A Atual Incapacidade dos Estúdios de Cinema de Fazer Bons Trailers

Imagine a cena: um homem entra numa masmorra. Lá, seis homens uniformizados se ajoelham aos seus pés. No fundo da tumba está outro homem uniformizado, mas ele está todo amarrado, braços e pernas. O homem que entrou retira a máscara do homem uniformizado. Corta a cena. O que acontece a seguir? A) eles se beijam B) o homem que entra na tumba se ajoelha e faz sexo oral no amarrado C) começa uma sessão de BDSM D) rola uma orgia geral entre os dois homens e os escravos. A descrição que você acabou de ver – fora as alternativas sexies – não se trata de um filme do For Man ou uma paródia pornô gay da Vivid Enterteinment, mas do segundo trailer de Batman x Superman: o Amanhecer da Justiça, de Zack Snyder.

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Batman está dando de ombros pro Superman.

Essa semana a internet e as redes sociais foram invadidas por dois trailers de filmes de super-heróis muito aguardados pelo público. O primeiro foi esse descrito acima, o segundo trailer do filme. Já o outro, foi o trailer de Capitão América: Guerra Civil, que mais parecia o trailer do videogame Streets of Rage (quem jogava Mega Drive vai lembrar). Muitos fãs ficaram decepcionados com esses trailers. Zack Snyder já vinha sendo criticado desde seu filme Superman: O Homem de Aço de que seu Superman tinha uma dose sombria demais. Não demorou para que surgissem memes na internet tirando sarro do assunto. No filme de Batman x Superman, o Homem de Aço mais parece um monstro do que um defensor ou, como deixou claro esse último trailer, a dominatrix do Batman.

TRAdanca
So you think you can dance?

O trailer anterior do filme dos dois heróis da DC, deixou outra piada no ar: “Me diga uma coisa, você sangra?”, entrou para o rol de diálogos mais idiotas do cinema de super-heróis, levando em conta frases como a do Coringa em Batman (1989): “Você já dançou com o diabo à luz do luar?”, ou a pergunta retórica de Tempestade em X-Men – O Filme (2001): “O que acontece com um sapo quando atingido por um raio?” * Groxo leva um raio. “O mesmo que com todos os outros!”.

Os filmes de super-heróis ou descambam para um entretenimento muito família como os filmes dos Vingadores e dos Guardiões da Galáxia da Marvel – família até demais para o gosto de alguns – ou para a sociopatia e psicopatia como os filmes do Batman de Christopher Nolan, o 300 e o Watchmen de Zack Snyder, ou o V de Vingança dos irmãos Wachowski. A indústria ainda não achou um meio termo ou subdivisões dessas marcas, porque acha que o público não engoliria outra faceta. O problema é que o público não pode achar uma coisa diferente se ela não é oferecida a ele. Uma boa diferença tem feito as séries da Marvel da Netflix – como Demolidor e Jessica Jones – , que conseguem encarnar um estilo mais noir e policialesco da mídia super-heróis, um tipo de história que começou a se proliferar pela metade dos anos 2000 nos quadrinhos.

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Hey, quem topa um swing?!

Porém, está surgindo uma terceira linha e é que mais me preocupa, tanto vista pelas crianças como pelos adultos. É a linha esquizofrênica, que quer misturar os filmes família com heróis psicopatas, e ficar muito longe do meio termo, que é o caso de Deadpool e do Esquadrão Suicida. Não vai demorar muito para a instituição One Million Moms vir bater nas portas dos estúdios e dizer que quer seus filhinhos longe desses filmes, porque elas simplesmente não tem forças para interpretar esses heróis e o pior, o público adulto desses filmes não saber discernir que matança por divertimento não é legal e vangloriar personagens como o Coringa. Pare para pensar: o joker, o bobo, o palhaço, já não é o ídolo de uma geração? Pois é. E olha, que os trailer destes dois filmes, Deadpool e Esquadrão Suicida – que tem a participação do Coringa – , até que foram bem bolados com musiquinhas espertas, até Seven Nation Army do White Stripes tocou. Que perversão do significado da música, hein, Hollywood?! (Procure o significado da música no Google, não vou explicar).

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O excudo Capitão na defensiva!

Os trailers de hoje em dia tem se tornado cada vez menos trailer e cada vez mais teasers. Eles tem sofrido com a MichaelBayzação do cinema, mostrando cenas grandiosas, portentosas, de arregalar os olhos e de esvaziar a mente – só que, pera, não esvaziem a mente demais. Alguns quadrinhos também foram feitos para pensar. Até os do Deadpool! Podicrê, cumpadi! Mas os estúdios estão idiotizando seu público ao nivelarem ele por baixo. “Nunca subestime seu público”, é uma regra da escrita. “Nunca superestime também”, é outra. Mas acho que os escritores de trailers não frequentaram a mesma escola.

Quem não tem saudade daquela formulazinha dos trailers dos anos 80: “Neste verão. Numa escola diferente das outras. Seus professores vão defender o mundo sem se importar que acham que o mundo os quer mortos”. Aí temos X-Men 1, e não piadinha com raios e sapos. Ou então: “Neste Natal. Quanto vale uma amizade? Vale a pena sacrificar seus ideais por uma amizade? E todo um grupo de amigos que pensa diferente?”. Esse poderia ser o trailer de Tretas no Facebook Guerra Civil. Basta usar uma ferramenta que está muito em voga, mas que é utilizada fora de foco: o storytelling. Ele vem sendo empregado cada vez mais no branding de conexão, mas no que realmente importa, o storytelling não está sendo usado: na indústria que mais conta histórias do mundo: a indústria do entretenimento!

Quem vende filmes tem que se lembrar que o buzz pelo buzz não vai vender um filme. Que os quadrinhos por si só não vão vender um filme. Que explosões e cenas bombásticas não vão vender um filme. O que vende um filme é uma história que amarre todas essas sensações numa coisa coesa e que, pelo menos, atinja um pouco as expectativas dos fãs – no caso mundo dos quadrinhos – ao ver seu personagem preferido encarnado na tela.

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Hey, quem topa fazer um swing 2 – A Missão?

A fidelidade de uma Guerra Civil não precisa estar em apresentar todos os personagens envolvidos na batalha, mas gerar um acontecimento que desencadeie reações adversas tanto quanto foi a explosão dos Novos Guerreiros em cadeia nacional – isso se chama estopim da história, assim como a Primeira Guerra Mundial teve um bom estopim – para quem não sabe, o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando – a Guerra Civil também precisa de algo convincente, algo que mexeria com a opinião pública mundial no nosso mundo. Às vezes é uma questão de verossimilhança. Coisa que esse trailer do Batman x Superman e frases à la loca como as que andamos ouvindo por aí em filmes de super-heróis não tem. História em primeiro lugar. Se sobra tempo, coloca uma explosões pra encher linguiça, mas que tenha, por favor, algo a ver com o que está acontecendo na história. É pedir muito, Marvel Studios e Warner Bros.?

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5 Comments

  1. Acho que os trailers estão basicamente refletindo o próprio público que já busca saber informações vitais do filme antes mesmo de lançar, que já quer ser empolgado com um trailer, um público apresado, é a era do hype. Ultimamente o trailer vem se tornando quase tão importante quanto o filme em si, e toda a internet se movimenta quando um trailer lança, milhares de visualizações e analises do trailer. O trailer está vendendo muito o filme agora, tudo em cima do hype que o trailer passa. Trailers compostos por cenas de emoção pela emoção, cenas demais, frases de efeito Você vê os estúdios querendo empolgar até demais o seu público (vise a cena da trindade reunida ou a cena da luta do 2×1 do teaser trailer do Guerra Civil). Acho que a função em si do trailer tem mudado com o tempo, o trailer era para dar uma base da história quase como uma sinopse e te deixar curioso com a trama. Eles cortavam cenas no meio, misturavam cenas desconexas e deixavam tudo muito vago. Agora trailer serve para empolgar e criar hype. Pessoas já com opiniões totalmente formadas antes de ver o filme. Você vê o trailers revelando personagens, cenas, um pouco trama, coisas que deveríamos (ou queríamos) ver no filme, não em um simples trailer.

    Eu pessoalmente acho que aos poucos os filmes de super-heróis vão sair dessa dicotomia entre sombrio/divertido e vão começar a adentrar em vertentes mais complexas e abrangentes sem ficar se auto-repetindo em fórmulas. Vide Capitão América: Soldado Invernal que é basicamente um filme de espionagem; ou o Homem-formiga que mesmo com piadas que eu achei até bobas, é um filme de assalto com um super-herói. Aos poucos os super-heróis vão começar a penetrar outros gêneros como faroeste, ficção científica e afins e o pessoal vai conseguir entender que super-heróis não é um gênero.

    E outra eu sou fã do Superman e até prefiro ele do que o Batman, e eu gostaria de ver um Superman despretensioso, que representa esperança, o símbolo da paz e do amanhã que vai te dar aquele sorriso e ter aquela presença ingênua e até acolhedora. Até posso entender que O Homem de Aço é uma certa construção do mito do Superman (pra mim que falha, mas enfim), então nesse deveria ser o Superman, o escoteiro azul.

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  2. Não sou do mundo dos quadrinhos, sou um mero espectador. Mas também venho reparando isso. No trailer de Bat X Super, já sabemos que teremos o Apocalipse e – talvez – como ele foi construído, quando a Mulher Maravilha vai aparecer pela primeira vez… Aposto que em fevereiro sai um outro trailer falando do Aquaman.

    Abraços
    http://www.falamacaco.wordpress.com

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  3. Particularmente eu gostei muito do O Homem de Aço, o tom sombrio, a construção do personagem, efeitos e a batalha a lá Dragon Ball e ainda espero que a Marvel consiga fazer um filme do Thor desta maneira, onde o Mundo Sombrio de “sombrio” mesmo não teve nada. Mas o problema dos traillers, principalmente de filmes de super heróis é o excesso de informação e cenas que poderiam ser guardadas para o filme. Um exemplo é Interestelar, pouco foi mencionado no trailler e tudo foi guardado para a experiência de assistir e vivenciar o filme.

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