A Razão de Gostar do Superman ou O Último Filho é um dos Primeiros Pais

Vou te manter numa bolha, filho!

Superman: o último legado de um mundo moribundo. O último filho de Krypton. A grande esperança da Terra. Para além de seus aspectos alienígenas ou seus aspectos messiânicos, que já foram comentados aqui, existe um aspecto mais interessante sobre Superman que é se tornar uma figura paterna da humanidade. Ele é o grande protetor do mundo, como os pais deveriam ser para seus filhos.

Vou te manter numa bolha, filho!
Vou te manter numa bolha, filho!

O engraçado é que a nossa geração e a geração anterior cresceu tendo de lidar com pais ausentes, por isso buscaram o subterfúgio da proteção e do modelo nos super-heróis. É por isso que eu gosto do Superman: ele representa algo a ser mirado, uma pessoa altruísta que vai fazer todo o possível para nos cuidas, nos libertar ou nos salvar do mal.

O psiquiatra Paulo Gaudêncio já fez essa comparação no famoso livro sobre quadrinhos, Shazam!, de Álvaro de Moya. Para ele, o super-herói é um elemento fundamental na construção de valores durante o crescimento, enquanto o indivíduo se torna parte da sociedade. O super-herói atua como um Pai Todo-Poderoso, protegendo a humanidade e atendendo aos seus chamados e súplicas. O herói é forte, indestrutível, honesto, altruísta e justo, características mesmas que se esperam do pai, na visão infantil. O super-herói, assim como a figura paterna, encarna o ego idealizado, ou seja, o padrão que o indivíduo pretende seguir pelo resto da vida. Para o autor, “as características dos heróis, que na visão infantil são características paternas, passam a fazer parte do estereótipo de homem que cada ser humano cria para si, e que realiza no herói com o qual se identifica”.

Na história em questão, O Último Filho, volume 3 da coleção Eaglemoss DC Comics de Graphic Novels, escrita por Geoff Johns e o diretor Richard Donner e desenhada por Adam Kubert, são os gestos do Superman que nos revelam como ele é bom pai. Ele cuida para que o menino Christopher Kent (homenagem ao ator Christopher Reeves, o Superman dos filmes de Donner) não caia da cadeira. Ele garante um sono tranquilo e seguro para o menino. Ele compra presentes para o menino. É o mesmo cuidado que o Superman tem com a humanidade, revelado em gestos e em detalhes. Um momento muito rico de narrativa oferecido, imagino eu, por Donner, já que Johns não costuma usar destes artifícios.

Cuidado com o bicho papão!
Cuidado com o bicho papão!

Segundo a autora Francine Prose, reparar em gestos e detalhes das histórias são pontos chaves para melhorar a escrita. Isso ela afirma em seu livro chamado “Para Ler Como Um Escritor”, que traz análises profundas de textos que ela usou em oficinas ao longo dos anos. Talvez o maior e mais bonito gesto da história de O Último Filho seja a adoção. Adotar alguém que não é seu é um gesto de altruísmo e abnegação. Ela encontra reflexo na adoção do bebê alienígena pelos Kents, na adoção do planeta Terra pelo Superman como um lugar que deve ser defendido e protegido para crescer sem interferências e, por fim, a decisão de Clark Kent e Lois Lane de adotar Christopher.

Chamo a atenção para a seguinte fala de Superman para os Kents: “Um menininho caiu do céu. Vocês levaram para casa. Falsificaram documentos. O criaram como se fosse um de vocês. Me ensinem como fizeram isso”. Se isso não é tocante, o que é? Ou então, quando Lois fala para Clark que não está bem certa em adotar uma criança: “Seus pais foram colocados nesse mundo para criarem famílias, nós não fomos”.

Claro como o cristal
Claro como o cristal

É o generation gap, ou seja, o vão entre gerações que causa conflito. Apesar da geração anterior a minha – a dos anos 50 e 60 – ter sido “colocada nesse mundo” para “criarem famílias”, o interesse deles foi mudando e alguns – pasmem! – nem colocaram família alguma no mundo! O horror, o horror! Depois temos de ouvir de nossos antecessores que é difícil entender nossa geração, com nossos anseios, angústias e desejos. Mas a deles, que criou pais ausentes, pessoas desinteressadas em cuidar de filhos, menos preocupadas em cumprir um papel de procriadores e mais ligadas na satisfação pessoal – como é o caso da repórter Lois Lane – nunca é questionada.

Por isso, a nossa – ou pelo menos a minha – foi criada com valores diferentes, que aprendeu da comunicação de massa, mas também da comunicação marginal, dos super-heróis e seus valores talvez um tanto empoeirados para uma geração anterior mais individualista. As novas gerações querem buscar, sim, uma mudança de conscientização da humanidade para causas que tocam os indivíduos e buscar, como o Superman, cuidar da Terra como se fosse um filho.

DC Comics Coleção de Graphic Novels Eaglemoss
DC Comics Coleção de Graphic Novels Eaglemoss

Por isso, amigues, prestem atenção em gestos e em detalhes de como nosso planeta Terra vem sido conduzido pelas gerações anteriores. Reparem no que está certo e errado nesse caminho e escrevam uma história melhor para nosso planeta. Adotem esse planeta e as causas dele como se fossem “realmente” suas. Cuidem dele como se fosse uma família sem precisar devasta-lo no processo, extraindo todos os seus recursos e exigindo dele muito mais do que ele pode oferecer. Um dia ele pode se revoltar e puni-lo por isso. É assim que funciona a natureza.

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3 Comments

    1. Valeu, Leonardo ! Temos que ser sinceros nas nossas opiniões, senão não seriam opiniões né, e nem valeriam a pena serem descritas. Abraços!

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