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A Teoria do Auteur e o Culto aos Autores

A Teoria do Auteur (autor, em francês), surgiu por volta de 1954 e tem como principal defensor François Truffaut. Esse método de análise de filmes foi originalmente associado à Nouvelle Vague e aos críticos que escreviam na revista Cahiers du Cinéma. Esse pressuposto diz que uma única pessoa é dona de um determinado filme, ou seja, esse filme é considerado “seu”, por isso muitos associam filmes de determinados diretores como filmes de estilo e marcas autorais próprias. “Este é um filme do Truffaut. Do Tarantino. Do Woody Allen”. O diretor é considerado autor do filme inteiro, sem se preocupar com toda a equipe envolvida.

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O quadrinho do Truffaut

Essa teoria foi usada pelos cineastas da Nouvelle Vague como justificativa de seus filmes cada vez mais pessoais e idiossincráticos. Hoje em dia, a teoria do auteur tem grande impacto no público e na hora de criticar um filme para a audiência em geral. Foi graças a ela que hoje categorizamos esses tipos de filmes, de estéticas e estilo semelhantes como “filmes do diretor x”, mesmo que o diretor não tenha escrito os roteiros para aquele filme.

 

Sem piadinha com espírito e Will Eisner, por favor...

Sem piadinha com espírito e Will Eisner, por favor…

Mas aqui nos interessa a aplicação dessa teoria para os quadrinhos. Como isso se dá? No livro The Power of Comics, seus autores usam Frank Miller como um exemplo de “auteur”, a força criativa por trás de uma obra – de um quadrinho, no nosso caso. Will Eisner acreditava que o quadrinho que conseguia comunicar melhor seus sentidos e valores eram aqueles em que o escritor, o desenhista, o arte-finalista, o colorista, o letrista, o editor, enfim, todos os envolvidos com a obra de arte fossem a mesma pessoa.

Jim Starlin, em 2006

Jim Starlin

Outra característica da teoria do auteur é a recorrência de determinados temas no corpo da obra do indivíduo. Um bom exemplo é Jim Starlin, autor de Dreadstar e de diversas sagas cósmicas tanto na Marvel como na DC Comics. Seus temas sempre são macro. Ele fala de universos, galáxias, cosmos, mas indo ao encontro de peculiaridades humanas como a existência, o cataclismo, a vida e a morte, as transformações e metamorfoses que o corpo e a alma humanas sofrem.

 

Uma terceira marca que distingue o auteur do autor é seu estilo de tratamento. Isto pode ser manifestado ao escrever em um jeito particular, desenhar de uma maneira única, traçar layouts diferentes da maioria dos autores, entre outros. Seriam suas marcas estilísticas que se repetem em suas obras e podem ser facilmente reconhecidas. Uma das marcas de Will Eisner era trabalhar o título da história bem como o logotipo do personagem The Spirit na splash page que abria a revista.

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Amarelo, azul e cinza!

A quarta consideração são as colaborações que se repetem, transformando os outros autores em co-criadores, por vezes e vezes novamente. Um desses casos é a dupla Tim Sale e Jeph Loeb que já trabalhou na Trilogia das Cores da Marvel Comics e nas HQs do Batman ligadas ao Longo Dia das Bruxas. Por fim, o último item que marca um auteur são “pegar emprestadas” algumas ideias de mestres que vieram antes dele, evidenciando suas influências mas tornando-as uma coisa só sua. Essa “imitação” pode se manifestar através da mímica de palavras, expressões, figuras de linguagem, aproximações com outros trabalhos da mesma mídia, talvez até mesmo seus trabalhos anteriores. Erik Larsen, por exemplo, faz o seu Savage Dragon calcado nos desenhos de Jack Kirby.

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Assim como Hitchcock pode ser considerado um dos primeiros auteurs dos filmes, Stan Lee, pode ser considerado um dos primeiros auteurs do quadrinhos. Hitchcock e Lee transformaram seus meios, pois sabiam muito bem como dominar as suas audiênciase se tornaram cultuados por isso. Mas o culto ao auteur veio mesmo nos meados dos anos 80, quando Alan Moore dominava os quadrinhos com a sua Saga do Monstro do Pântano, trazendo um “suspense sofisticado” como nunca havia se visto antes numa força autoral dos quadrinhos. Ao mesmo tempo a violência gráfica de Frank Miller no Demolidor, ascendia como outro auteur bem diferente das marcas de estilo de Alan Moore. Enquanto Moore era “apenas” um roteirista, Miller era um “artista completo”. Esse culto atingiu seu ápice com as experiências de leitura quasi-literárias do Sandman de Neil Gaiman.

 

As capa de Marvels - por Alex Ross

As capa de Marvels – por Alex Ross

É certo dizer que durante a História dos Quadrinhos sempre houve uma tensão entre ler e criar quadrinhos e entre encará-los como uma forma de arte literária e/ou visual. Enquanto alguns quadrinhos que se aproximavam mais do literário foram encarados mais como peças de arte do que outras publicações da mídia, sempre houve lugar para os quadrinhos que revigoraram a forma de se expressar visualmente, como a incrível arte realista de Alex Ross ou de J. H. Williams III, que acentuavam o seu formato narrativo. De certa forma, o culto a esses auteurs se dá àqueles que, como dizia Eisner, conseguiram comunicar sua história da maneira mais eficaz e almejando passar uma mensagem e uma marca para seus leitores, mesmo que essas mensagens, muitas vezes tenham encontrado polêmicas e discussões acaloradas entre os fãs e as pessoas de fora do meio.

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Meu! meu! meu!

Os quadrinhos vivem hoje uma época de culto aos autores, sejam aos desenhistas ou aos artistas completos, mas principalmente um culto aos escritores, porque queira ou não, mesmo sendo uma mídia independente, os quadrinhos são, de certa forma e, assim como o cinema, um meio literário. Explico. Tanto o cinema quanto os quadrinhos querem contar uma história ou pelo menos passar um experiência para o leitor. Isso depende do domínio de storytelling, ou, em bom português, da narrativa. Os melhores e mais venerados auteurs são aqueles capazes de moldar, reverter, inverter e perverter uma narrativa, mesmo que seja, como faz Alan Moore, prestando homenagens à outras narrativas mais antigas e mais cultuadas.

Criança que lê HQ junta, cresce junta!

Criança que lê HQ junta, cresce junta!

A leitura dos quadrinhos é uma experiência e uma descoberta solitária. Até podemos compartilhar nossas opiniões com os outros, mas existem detalhes que descobrirmos e guardarmos somente para nós e só vamos perceber ou ao comparar a obra lida com outra obra de outro autor ou compará-la com a do mesmo autor e entender porque gostamos tanto delas.

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4 comentários

  1. Realmente a a leitura dos quadrinhos é uma experiência e uma descoberta solitária. Apesar de ser uma mídia massificada, tenho pouquíssimos amigos ou colegas que entendem de quadrinhos e hoje nenhum deles acompanham mais HQ’s. Não sei se isto se deve a cidade, região ou mesmo círculo social, mas sorte que temos hoje as redes sociais e blogs para expormos nossas opiniões.

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    • Guilherme Smee diz

      A internet ajuda muito em algumas coisas e atrapalha em outros. mas acho que o saldo para nós, nerds, é positivo! \o/ Abs!

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