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A Arte e a Arte de Perturbar os Confortáveis

Um dia você leu um quadrinho que a história não tinha uma ordem linear. A história, a princípio, não fazia sentido, mas o negócio é que você gostou daquele quadrinho. Ele te provocava uma sensação que você não sabia explicar, mas sim, era de simpatia. Você não ia doar aquele quadrinho pra campanha de alfabetização muito menos vender num sebo. Você ia ficar com ele e, quem sabe um dia, tirar um significado mais claro.

Talvez você não tenha percebido, mas coisas assim acontecem todo o dia com toda forma de arte. Pegue a dança contemporânea, por exemplo. Não há um significado para a nossa contemplação, apenas há a nossa contemplação de corpos humanos em movimento ritmado que querem nos passar algum sentimento. Da mesma forma as poesias dadaístas ou surrealistas, ou aquela poesia que você leu no ônibus e te fez dar um sorrisinho involuntário. Tem também aquela arte que você viu na Bienal. Parecia um monte de lixo, mas era um monte de lixo que deu trabalho para se arranjar daquela forma e, olha, até que não ficou mal daquele jeito. E você sorriu de esguelha.

ARTthing

A humanidade vive de dois movimentos: o de criar e o de compreender. Esses também são os dois lados da produção da arte e de toda comunicação em geral. Do produtor e do receptor. A arte é uma comunicação. Algumas vezes é um grito, outras vezes um sussurro, uma leve sugestão. Ou é uma sirene tocando desesperada e você precisa ir lá e apertar o botão para que ela pare. Quando você ouve um grito, procura saber de onde ele veio e por que razão estão gritando. Se há um sussurro você tenta identificá-lo.

Esse grito e esse sussurro são os atos criadores do artista. A nossa busca por resposta é nosso afã pela compreensão. Preencher buracos é o destino da humanidade. Assim ela se dissipa, reproduz e morre. E se renova. Buscar o que está nas entrelinhas e estar atento aos gritos e sussurros é o que fazemos todos os dias. Esse ato criador do artista está cheio de outra coisa, que fica bem ali, no meio entre a produção e a recepção. Que está dentro da própria mensagem. Isso se chama angústia.

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Mesmo quando o ser humano está paralisado nas depressões do dia-a-dia ele está criando algo. Ainda que essa criação não seja sadia e o público seja ele mesmo. Por outro lado, existe a angústia construtiva, que nos leva a criar, que nos leva a exibir e lamber nossa cria e faz com que transponhamos a barreira do nosso próprio desenvolvimento.

Para nos desenvolvermos, buscamos entender o outro, nem que seja por uma curiosidade mórbida, pela fofoca sem nenhum pingo de empatia. Queremos saber a razão daquele grito. Precisamos buscar um caminho para o que vamos fazer com aquele sussurro. Um importante psicanalista contemporâneo chamado Donald Meltzer afirma que “a mente é a função geradora de metáforas que usa o grande computador – o cérebro – para escrever sua poesia e pintar seus quadros de um mundo cintilante de significado. E significado é, em primeira instância, a manifestação fundamental das paixões da relação íntima com a beleza do mundo”.

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“Troco minha arte por um sorriso”, esse devia ser o meme de todo artista. Mas, infelizemente, o artista precisa sobreviver e por isso, o sorriso acaba sendo uma metáfora – a mais linda figura de linguagem – para sustento, divulgação, cesta básica e salário mínimo. Mas também existe o significado básico do sorriso: a satisfação. Se alguém sorri é porque está satisfeito com algo, se está satisfeito é porque encontrou um significado para aquilo. Se odiou a obra e xingou muito no Twitter é porque também se encontrou um significado. Talvez ele não tenha sido tão complexo como se esperava, mas a arte pode provocar desde as mais singelas retrações de músculos até incansáveis revoluções. Ninguém passa incólume por uma peça de arte. Hoje em dia todo mundo é um crítico.

A angústia do ser humano já criou tanta mensagem, tanto significado, que hoje temos a tal bagagem cultural. O pós-modernismo já não cria, copia e recopia, num ctrl+c/ctlr+v infinito de vórtices de referências. Isso é ser pós-moderno. Se apropriar do que já está aí. É o que se chamava antigamente de hipertexto. Hoje talvez se chame meme.

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Não é só o Capitão América que, para sobreviver num mundo em que se encontra deslocado, precisa captar a o que as pessoas estão se referindo. Essa é a maneira da humanidade atual satisfazer seus desejos – copiando e colando coisas e fazendo bricolagens como se a vida fosse um trabalho de patchwork para que cada referência se encaixe naquele buraquinho que precisa ser preenchido, solucionando problemas que o próprio ser humano se impôs.

Para quem cria artes, mesmo as lidas e relidas eternamente, pois todas são tiradas do inconsciente coletivo junguiano, a vida acaba sendo uma colheita. De sons, cheiros, texturas, sentimentos, lembranças, pois tudo são referências e a arte busca sempre tampar aquele buraquinho da angústia.

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Sempre, a humanidade em tempos de crise, se voltou para a arte como forma de ou de suplantar suas limitações ou de retratar seus anseios, criando assim um efeito catártico, de forma vicariante. O escritor e psiquiatra Cyro Martins tentou explicar a relação entre artista e público: “Na plenitude da função expressiva e catártica, a obra criada se impõe como objeto bom, revalorizador do ego, para o agente da criação e para o espectador. Para o agente, porque vivencia a obra como um complemento do próprio ser, que o ajuda, através do artifício da projeção, a configurar e a corrigir a representação que faz de sua auto-imagem e a ampliar a compreensão no sentido da sua existência. Para o espectador, mediante a função especular e as consequentes oportunidades de identificação projetiva inerentes a toda produção conceitual ou artística, e mais precisamente porque lhe proporciona uma experiência no intemporal. E assim, por momentos, o espectador é imortal como supõe que seja o criador”.

A obra de arte é imortal. E é essa imortalidade que o ser humano busca nos dois movimentos citados anteriormente: a criação e a compreensão. Quanto mais criamos, mais de nossos anseios, angústias, dúvidas e horrores mostramos ao mundo que, através de uma compreensão macro poderá interpretar e fazer juízo do que, daquilo tudo, é útil ou não para eles.

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A dicotomia entre o mundo externo e interno sempre esteve presente no nosso imaginário, no nosso inconsciente. Principalmente na nossa pós-modernidade de redes sociais que acabam revelando mundos internos que o mundo externo não tem mesmo consciência, como uma relação consciente/subconsciente. O significado da nossa arte, em tempos de Facebook, é criar memes perpétuos, que gerem pelo menos um “Curtir” e, se alguém gostar e quiser compartilhar com os amigos, vai ser um incentivo para o sustento do artista e da linha de criação e compreensão da humanidade.

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