A Influência de Will Eisner em Sin City

A ideia inicial de Sin City era, para Miller, algo como “Conan vestindo um gabardine”. Na época, Miller estava apaixonado pela cidade de Los Angeles e faziam poucos meses que havia se mudado para lá na intenção de trabalhar em roteiros para Hollywood. “Eu estava trabalhando em Sin City muito antes de Marv ter um nome”, explica Frank Miller, “eu estava tentando trazer algo mais glorioso, mais heroico. Eu faço muitas anotações e escrevo muito antes de vir com qualquer visual de personagens. Naquela época eu comecei fazendo o layout da primeira edição, que acabaram se tornando os elementos principais da minha história, seja na minha cabeça ou numa folha de papel colada na minha parede”.

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Sim, Shitty!

Desde que viu Um Contrato com Deus, de Will Einser, Frank Miller buscava fazer um trabalho estilo graphic novel, todo seu, e foi com Sin City que ele atingiu seu objetivo. “Apesar de Sin City não ser meu primeiro trabalho autoral, de várias formas foi o mais intimidante”, expõe Miller, “eu estava fazendo a coisa toda e aquilo não era tão ‘fantástico’ como o que costuma vender normalmente nos quadrinhos. Certamente haveria quadrinhos de crime ao redor deles. Eu sabia que estava arriscando, mas também sabia que TINHA que fazer aquilo”.

Sin City se transformou em uma série policial extremamente violenta, porém inovadora no uso contrastante do preto e branco e na diluição do conceito de herói tradicional, que cede o protagonismo à própria cidade. A temática foi inspirada nos filmes policial noir e na literatura policial de Dashiell Hammet, Mickey Spillane e James Ellroy.

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O chiaroscuro e a Kyara Escura

Pela primeira vez, Frank Miller foi responsável por todo o processo criativo, do argumento e desenhos até o letreiramento. Os desenhos traziam um inovador uso do preto e branco em alto-contraste – o chamado chiaroscuro – partindo da influência de Milton Caniff, Hugo Pratt e José Muñoz, com uma estética retro inspirada em Johnny Craig (E.C. Comics). A primeira história foi publicada na revista Dark Horse Presents #51 à #62, mais tarde compilada como graphic novel, com o título The Hard Goodbye (no Brasil, A Cidade do Pecado).

 “Sin City está entre a regularidade rítmica de um metrônomo que frequentemente atormenta os comics americanos e o ritmo alucinante dos mangá, que se leem à velocidade do virar de página. Grande parte dos meus esforços vão no sentido de conseguir que o leitor abrande a velocidade da leitura quando eu pretendo, quando quero explorar ao máximo todas as potencialidades dramáticas de uma cena, ou pelo contrário, dando ao leitor tempo para respirar fundo e se acalmar” (Frank Miller).

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A HQ e o Filme Sin City

Dizem que “a cidade” respira nas obras de Eisner. E foi nesse sentido que Frank Miller tentou imitar o seu mestre em Sin City. Mas enquanto a cidade de Miller é recheada de tipos violentos e barra-pesada, a de Eisner é feita de pessoas como o vendedor da quitanda ou o carteiro dos sábados, gente com história de vida e estofo sentimental. Gente que com seus pequenos casos renderiam uma história ou duas do Spirit, que o diga a sensacional história de Gehrard Shnobble. Talvez Miller tenha entendido tudo errado.

Frank Miller já declarou que a história da primeira aparição de Elektra foi copiada friamente da primeira aparição de Sand Seref, uma das femmes fatales de The Spirit. Perguntado se alguém reparou nisso, Miller disse que seu editor da época, Denny O’Neil, chegou a perguntar sobre isso. “Meu pastiche de Eisner foi bem intencionado, só que eu estava tão maravilhado que não me sentia envergonhado enquanto fazia aquilo”.

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Avalanche de corretivo

Lidar com o tempo nos quadrinhos também é algo complicado, mas é onde começam os truques engraçados, segundo Miller. Então é que surge a famosa cena do personagem, desolado, caminhando na chuva com os diálogos em off, tão presente nas obras de Eisner como nas de Miller. Essa cena serve tanto para o artista “ganhar tempo” na narrativa, quanto para diminuir o ritmo frenético das páginas anteriores. Ou ainda serve para estabelecer um primeiro encontro com o personagem e o cenário, como Frank Miller faz nas primeiras páginas de Sin City.

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Clima e ambiente são muito importantes numa narrativa em quadrinhos, Eisner e Miller sabem disso, por isso trabalham tanto com as cidades, os cenários, a “cena da chuva”, Dessa maneira os leitores sabem o que sentir: se está frio, quente, úmido ou seco. Miller diz que caracterizar o clima e o ambiente pode ser uma experiência maravilhosa e recompensadora. Eisner completa que se você não tem uma história para contar, com esses elementos você acaba mostrando uma experiência visceral ou sensorial, como em alguns filmes que se concentram em estilo e técnica. A técnica vem de um resultado de COMO você faz O QUE você faz.

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Se ela dança, eu danço, balancei no balanço desse doce encanto…

“As pessoas me perguntam como componho uma página e eu continuo a dizer-lhes que a página se compõe por si mesma. Isso surge uma vez ou outra com o apontamento de uma casa editorial maior que diz: faça um livro para nós que quando aberto, as pessoas vão olhar e dizer, ‘Oh, eu tenho de comprar esse livro’. A página deve ser empolgante. Tudo deve estar em uma splash page”, disse o mestre Eisner durante a entrevista com Miller, um pensamento que o aluno deve ter seguido o mestre à risca.

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5 Comments

  1. Imaginem se Eisner voltasse como zumbi após Miller ter feito aquele desperdício de tempo, que foi o filme do Spirit. Só me valeu como um cosplay bacana, que montei e usei em alguns eventos. De resto… nhá!

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