todo demônio tem um pouco de deus. The wicked + the divine, senhores.

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6 Comments

  1. ‘Todos esses deuses são considerados demônios em suas religiões. Só que mais do que isso, eles são os mentirosos, os manipuladores, aqueles que colocam a existência em xeque por causa de suas traquinagens.’ Uai, e Minerva? E as Nornas? Odin?

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