Fenômeno: Miss Marvel – Nada Normal, de G. Willow Wilson e Adrian Alphona

A nova Miss Marvel, a muçulmana Kamala Khan, é o novo fenômeno de vendas e crítica da  Nova Marvel. Li o seu primeiro encadernado que saiu em janeiro no Brasil para tentar entender a razão. O resultado você vê nessa resenha.

MSMARVEL
Kamaala Khan desenhada por Sana Amanat

Pra começar, o arco de origem da nova Miss Marvel lembra muito outro grande sucesso da Marvel, porém há quase 15 anos atrás: o Homem-Aranha Ultimate. Não o atual, Miles Morales, mas o bom e velho Peter Parker. Com um arco descomprimido, em que as ações demoram para acontecer e o personagem está mais preso nas suas dúvidas cotidianas e na descoberta de seus poderes do que com vontade de lutar com algum supercriminoso. uma diferença que Miss Marvel tem com as outras novas HQs é que ela tem um elenco de coadjuvantes bem pensado. Ela não se baseia apenas na ação e na porradaria, mas das relações entre os personagens e a dinâmica que isso dá à série e às histórias.

Enquanto lia as histórias e desventuras de Kamala Khan, por acaso, eu estava na praia, onde não tem TV à cabo, assistindo no Vale a Pena Ver de Novo a novela Caminho das Índias, de Gloria Perez. No capítulo de hoje, a filha mais nova da família principal foge de casa para viver seu sonho de ser atriz em Bollywood, recusando as tradições da família que quer que se case com um rapaz pré-escolhido. Na história de Kamala, que é descendente de paquistaneses, também há o conflito em se manter firme à tradições para agradar à família ou se r moderninha para agradar ao amigos. Aliás, o Paquistão se encontra em meio a duas culturas – a árabe (muçulmana) e a indiana (hindu). Logo Kamala é um híbrido das novelas Caminhos das índias e de O Clone, em que Gloria Perez retratou os muçulmanos logo após o 11 de setembro.

ms-marvel-01
Os delírios de consumo de Kamala Khan.

Não preciso dizer que Miss Marvel é uma HQ riquíssima em embarcar numa cultura diferente para nós, ocidentais. Muito disso é mérito de suas duas criadoras. Sim, duas mulheres: a editora paquistanesa Sana Amanat, cuja personalidade e visual de Kamala foram inspirados e a escritora G. Willow Wilson. Para falarmos de Wilson, que também vem fazendo muito sucesso no título da equipe de Vingadoras só mulheres da Marvel, a A-Force, vamos abrir um parágrafo à parte.

TRUwillow
G. Willow Wilson e uma minifã da Miss Marvel.

Nascida em Nova Jérsei – cidade onde se passa a história de Kamala – em 1982, G. Willow Wilson é uma autora que tem caracterizado seu trabalho pela forte presença da ideologia e da religião. Convertida ao islamismo após se graduar em História e completar seus estudos em língua árabe, Wilson deixou os Estados Unidos e foi morar no Cairo, Egito. De lá, colaborou com uma série de publicações, entre elas Atlantic Monthly, The New York Times Magazine e The Canada National Post, escrevendo artigos sobre temas modernos relacionados a religião e islamismo. Wilson foi a primeira jornalista ocidental a entrevistar o Xeique Ali Gomaa, uma das principais autoridades muçulmanas do Egito e um dos religiosos mais influentes do Islã atual. A escritora também é defensora de mídias novas e alternativas, colaborando para diversos blogs sobre política. A autora divide atualmente seu tempo entre os Estados Unidos e o Egito e se dedica aos quadrinhos, uma paixão que alimenta desde os onze anos, quando leu pela primeira vez a revista The Uncanny X-Men. Influenciada por quadrinistas como Neil Gaiman, Steve Ditko e Grant Morrison, Wilson escreveu em 2007 a graphic novel Cairo, com arte de M. K. Perker, para a Vertigo. Em 2008, sob o mesmo selo e junto ao mesmo colaborador, a escritora lançou a série Air, comparada pelo periódico USA Weekend com o seriado de TV Lost. Air também foi indicada ao prêmio Eisner de melhor nova série em 2009. Para Neil Gaiman, seu trabalho na revista lembra o dos escritores Salman Rushdie e Thomas Pynchon. No mesmo ano, Wilson também escreveu a minissérie Vixen: Return of the Lion para a DC Comics.

A new Marvel Comics cover shows Ms Marvel as Kamala Khan in this undated handout
Rafes de Adrian Alphona para os personagens principais de Ms. Marvel.

Wilson é uma autora única e, embora o visual de Kamala Kahn tenha sido preparado por Jamie McKelvie – da série Jovens Vingadores –, a arte toda única da série é de Adrian Alphona. Você deve se lembrar desse nove ao ler as histórias dos Fugitivos com Brian K. Vaughan nos roteiros. Os desenhos de Alphona são caricatos, como se estivesse ilustrando um livro infantil de Roald Dahl. Seus personagens não são padronizados, pasteurizados e musculosos como se costuma ver em gibis de super-heróis. Eles possuem vários formatos, diferindo conforme sua personalidade.

Mas o ponto alto da série é como a dupla trabalha os poderes de Kamala, sua descoberta dos mesmos e seu treinamento insipiente. Ao mesmo tempo em que trabalham os personagens de maneira fluida, assim como os poderes da nova Miss Marvel, gerando uma combinação certeira que vai, aos poucos, conquistando até o fã mais cético, da mesma forma que fez o Homem-Aranha Ultimate lá pelo comecinho dos anos 2000. Miss Marvel é uma ótima leitura para o leitor novato que não conhece bem os quadrinhos ainda ou para o leitor amargurado que acha que tudo que era bom já foi escrito. Bom divertimento!

Anúncios

6 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s