A La Miller: Punho de Ferro – A Arma Viva, Volume Um, de Kaare Andrews

Iron Fisting

Depois da espetacular fase escrita por Ed Brubaker e Matt Fraction que reimaginava o Punho de Ferro para o século XXI, parecia ser impossível que uma nova pegada no lutador de kung fu com o chi nos punhos conseguisse chegar aos pés da anterior. Tendo em vista os trabalhos anteriores de Kaare Andrews, eu não estava muito confiante nessa sua versão do Punho de Ferro, mas o artista acabou me convencendo e produzindo um trabalho digno de ser comparado com o Demolidor de Frank Miller.

Iron Fisting
Iron Fisting

Andrews já tinha tentado emular Frank Miller antes. Seu Homem-Aranha: Potestade buscava criar uma versão futurista para o escalador de paredes no mesmo estilo que Batman: O Cavaleiro das Trevas criou para o cruzado de capa da DC Comics. Poré, o resultado de Potestade, IMHO, é muito ruim, utilizando os elementos errado que fizeram Frank Miller famoso.

Narrativa de Cinema!
Narrativa de Cinema!

Já em Punho de Ferro, Kaare Andrews, acaba se utilizando dos elementos corretos que deram a fama à Frank Miller. Pra começar nós temos os diálogos em off, as captions, os balões de pensamento do herói tornados numa narrativa densa. Aqui Andrews entrega um texto ao mesmo tempo noir e dark, ainda que as duas palavras possam ter e não ter o mesmo significado. Vemos um herói alquebrado, traumatizado com as lembranças da infância, tornado frio e gelado na busca pela perfeição, muito semelhante ao Demolidor de Miller.

Ainda temos personagens secundários cativantes. Alguns deles inventados pelo próprio Andrews – como Miller fez com Elektra, por exemplo – a jornalista Brenda, que resolve investigar a vida de Danny Rand, o Punho de Ferro e acaba envolvida romanticamente com ele. A Monja Pardal e Pei, a garotinha que vem até o “mundo real” para pedir que Danny retorne a Kun-Lu, a cidade perdida, para regatá-la de um mal ancestral.

Oh, a tragédia!
Oh, a tragédia!

Talvez a característica Milleriana mais presente em Punho de Ferro de Kaare Andrews seja a narrativa cinemática. Quando Miller tomou o Demolidor em suas mãos, ele surpreendeu os leitores com seus enquadramentos ousados e sua narrativa fluida. Nas histórias da Arma Viva temos muitos enquadramentos diferentes, mas não só isso: temos layouts de páginas diferentes mas que não caem no pecado das firulas de um Marco Rudy, por exemplo. Aqui, os layouts e enquadramentos servem para a história. Essa é a vantagem de um artista completo produzir um quadrinho. As captions, os diálogos, o enquadramento e o layout, tudo isso está junto à serviço do que se quer contar para o leitor. Isso acaba tornando a experiência muito maior.

Também existem características próprias do trabalho de Andrews, como por exemplo o humor de enunciação, que é quando um personagem usa o nome dos outros para gerar comicidade. Quando Danny não reconhece o nome de Brenda e fica chamando-a por diversos nomes e ela fica retrucando, ou quando Brenda dá o apelido de garota kung-fu para Pei. A garota kung-fu também nomeia um dragãozinho de Korg, pois esse é o barulho que ele faz.

Everybody was kung-fu fighting!
Everybody was kung-fu fighting!
A Arma Viva! Bang, bang!
A Arma Viva! Bang, bang!

Porém, o recurso mais interessante que Andrews usa na série é a inserção dentro de elipse. Elipse é um recurso usado para manejar o tempo na história. São as quebras de tempo. Andrews retoma um intervalo de tempo na edição 4 dentro de uma elipse que ele fez na edição 1. Isso muda completamente a história e o que sentimos pela personagem de Brenda. Ele também faz bom uso de flashbacks para explicar a infância de Danny Rand em treinamento em Kun Lun, coisa que nunca havia sido explorada até então.

A história do Punho de Ferro por Kaare Andrews se dá em dois volumes. Esse é o primeiro. Com muitas reviravoltas, exegese de estilo e personagens cativantes, ela não deve nada para fases anteriores da Arma Viva criada numa cidade perdida devotada ao kung fu. Agora é esperar para ver como vai ser a adaptação para a série da Netflix que vem aí, se é que não vai ser substituída por uma do Justiceiro.

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