Duas Maneiras Conflitantes De Se Apreciar Quadrinhos

Numa época em que os spoilers se apossaram da cultura de forma cavalar, resta aos admiradores de quadrinhos duas formas de apreciá-lo. Aqui nós pedimos emprestado a teoria de Roland Barthes, retirada do livro A Câmera Clara, em que disserta sobre a contemplação da fotografia.

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Smile!

Talvez existam duas categorias de apreciadores de quadrinhos. Há aqueles que apreciam uma boa história construída, que querem saber como a espingarda foi disparada, qual foi o processo de produção de uma determinada história em quadrinhos e em que contexto ela se insere. Outros, preferem o BANG!, o tiro e o sangue jorrando aos borbotões. Aquele momento WTF! Ou, em bom português, o momento “putaquepariu”. O spoiler que gerou toda aquela discussão sobre a revista. Outros, ainda, e talvez os mais beneficados, gostam é da combinação das duas coisas.

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O personagem Cara-de-Cu, de Preacher, de Garth Ennis, tentou se suicidar depois da morte de Kurt Cobain. BANG! Não deu certo!

Também temos que dizer que existem HQs que são movidas apenas pelo spoiler, como muitas histórias de Mark Millar e aquelas que são construídas calmamente, envolvendo o leitor aos poucos, como Sandman, de Neil Gaiman. Há ainda aquelas que preparam todo um terreno, para o leitor chegar em determinada parte da leitura e gritar WTF!, como Y: O Último Homem, de Brian K. Vaughan.

 

Roland Barthes chama o ardor pela arte, a busca incessante, o investimento, a aplicação e a construção de STUDIUM. Já o spoiler, a página splash bombástica, a revelação, ele chama de PUNCTUM: a picada. Aquele sentimento que nos incomoda, mas nos faz procurar por mais como alguma cena grotesca numa HQ de Garth Ennis. O punctum é algo que punge, mas também é aquele elemento que nos mortifica e nos fere.

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O filme Ninfomaníaca, de Lars Von Trier: linha tênue entre o erótico e o pornográfico.

Já falei como as HQs tem a capacidade de mudar nossa visão de mundo nos colocando à frente de cenas pungentes. O STUDIUM é uma fotografia erótica, construída para gerar uma reação, escondendo e revelando determinadas partes, com uma composição, uma atmosfera e um clima, determinados para gerar uma reação de libido no espectador. Já o PUNCTUM é a pornografia, é o membro em riste como uma seta pinicando nosso olhar. A foto pornográfica é como uma vitrine que mostra uma única joia, construída para apresentar uma única coisa: o sexo.

 

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A Irmandade Dada, da Patrulha do Destino, de Grant Morrison: o nonsense.

O STUDIUM entretanto está no campo do gosto/não gosto. Não se trata de uma história ou imagem que desafia nossa lógica, nossos valores. O studium não provoca reações exacerbadas como OMG! BFF! Ou nosso amigo WTF!. Ele faz outro serviço que é revelar as intenções do autor com a obra, entra em harmonia com elas, aprova-las, desaprová-las, mas sempre compreendê-las – coisa que as obras de Grant Morrison, num primeiro olhar, não poderiam suscitar, já uma história de Scott Lobdell nos X-Men falando sobre preconceito, geraria um studium. Trata-se de um contrato firmado entre criador e consumidor.

 

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Tira do catalão Joan Cornellà.

Há um paradoxo que se acerca sobre a leitura do STUDIUM, em que obras consideradas “cultas” como um Jimmy Corrigan de Chris Ware, a leitura se torna um gesto preguiçoso. Você folheia. Olha rápido e indolentemente. Demora e se apressa. Já a leitura do PUNCTUM, em obras como as tiras Joan Cornellà no livro Zonzo – que será lançado pela primeira vez no Brasil, este ano, pela Editora MINO – produzem uma absorção de conteúdo ao mesmo tempo curta e ativa, encolhida como uma fera prestes a te abocanhar.

Obras como as de Cornellà, ou até mesmo algumas tiras da Laerte Coutinho são tão denudadas e tão pornográficas que parecem que querem retirar o véu de coisas que vão além delas. Como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a ver. “Fotografam-se coisas para expulsá-las do espírito”, dizia o escritor de A Metamorfose, Franz Kafka – obra que foi extensivamente adaptada para os quadrinhos, “Minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos”. Quadrinhos pungentes como os citados no link acima, os de Laerte e de Cornellà são maneiras de expressar ao máximo nosso espírito, aquele que está congelado numa fotografia ou num imagem estática de um quadrinho. Quem fecha os olhos para o PUNCTUM ou até mesmo ao STUDIUM não é capaz nem de compreender e nem de apreciar um quadrinho, quiçá levar alguma lição de qualquer um desses materiais citados para sua vida.

 

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