destaque, quadrinhos, Resenhas
Comentários 8

No Alvo: Gavião Arqueiro, de Matt Fraction, David Aja, Annie Wu e Outros Artistas

HKElanterna

Hal racista!

Essa imagem acima é uma das peças fundamentais da elogiada fase de Denny O’Neil e Neal Adams na revista Arqueiro Verde/Lanterna Verde, publicada nos anos 70. Lá naquela década, era tempo de ser humanista, era a época do flower power, dos hippies, dos movimentos contra a guerra do Vietnã. Nada mais justo que isso se refletisse nos quadrinhos também. Também era moda a blaxspoitation, a utilização de protagonistas negros em filmes e séries, estereotipando os afro-americanos.

Mas aí você me pergunta, ué, mas esse post não era sobre a Marvel? Porque tu me veio com um treco da DC? Tá, eu explico. Nessa história, o Lanterna Verde defende o proprietário do prédio que quer expulsar os moradores de lá para construir um shopping no lugar. Já a comunidade negra é defendida pelo Arqueiro Verde, que caba abrindo os olhos do amigo Hal Jordan e mostrando a ele quem era o verdadeiro vilão da história.

HKEgame

Você está jogando um jogo com a minha vida!

Assim, talvez como uma homenagem a essa história do Lanterna e do Arqueiro, o Gavião Arqueiro também começa sua revista defendendo um prédio de seu proprietário e acaba adquirindo-o e passa a morar lá. As histórias da revista passam, então, a girar ao redor do prédio e seus moradores. Como a história tocante que se passa durante a passagem do furacão Sandy por Nova York e que arrecadou fundos para os desabrigados: a reunião de um pai e um filho em tempos de desespero.

HKEdog

Eu não sou cachorro, não!

Mas o ponto focal da série não é ser tocante, ainda que haja momentos bonitos, como a união dos irmão Clint e Barney Barton. O destaque da série é que ela serviu de laboratório para seus autores. Tanto em linguagem como em layout. Temos a história toda em “linguagem canina”, em que o cachorro dos Gaviões, Sortudo, mostra como funciona seu raciocínio através de infográficos, que é um deleite de genialidade. Também há a história em que Clint está surdo e precisa se comunicar em linguagem de sinais, ou Libras. Ainda tem o uso de expressões peculiares pelos homens de agasalho como “Mano”, numa tradução e edição bem realizada pelo Paulo França, além disso muitas outras apropriações dos diálogos, que tornam a história bem mais interessante.

Já o layout da Aja é incrível, nas últimas histórias do título, ele consegue desenvolver um diálogo em um grid de 24 quadros por página. 24 quadros! Não é pra qualquer um. A brincadeira com o rosto mascarado do Gavião para tampar suas partes pudendas é demais. Nesse meio tempo e, talvez por causa disso, surgiu a Hawkeye Initiative, cujo papel era pegar poses sensuais de mulheres dos quadrinhos e aplicar o Gavião Arqueiro nela. Isso acentuou o status de Clint Barton como um bastião que se encontra entre a contracultura e o mainstream.

HKEjessica

Já acabou, Jessica?!

Por ter ganhado esse status, a revista do Gavião se tornou um lugar para abordar temas nem tanto convencionais, como por exemplo, o Gavião ser uma espécie de outsider, mendigo, pária dos Vingadores e da sociedade e que defende gente como ele sem ter poder algum. Apenas a habilidade com as flechas.

HKEkate

Feliz e fudida!

É um tempo de tratar de tópicos importantes para a sociedade e, assim como Arqueiro Verde/Lanterna Verde, esse foi o desempenho da série dos Gaviões. Não apenas falando dos sem-teto, dos desabrigados dos desastres, dos surdos, dos imigrantes. A parte em que Kate Bishop, a Gaviã Arqueira anda por Los Angeles é uma das minhas preferidas. É bom lembrar que a série, em inglês se chama Hawkeye, ou seja, o nome dos dois heróis, Kate e Clint, pois os dois são seus protagonistas. Kate, em Los Angeles, tem de defender um casal gay, um músico de um sucesso só e enfrenta a Madame Máscara com unhas e dentes apesar de, no final, sabermos que as duas não são tão diferentes assim. A série dos Gaviões conquista não só pela forma, mas pelo conteúdo dos temas abordados e o jeito como eles são abordados.

HKEcapa

Catch me if you can!

O tom que Fraction usa na HQ ao abordar temas caros à sociedade é diferente do que foi feito nos anos 70 na DC Comics. Não é tão educacional como “Cê nunca defendeu os negros”, a coisa é mais sutil aqui. E sutileza é algo que nossos novos tempos, tão radicais e extremistas, estão pedindo: conquistar não pelo enfrentamento, mas pelo carisma e a identificação, seja ela com qualquer um dos temas abordados na revista, o que abre precedente para, quem sabe, se identificar com os demais. Honrando a tradição, os arqueiros acabam sendo os guardiões da vanguarda nos quadrinhos de super-heróis.

Anúncios

8 comentários

  1. Humberto diz

    Ótima hq, uma pena o formato que saiu aqui no Brasil dentro da revista mensal Capitão América e Gavião Arqueiro.
    No aguardo do encadernado anunciado pela Panini no Fest Comix.

    Curtir

  2. Li essa fase toda e achei fora de série! Acho que o Fraction pensou muito fora da caixa, e o resultado foi muito positivo. Detalhe pros artistas que compuseram o trabalho, tornando a obra como um todo muito harmônica. Nota 10, com certeza.

    Curtir

    • guilhermesmee diz

      É muito boa mesmo, Zeka! A do Arqueiro Verde tem uma pegada parecida, mas essa se supera mesmo! Abraços!

      Curtir

  3. Pingback: Melhores Leituras de Novembro/2015 | Splash Pages

  4. Pingback: As Melhores HQs da Marvel Que Li em 2015 | Splash Pages

  5. Pingback: Alguns Destaques do Checklist Marvel/Panini Para Janeiro de 2016 | Splash Pages

  6. Pingback: Os Melhores Quadrinhos e Graphic Novels segundo o GoodReads | Splash Pages

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s