Um Perfil do Mercado Brasileiro de Quadrinhos

Apesar da crise econômica, o mercado de entretenimento tem se mantido estável. Sabemos que os super-heróis se originaram como uma válvula de escape para os problemas oriundos da crise na bolsa de valores de 1929. Naquela época, seres superpoderosos, que poderiam erguer carros com as mãos, eram vistos como ídolos de uma nação depauperada e somente no escapismo da leitura o cidadão comum poderia pensar que seus problemas se acabariam.

MIGRAÇÃO DAS BANCAS PARA AS LIVRARIAS

Mantidas as proporções, hoje vivemos um momento semelhante. O poder de consumo do brasileiro vem caindo nos últimos três anos, porém, segundo um levantamento da Nielsen BookScan, em parceria com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o mercado livreiro cresceu 8,83% em volume e 6,23% em faturamento comparado ao ano passado.

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Falo do mercado livreiro ao me referir aos quadrinhos, porque a partir dos anos 2000, houve um movimento significativo da comercialização de quadrinhos das bancas para as prateleiras das livrarias. As HQs comercializadas em livrarias não são mais gibis de no máximo cem páginas, mas brochuras e capas duras, em formatos luxuosos e papel couchê – diferente do pisa-brite, o famoso papel-jornal, praticado em banca. Esses encadernados acabam possuindo mais vida comercial, já que são imbuídos de código ISBN – próprio para livros –, enquanto gibis lidam com outros tipos de código, o ISSN – próprio de publicações periódicas, que devem ser tiradas de circulação de tempos em tempos.

Enquanto o comércio em livrarias cresceu – um fenômeno verificado não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos –, o consumo em bancas diminuiu drasticamente. Enquanto no auge dos anos 80 as revistas de super-heróis da Editora Abril possuíam uma tiragem de mais de 400.000 exemplares, hoje em dia as revistas de super-heróis da Panini Comics não passam de 20.000 exemplares em circulação.

A REINVENÇÂO DA TURMA DA MÔNICA

Porém, nem tudo são espinhos quando se trata do mercado nacional de HQs. Mauricio de Sousa, o pai da Turma da Mônica, sempre soube se destacar no mercado. Em 2008, baseando-se nos mangás, os quadrinhos japoneses, Mauricio e seu estúdio criaram a versão adolescente da Turma da Mônica, a Turma da Mônica Jovem. O lançamento causou rebuliço entre os leitores e até quem já tinha deixado de ler a turminha há muito tempo ficou ávido para conhecer a nova versão. O resultado: mais de 400.000 exemplares do mangá são vendidos todo o mês em bancas. Mauricio conseguiu recapturar o público antigo e, de certa forma, fidelizar os leitores de suas revistas infantis.

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Mas foi em 2012 que surgiu outro projeto dos Estúdios Mauricio de Sousa que deu um novo fôlego para o quadrinho nacional: as Graphics MSP. Claro, não podemos falar das Graphics MSP sem antes falar do projeto Mauricio 50 Anos e da figura de Sidney Gusman. O projeto Mauricio 50 Anos foi desenvolvido para comemorar os 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa. Nesse álbum, 50 criadores de quadrinhos nacionais selecionavam 50 personagens de Mauricio e davam sua própria visão. O projeto deu tão certo que vieram mais duas continuações.

Sidney Gusman é um jornalista especializado em quadrinhos e que edita o site Universo HQ. A partir de 2008, ele foi trabalhar como editor de publicações da Mauricio de Sousa Produções dentro da Panini. Vendo que a estratégia da publicação do álbum Mauricio 50 Anos deu certo, Sidney pensou, “por que não criar um álbum inteiro só com a visão de determinados artistas sobre um personagem?”. E assim surgiu o selo Graphic MSP, uma graphic novel de 80 páginas, enfocando um personagem de Mauricio de Sousa na visão de renomados artistas dos quadrinhos brasileiros.

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Os primeiros a aceitar a tarefa foram o paulista Danilo Beyruth e os irmãos mineiros Lu e Vitor Cafaggi, desenvolvendo, respectivamente, Astronauta e a Turma da Mônica. O resultado deu tão certo que hoje, o primeiro álbum de Astronauta já está indo para a quinta reimpressão. As consequências de lançar estas Graphic MSP foram boas para os quadrinistas também. Um ano depois do lançamento, Beyruth lançava, pela Panini Comics, os álbuns São Jorge, uma narrativa sobre o místico santo católico da época do Império Romano. Já Vitor Cafaggi, emplacou pela Panini a publicação de quatro álbuns das tirinhas do seu personagem, o cachorrinho Valente.

Em entrevista para o site de entretenimento IGN.com, Sidney Gusman declarou: “Deixou de ser vergonha o cara dizer que lê quadrinho. A nerdaiada domina o mundo — e isso é legal. É um público que gasta muito, e precisava de um empurrãozinho”, e completou: “O Brasil nunca teve um momento criativo tão bom nos quadrinhos quanto hoje”.

DOS FANZINES PARA OS CROWDFUNDINGS

Com o avanço nas formas de se produzir uma HQ e principalmente com a impressão digital e a extinção do fotolito – que encarecia demais impressões em gráficas profissionais – o que se viu foi uma proliferação de impressos e a profissionalização do mercado dos fanzines.

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Enquanto que nas décadas de 80 e 90, os fanzines não passavam de xeroxes em papel A4 ofício dobrado ao meio, hoje em dia eles são de todas as cores e formatos, possibilitando que pessoas, anteriormente sem poder aquisitivo para bancar uma tiragem de 100 exemplares, hoje possam lançar seus quadrinhos e que eles possam ser vistos e admirados por leitores de todo país – quiçá do mundo.

O financiamento coletivo de publicações quadrinísticas se provou uma maneira sólida de testar se o projeto de quadrinhos tem ou não futuro. Durante 90 dias, os produtores chamarão público para contribuir com seu projeto, com o intuito de atingir um valor-meta. Para convencer seus possíveis apoiadores, os produtores poderão oferecer brindes que vão desde canecas e camisetas até prints, cartazes e autógrafos nas publicações.

Um dos primeiros projetos de quadrinhos a ter sucesso com financiamento pelo Catarse foi Achados e Perdidos, de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho. Entre os brindes oferecidos, havia um CD Com a trilha sonora para ser ouvida enquanto se lê a HQ. Logo, Damasceno e Garrocho foram convidados para fazer parte da linha das Graphic MSP, fazendo sua versão do personagem Bidu.

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Hoje, o financiamento coletivo se mostra como uma ferramenta eficiente na captação de público e viabilização de publicações em quadrinhos. Um case do catarse acabou resultando na captação de recursos recorde do site de crowdfunding: mais de 1000% da meta estabelecida. Isso se deu não com um projeto educativo ou de conscientização pública. Foi um quadrinho que conquistou estes números. Trata-se de Pétalas, uma HQ muda – ou seja, sem balões de fala – que versa sobre a reciprocidade e consideração. Escrita e desenhada pelo gaúcho Gustavo Borges e colorizada pela também gaúcha Cristiane Peter, Pétalas poderia, por seu tom, estar dentro da coleção das Graphic MSP. Não por acaso, Cristiane já trabalhou com Beyruth na colorização das Graphics MSP do Astronauta e Gustavo foi convidado por Sidney Gusman para desenhar uma história do álbum Memórias do Mauricio, em que artistas convidados retratam passagens dos 80 anos de vida de Mauricio de Sousa.

Por fim, ficamos com a mensagem positiva de Sidney Gusman, um cara que acompanha o mercado nacional há mais de quatro décadas: “Os autores estão recebendo adiantamento para HQs que vão ser lançadas — antes, o cara trabalhava três ou quatro anos até conseguir vender o trabalho dele. Os leitores brasileiros estão dispostos a investir, e o público só cresce, se despindo de preconceitos”. Então agora é só pôr a mão na massa, ou melhor, no teclado e no nanquim! Boa sorte!

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1 Comment

  1. Fico com um pé atrás em pensar se me arrisco no crowdifunding. É um tremendo investimento e uma aposta arriscada. No momento, prefiro criar meus fanzines em formatos diferentes, mesmo. Até por ser mais viável.
    Mas quem sabe, no futuro…?

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