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A Astro City de Kurt Busiek

Já imaginou uma cidade cheia – não… lotada! – de super-heróis? Assim é Astro City, o lar dos super-heróis. Tá certo que a Marvel tem Nova York e a DC tenha Gotham e Metrópolis. Mas não é a mesma coisa. Astro City comporta todos os arquétipos de super-heróis. Desde a Primeira Família até o super Samaritano.

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Olhando para você de cima para baixo, hahaha!

Depois que Kurt Busiek e Alex Ross trabalharam juntos na premiada minissérie Marvels, os dois surgiram com o conceito de Astro City para a Wildstorm que, na época, em 1996, fazia parte da Image Comics. A editora de Jim Lee começou a publicar a revista que tinha nos desenhos o veterano Brent Anderson – ele é tão veterano que os desenhos dele lembram os do meu avô. Anderson, pra quem não sabe, trabalhou com Chris Claremont na renomada Graphic Novel X-Men: Deus Ama, o Homem Mata.

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O segundo encadernado de Astro City

Mas a proposta de Astro City, além de trazer aventuras épicas de super-heróis, é ter aquela vestígio humano, dos supers vistos pelos olhos do cidadão comum, como a dupla fez com o Phil Sheldon de Marvels. Logo no primeiro volume, que era uma minissérie, temos várias histórias fechadas apresentando muitas miríades dos super-heróis de Astro City e mostrando como eles se relacionam com a sua população.

Porém, é o segundo encadernado da série, Confissão, que se destaca, trazendo a história do garoto comum que iria se tornar o Coroinha, o sidekick do Confessor. É uma história estilo Batman e Robin, mostrando o Coroinha como um Robin que quer e precisa descobrir a identidade secreta e as motivações do seu mentor. Também mostra como pano de fundo uma invasão alienígena à Terra e uma tentativa de lei de registro de superseres muito antes de Guerra Civil ser sequer imaginada por Mark Millar.

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Pera, não faz sentido. Por que chamam um novinho de coroinha? 😛

O personagem do Coroinha, aqui neste encadernado é o tal sujeito comum, um adolescente que veio para a cidade dos heróis tentar uma nova vida e dar significado a ela. Ele quer se aproximar dos heróis, mas não sabe como, até que uma oportunidade lhe faz conhecer o Confessor, que guarda um terrível segredo. Busiek embute sentimento na história, quase todas elas sendo narradas em primeira pessoa. São aquelas histórias que te trazem anseio de aventura e que faz você ficar com pena de acabar a história. Uma HQ que te faz se deliciar lendo cada página, buscando pela aventura e tentando resolver o mistério que a transição de quadros pode revelar.

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Ajoelhou, tem que rezar…

Também existe um fator bem reincidente nas histórias que envolvem Busiek e Ross, que é o elemento religioso. Não por acaso os protagonistas se chamam Confessor e Coroinha. Há também uma seita de híbridos que prega a volta de Jesus e possui nomes bíblicos. Porém são as frases de Busiek que marcam, quase como um significado litúrgico, como se estivéssemos ouvindo um bom sermão de um bom padre instruído para fazer a diferença na vida de seus fiéis. Copio aqui algumas frases:

“Nossa missão é evangelizar. Se pregássemos a palavra de Deus a quem já conhece, de que adiantaria?”, nessa frase se esconde a aceitação às diferenças. Buscar pessoas com visões e problemas diferentes que, com a visão evangélica – no bom sentido –, bem debatida e dosada, pode refletir na vida da pessoa e a trazer para um caminho mais suave.

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Buuu! Cê taí?

“E no juízo final, o que importa MAIS? O fardo QUE carregamos, o modo COMO carregamos?”, nessa frase o profeta diz que todos temos um fardo para carregar na vida, mas o que faz a diferença é como vivemos essa vida. Não importa se nos sentimos maculados por sermos diferentes, mas usar essa diferença para fazermos a diferença e mostrar para aqueles que se parecem conosco que se o fardo for dividido e as experiências refletidas e debatidas, não importa o que somos ou o que os outros acham que somos, mas sim como usamos isso ao nosso favor e dos outros. Sempre buscando pelo bem comum.

Por fim, a frase do Confessor: “Quando forças irracionais e odientas avançam, quando a humanidade perde o rumo de vista, não fica mais crucial mostrar a escolha a ela? Mostrar o caminho?”. Forças irracionais e odientas não evangelizam, não revelam nada além do que se está na frente dos olhos. Evangelizar, pelo latim, significa revelar. Se for mostrado ao povo só o que está na superfície, de que forma os ditos evangélicos podem dizer que estão fazendo um bom trabalho? Ao invés de trazer diálogo ou reflexão, estão tornando a sociedade mais irracional e odienta. Agora, peço que voltem às frases anteriores e vejam um bom trabalho de distribuir o evangelho.

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Não é a cara do Frank Miller?

O encadernado se encerra com uma das histórias mais singelas e lindas sobre perda e reparação que já li. E sim, se trata de uma história de super-heróis, realidades paralelas e dimensões alternativas. Para comprovar que um bom escritor sempre sabe aproveitar uma boa metáfora. Por favor, não deixem de ler essa história que se intitula “Você tão perto”, e foi publicada em Astro City ½. Com certeza esse encadernado foi uma das melhores leituras do

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Possui o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

12 comentários

  1. Pois é, Guilherme. Terminei essa semana essa leitura do Confessor e tal, mas não gostei justamente desse viés da fé. Sabe quando você gosta de algo torcendo o nariz? Foi assim minha experiência com a maior parte desse encadernado. Tive uma impressão de estar sendo catequizado contra à vontade (como quando a gente ouve por educação aqueles crentes que batem na tua porta com folders). Agora uma curiosidade: embora, ao longo da história, o menino tenha um amadurecimento com relação ao seu passado, ele me pareceu muito mais oportunista que religioso em sua carreira de vigilante.

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      • guilhermesmee diz

        No volume da Devir o Confessor era o Inquisidor. Lost in Translation.

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    • guilhermesmee diz

      Eu não quis comentar no post, Cristiano, mas essa HQ me passou uma baita carga homoerótica. Senão vejamos, um adolescente treinado pelo mentor que tem um segredo e quando esse segredo é revelado o adolescente se torna o mentor para o mundo. Que tal? Talvez a catequização seja um pouco inversa, não? Sei lá, semioses… Abs!

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  2. Diego Guzzi Felix da Silva diz

    Para mim, Astro City é uma metafora da vida moderna e no primeiro número da mini série ja monstra isso, já que a história Sonho relata a história de uma pessoas superocupada que não tem tempo para nada na figura do Samaritano e que não usa a sua identidade secreta para ter uma vida de verdade. E já o album Astro City: Inquisição eu não vejo um guia para catequizar alguem, já que a religião é apenas um pano de fundo para a historia do Coroinha e que de certa forma a religião é importante para o Confessor e para os Hibridos que mesmo parecendo aqueles religiosos chatos, são os que fazem com que o Coroinha de certa forma perdoa as pessoas que o pai dele ajudou e que depois da morte dele, ele passou a ser desprezado pelas pessoas da sua cidadezinha e para mim o Inquisição é mais do que uma tipica história de super heroi ou de uma invasão extraterrestre, fala de manipulação da opinião publica para fatos que possam contribuir para o clima de medo das pessoas contra os super herois (ou qualquer minoria da vida real) além de mostrar uma invasão alien completamente inteligente.

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    • guilhermesmee diz

      É, Diego, é uma história muito completa, perspicaz e inteligente. E, apesar de não ser rocambolesca como muitas das histórias do Morrison, ela também tem diversas camadas e aspectos para descascarmos e destacarmos por várias leituras e discussões. Kurt Busiek é puro amor pelos quadrinhos! ❤ Abs!

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      • Diego Guzzi Felix da Silva diz

        Para mim o Busiek sabe fazer uma história de super-herois muito simples e singela e com várias camadas sem derrapar no sombrio.

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