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A Ilha Paraíso em Que As Mulheres Não Entram

Os fãs de quadrinhos sabem da existência de Themyscira, a Ilha Paraíso, lar da Mulher-Maravilha, uma ilha sagrada dos gregos em que os homens são proibidos de entrar. Mas eis que eu me deparo com essa notícia que diz que existe no Japão uma ilha sagrada, ao sul do arquipélago japonês em que MULHERES não podem entrar. Qual o significado dessa ilha para o nosso mundo e o que ela tem a ver com Themyscira?

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Themyscira, a Ilha Paraíso!

Vamos começar falando da Ilha Paraíso, do universo de histórias da Mulher-Maravilha. Nela habitam as nobres guerreiras Amazonas, da mitologia grega. Nos quadrinhos, diferente daquelas, elas não cortam os peitos fora em sinal de guerra e igualdade masculina. Porém, assim como na mitologia, a Ilha Paraíso de Themyscira foi visitada por Hércules e seus homens. O roubo do cinturão da rainha Hipólita ficou conhecido como um dos 12 Trabalhos de Hércules. Naquela noite, Hércules enganou Hipólita e suas irmãs, e as amazonas se deitaram com os Hércules e seus homens. No entanto, eles as tornaram escravas e as violentaram até que elas puderam reagir. Após expulsar Hércules e seus homens, algumas delas fugiram da ilha formando a tribo de Bana-Mithgal, outras se mantiveram na ilha e tornaram-na um santuário, onde o ser humano masculino jamais pisaria novamente.

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Diana ao resgate de Steve Trevor! Woo-Woo!

Isso se manteve assim até que o Coronel Steve Trevor, da Força Aérea Americana, caiu com seu avião na Ilha Paraíso durante a Segunda Guerra Mundial. A primeira pessoa que ele encontrou e lhe acudiu foi a princesa Diana, a Mulher-Maravilha, que, na origem mais aceita, foi criada do barro por Hipólita, já que as Amazonas não poderiam conceber sem a ajuda de um homem. Do encontro com Trevor, Diana se tornou a Mulher-Maravilha e resolveu se tornar a embaixadora de Themyscira no mundo do patriarcado – ou seja, o nosso mundo.

Conheça mais sobre os bastidores da origem da Mulher-Maravilha.

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A ilha japonesa de Okinoshima ao fundo e à frente Hércules subjugando Hipólita no traço de George Pérez.

Já a ilha da notícia da BBC é o contrário, segundo a cultura japonesa, na ilha de Okinoshima, a presença de mulheres é proibida. Isso acontece há mais de 600 anos. Segundo lendas xintoístas, três imperatrizes foram colocadas no local para proteger todo o arquipélago japonês de ameaças. Lá são realizados diversos rituais para que missões diplomáticas do Japão deem certo e pela segurança das embarcações.

A ilha não é tão grande. Possui 800 mil metros quadrados, o que daria, mais ou menos 6 estádios do Maracanã. Está localizada no mar de Genkai, uma antiga rota de comércio entre o Japão e a Coréia e foi indicada pelo governo do país como patrimônio da humanidade pela UNESCO.

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Saiam, suas bruacas!

Porém, não existe uma explicação para a proibição das mulheres na ilha. Alguns dizem que a religião xintoísta abomina a menstruação e consideraria o sangue do processo biológico algo “sujo e impuro”. Outros acreditam que é por motivo de segurança, pois os caminhos e deslocamentos para a ilha de Okinoshima são muito perigosos para as mulheres. Desde o século IV a ilha vem sido controlada pelo clã Munakata. Hoje os rituais são celebrados nos santuários das três imperatrizes de Munakata conhecidas como Tagorihimi-no-Kami (que representa a neblina do mar), Tagitshuhime-no-Kami (que representa a maré violenta) e a Ichikishimahime-no-Kami (que apresenta os atos de adoração aos deuses).

Claro, que no mundo real o fato de uma “ilha proibida” sempre foi uma lenda em várias culturas. Desde Atlântida a Lemúria, e a diversos filmes de fantasia e ficção científica. Mas, enquanto na fantasia a ilha é proibida para uma maioria opressora, no mundo real ela é proibida de ser penetrada por uma minoria.

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Themyscira, a Ilha Paraíso!

Ainda assim, a Ilha Paraíso é um exílio voluntário. No mundo real, muitas ilhas já serviram de guetos para diversos prisioneiros e degredados. O Brasil, inclusive, que se pensava ser uma ilha, era um desses guetos sociais. O que leva à pergunta, muito além da guerra do sexos, o que a sociedade diria se gays ou negros quisessem se exilar em uma ilha? E qual seria a reação do público se eles fossem exilados à força num lugar desses?

A resposta é bem simples e vai ao encontro da preocupação dos pescadores e moradores dos arredores de Okinoshima. Exilar-se por conta própria é uma ocorrência, ser proibido ou obrigado a alguma coisa, é outro. A velha contestação do livre arbítrio e do destino. Ninguém está destinado a nada, a menos que, por sua livre escolha produza esse final. Em Okinoshima, os locais estão preocupados com o patrimônio da UNESCO e a visita de turistas ao local.

“Não queremos que as pessoas se aproximem dos deuses sem a devida reflexão”, assegura Tadahiko Nakamura, chefe da Cooperativa de Pescaria de Munakata ao jornal japonês The Japan Times. O mesmo devem pensar as Amazonas. Porque cada um sabe o que é sagrado para si. E isso é uma escolha de livre arbítrio, não é uma questão de destino e nem de obrigação.

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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