Analisando Pax Americana, de Grant Morrison e Frank Quitely

Os personagens da Charlton em Pax Americana

Segundo as críticas, Pax Americana, é o melhor especial de Multiversidade, a série de Grant Morrison que reimagina e reordena o Mutiverso da DC Comics. Também pudera, a história é uma homenagem a Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, publicada em 1986.

Os personagens da Charlton em Pax Americana
Os personagens da Charlton em Pax Americana

A DANCINHA DA CHARLTON

Pax Americana apresenta os personagens da editora Charlton, dos quais Besouro Azul e Questão são os mais conhecidos. Esses personagens deram origem a Watchmen, quando a DC comprou os direitos de publicação da Charlton. Em Watchmen, Besouro Azul é o Coruja e o Questão é Rorschach.

O personagem mais fascinante, entretanto, em Pax Americana é o Capitão Átomo, um autista capaz de mudar o mundo com um pensamento. O problema porém, é que ele não pensa como nós. Suas ideias possuem outra lógica. O trato dado por Morrison ao Capitão Átomo – o Dr. Manhattan de Pax Americana – é semelhante ao que Geoff Johns fez com o Starman na Sociedade da Justiça, porém, com maior profundidade, mesmo que em uma só edição. O Capitão Átomo aqui é o Louco das cartas do Tarô. Com lógica desconexa, apresentando uma realidade difusa e divergente, muitas vezes pode se revelar o mais são e capaz de todos os envolvidos.

A primeira genialidade de Pax Americana é fazer uma homenagem à homenagem usando os heróis que deram origem à homenagem. Confuso? Bem, as histórias de Morrison são assim. Mas quando se chega ao final se é bem recompensado.

O processo de cores de Nathan Fairbarn
O processo de cores de Nathan Fairbarn

AINDA ENCONTRO A FORMA DO AMOR

Eu já falei uma vez que estamos vivendo a era dos quadrinhos da forma. Pax Americana é a epítome dessa conclusão. Vamos à segunda genialidade da HQs: ela começa com o assassinato do presidente, mas não de uma forma qualquer, mas sim de forma retroativa. De forma retroativa e mudando o enquadramento da cena. Simplesmente de cair o queixo. Morrison e Quitely já haviam trabalhado em algo semelhante em We3, fazendo umas cena de ataque dos animais robóticos com time-frame, mas aqui, nessa abertura, parece funcionar melhor.

Vale mencionar que, em homenagem a Watchmen, a HQ também funciona dividindo seu grid em quadrados múltiplos de 8, enquanto Watchmen funcionava com múltiplos de 9. Também podemos reparar outra influência da forma da HQ de Moore e Gibbons: a simetria. A tal temível. Em Pax Americana, muitas cenas são espelhadas, gerando lindas composições de página.

A Simetria do Oito
A Simetria do Oito

QUANDO VOCÊ OLHA PARA O ABISMO, O ABISMO OLHA PARA VOCÊ

Simetria. Ah, essa temível terrível incrível. Foi por causa dela que o Presidente Haley, peça-chave na nossa história fez o que fez. Ao final da história sabemos seus motivos. Mas podemos notar que ele possui uma certa ideia fixa em “restaurar a simetria a um mundo quebrado”. Não por acaso, ele usa um anel com o número 8, que, invertido é o símbolo do infinito (mas já vou chegar aí), oito também é o espectro de cores que o Questão explica em dada cena, oito são os integrantes da Pax Americana (ou não?).

O Presidente Haley diz ter encontrado o algoritmo primordial, aquele padrão nas coisas que faz tudo acontecer da maneira como acontece. Quando era criança, Haley viu um quadrinho que seu pai desenhava e se assustou, mais pra frente, ele mostra esse quadrinho para o Capitão Átomo, para que ele desempenhe um papel importante para o bem do mundo. O Capitão volta no tempo, encontra o jovem Presidente e revela para ele o segredo do universo.

Essa é a lógica misè-en-abysme de Pax Americana. Um evento é catalisador do outro que acaba gerando o primeiro. Aqui a ação gera a reação que causa a ação. Por isso o oito e o símbolo do infinito. O oito é o número que representa mais que a perfeição, já que o sete é o número perfeito. O oitavo estágio do espectro, que diz o Questão, seria o estágio de Pax Romana, nome dado pelos historiadores ao período de dois século de paz durante o Império Romano.

A violência do Pacificador
A violência do Pacificador

ESPELHO, ESPELHO MEU…

“A vida, pelo contrário, parece um quebra-cabeça… um labirinto de contradições”. Diz o Presidente Haley para o Capitão Átomo. “Existe algum princípio ordenador debaixo da loucura toda?”, ele continua. Buscar um sentido para a vida nunca levou as pessoas à sanidade. A busca pelo controle, geralmente acaba deixando as pessoas mais loucas do que sãs. Aqui, nessa cena de onde tirei essas citações temos um espelho. Enquanto o Presidente Haley é um maníaco por controle, o Capitão Átomo é caos puro, a destruição descontrolada. Um é a simetria do outro, um faz o outro se tornar infinito.

Como somos lembrados por Grant Morrison em seus quadrinhos da Multiversidade, todas as edições mostram que um exemplar de um certo comic book está mudando aquela realidade. Os quadrinhos, nessas histórias, são como força-motriz dos mundos. Podemos notar uma simetria e um padrão ocorrendo em todas elas, ainda que um quadrinho seja produzido numa e noutra Terra.

Dessa vez, Morrison elevou uma de suas marcas pessoais, a metalinguagem, ao cubo. Ele a usa não para esboçar um personagem, mas um universo ficcional inteiro, que depende da própria ficção para se definir e continuar existindo. Talvez da mesma forma que os seres desta Terra, a nossa Terra, a Terra Zero, se apoiem na ficção para definir seus mundos e continuar existindo numa realidade cada vez mais caótica e sem sentido nenhum.

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19 Comments

  1. Smee, essa HQ já saiu aqui ou você leu a gringa? Comprei o primeiro número de Multiversidade, mas não sei se vou seguir acompanhando, ando sem gás para supers. Mas essa sua análise aí me instigou…

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    1. Então, Pax Americana saiu na edição #3.
      Na #2, tem os Justos, que é bem legal.
      Na #5 é o Guia do Multiverso
      Na #4 é o Mundo dos Trovões (SHAZAM!)
      E deve vir ainda Mastermen (Dos heróis da Quality com o Lee desenhando)
      Recomendo fortemente a leitura apesar do mix estroncho.

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  2. Li faz dois dias Pax Americana, mas acho que deixei passar algumas coisas. Vou ler de novo a partir do seu texto Guilherme! Abraços!

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  3. não é o Watchmen dos novos tempos pois:
    1. não responde ao estado atual dos quadrinhos
    2. não tem uma trama clara, quanto mais várias como Watchmen
    3. é obscuro em vez de esclarecedor
    4. autores no centro em vez da obra no centro
    5. as namoradas que só lêem algumas obras acham um saco

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  4. Outra leitura legal de Pax Americana é a de que o Capitão Adam percebeu que eles estavam presos ao grid de 8 e, em algumas páginas, ele conseguia sair dele. Muitos enquadramenos do Quitely enfatizavam essa prisão, geralmente com composições verticais (gaiola do pombo, grade da Casa Branca, capa do Jaqueta Amarela depois de morto)…

    Pax Americana também trata da pista que Alan Moore deixou em Watchmen pra dizer que o Roscharch é gay: o perfume que o Ozymandias havia lançado para esse público e que é encontrado com Roscharch quando ele é preso. Na cena da luta entre o Questão e a Sombra da Noite, os panfletos nas paredes alternam entre os de um perfume e outro com a identidade secreta do Questão apontando para frente.

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    1. Interessante, Luiz Felipe! Sempre é legal ouvir a opinião dos outros sobre outra perspectiva, sempre existe muitas maneiras de se aprender com a visão alheia, principalmente no que tange à interpretação de histórias. Abraços!

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