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Analisando: Sandman Prelúdio – Volume Um, de Neil Gaiman e J.H. Williams III

Ok, o negócio é o seguinte: todo mundo estava esperando que a Panini Comics publicasse Sandman Preúdio (ou Sandman Overture nos EUA) como um encadernado de luxo reunindo todas as suas edições. Mas a decisão da editora foi publicar em três encadernados de capa dura com apenas duas histórias cada. Isso me lembra uma foto da editora divulgando o encadernado do Massacre que saiu essa semana. Se tratava do encadernado e um monte de moedas de Real atrás. Não entendi qual o sentido. Seria uma mensagem subliminar que a Panini quer todos nosso níqueis? Seria uma mensagem dizendo que Massacre é um desperdício de dinheiro? Ou que o encadernado é caro? Mistérios do marketing da Panini.

Sonhos são coloridos?

Sonhos são coloridos?

Mas vamos falar de coisa boa. Top Therm. Sandman Prelúdio tem seguido uma fórmula de fazer uma prequel – a história antes da história – para histórias consagradas. Isso talvez tenha começado lá com os primeiros episódios de Star Wars. A coisa continuou na literatura com Harry Potter e nos quadrinhos o caso mais polêmico é Antes de Watchmen, que você pode ler uma avaliação aqui. Sandman Prelúdio conta como o Lorde Morpheus, o Sonho, ficou aprisionado quase meio século.

Só que diferente de Watchmen em que Alan Moore era contra uma prequel, Sandman contou com roteiros do próprio Neil Gaiman. Ele já havia retornado ao mundo do Sonhar com a graphic novel Noites Sem Fim, mas dessa vez tínhamos uma história completa e não uma antologia. Embora devo lembrar que a antologia Noites Sem Fim já flertava com uma história do passado de Morpheus.

Sonhos, sonhos e sonhos, o que é, o que são, o que dizem sobre você?

Sonhos, sonhos e sonhos, o que é, o que são, o que dizem sobre você?

Pra começar vamos pegar a capa de Sandman Prelúdio: ela é bem lisérgica, ou seja: parece uma viagem de ácido, ou parece quando a gente fica olhando muito tempo pra um ponto luminoso e depois olha para uma parede branca. As cores de Dave Stewart são lindas e merecem ser destacadas. Ao final da edição há uma amostra de seu processo de trabalho. Começamos a viagem com uma viagem de ácido talvez porque viagens, passagens por portais e fases, são um tema querido por Gaiman. Veremos isso mais pra frente.

Já falei aqui no blog que estamos vivendo uma fase em que os quadrinistas estão mais ligados à forma dos quadrinhos e como seu layout é composto. Se, numa primeira olhada, a HQ em questão possa parecer demasiadamente lotada de firulas, como a HQ Homem-Aranha: 99 Problemas resenhada aqui, ao lê-la a impressão é outra. Ao contrário da HQ citada, o layout serve para história. A justificativa é que a impressão que se dá é que não estamos folheando uma HQ, mas lendo numa folha contínua e contínua em que elementos anteriores vão se agregando e fundindo ao bel prazer de seus produtores. É assim quando nuvens, por exemplo, se tornam o olhar do Coríntio – o pior de todos os pesadelos.

Isso que é devorar alguém com os olhos...

Isso que é devorar alguém com os olhos…

Nessa cena de página dupla, os dentes dos olhos do Coríntio são os quadros da cena. O reflexo de seus olhos/dentes são nossa janela para a história. Aqui estamos nós de novo lidando com passagens: os olhos são a janela da alma, mas e quando esses olhos são bocas famintas por exatamente isso… olhos? Depois nos deparamos com um personagem de nome George Porticulus. Já remete à Portia uma das protagonistas de Lugar Nenhum, romance/série de tv/radionovela/HQ de Gaiman. Vale lembrar que em Coraline, a porta também é um fator importante da história.

Ao mesmo tempo, a passagem do mundo real para o sonhar são os olhos, que são fechados para receber os sonhos. “Dê-me um punhado de areia e eu lhes mostrarei o horror”, a tagline da série Sandman faz referência ao Mr. Sandman que, segundo a lenda, sopra areia nos olhos das crianças para que elas tenham sonhos ou pesadelos.

Minha casa, meu corpo, minha vida.

Minha casa, meu corpo, minha vida.

Quando conversa com o Coríntio, Sandman revela: “Quando eu o fiz desejei apenas construir algo que refletisse a humanidade… que a revelasse, que expusesse tudo o que ela não quisesse reconhecer em si mesma”. Aí está – acho eu, porque não li toda a minissérie – o ponto focal de todo esse Prelúdio: refletir para conhecer a si mesmo. A jornada que Morpheus faz nessa história é para dentro de si mesmo, para conhecer a si mesmo e se assustar com suas ações.

Conhecer a si mesmo é um dos objetivos das terapias psicológicas. Quem conhece as miríades dos aspectos de si mesmo sabe antever seus próprios movimentos, evita erros e ganha aquilo que as doutrinas chamam de sabedoria. Essa jornada que o Sonho faz em sua busca pelo assassino de uma parte de si mesmo – que linda metáfora – é apenas um passo em direção a algo muito difícil para alguém que é a encarnação do Sonho: Despertar.

“Quem olha pra fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta”.

Carl Gustav Jung.

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